A biografia autorizada de Steve Jobs, escrita pelo jornalista Walter Isaacson, traz revelações agradáveis e desagradáveis a respeito do criador da Apple, uma das maiores empresas de tecnologia de nossos tempos. O autor, que foi convidado pelo próprio Jobs para escrever o livro, revela durante a redação pedaços da vida e obra de Steve que são alvo de críticas, mas que também remetem a uma personalidade única – mas nem por isso fácil – de se encontrar.
Jobs nunca foi um garoto conformado. Também nunca foi um exemplo a ser seguido. Mas foi muito amado. A rejeição por parte dos pais biológicos e a adoção por parte de Paul e Clara Jobs foram determinantes para sua personalidade: ele sempre precisava provar para si mesmo que era querido e que podia fazer o que quisesse, sem limites, por ter essa recusa em memória. E muitas vezes ele conseguia.
O jovem Steve fazia dietas preocupantes, se interessava por tecnologia e queria mudar o mundo, por meio de sua concentração em ritos espirituais e por meio de uma “caixa azul”, que faria tudo ser diferente. Foi por meio da tal caixa que um Steve conheceu o outro e a parceria Jobs x Wozniak mudaria de vez todo o ramo da tecnologia.
A visão empreendedora de Jobs e a genialidade eletrônica de Woz fizeram os dois garotos se tornarem donos da Apple Computers em 1976. Foi esse compartilhamento de ideais que fez com que a empresa criasse os primeiros computadores realmente pessoais do mundo e se destacasse pela beleza e facilidade na utilização de seus produtos. Mas também nesta época mostrou-se cada vez mais vivo o chamado “Campo de Distorção da Realidade”, termo utilizado em 1981 por um dos funcionários da Apple, para definir o carisma de Jobs, seu poder de convencimento e o impacto que causava nas pessoas, simplesmente fazendo-as acreditar em suas verdades e determinações. Esta mostrou-se uma ferramenta de trabalho indispensável para ele e também algo muito perigoso, tanto para si como para os outros.
Se Steve queria uma coisa, ela funcionaria e ponto. Não havia cronograma que não pudesse ser cumprido, peça que não pudesse ser entregue e prazo que não fosse atendido. Isso o fazia criar realidades paralelas para fazer os negócios funcionarem e era particularmente perigoso quando se tratava de um lançamento de produto: por mais ajustes que pedisse e por mais tempo que estes demandassem, a entrega deveria ser feita na data agendada, pois ela seria “a próxima revolução industrial” ou “o próximo equipamento a mudar o mundo”.
O poder de convencimento dele era tão grande que por vezes equipes inteiras se deixavam entrar em seu “campo de distorção” e ficavam semanas trabalhando sem descanso, de casa, durante a madrugada, aos fins de semana, para cumprir o prazo. Isso fez com que a Apple lançasse grandes produtos, mas ao mesmo tempo garantiu muitos problemas de saúde aos funcionários.
Quando este seu “jeito de fazer as coisas” começou a trazer mais problemas que soluções à Apple, ele foi expulso da empresa, em 1985. Após esse período, trabalhou na criação da NeXT, uma empresa de hardware e sofware para criação de computadores para universidades e se dedicou a um outro trabalho pelo qual se apaixonou perdidamente: ser dono da Pixar Studios, empresa responsável pela criação de grandes sucessos do cinema mundial como “Toy Story”, “Procurando Nemo”, “Up Altas Aventuras”, “Carros”, entre outros clássicos. Jobs comprou a Pixar da Lucasfilms em 1986 pela quantia de U$S 10 milhões e, 10 anos depois, a transformou na mais lucrativa empresa a abrir capital na bolsa de Nova York, uma semana após o lançamento de “Toy Story”. Não dá para dizer que, ele não tinha tino para os negócios.
Só em 1997 que a Apple percebeu a falta que um de seus criadores e principal incentivadores fazia. Em meio a lançamentos de produtos catastróficos, diversos fracassos comerciais e uma quase falência, a empresa convidou Jobs para voltar ao time, como conselheiro. Este aceitou o cargo contanto que não fosse pago por isso. Assim se iniciou o processo de reconstrução da marca e do conteúdo da Apple, que deixou de ser “Computers” para ser uma das maiores empresas de tecnologia de nossos tempos.
Inicialmente Jobs procurou mostrar aos clientes Apple que eles poderiam voltar a acreditar na empresa e lançou a campanha “Think Different”, em 1998, que mostrava por meio de ícones da cultura, música, ciência, esportes e diversas outras áreas, como quem havia “pensado diferente” podia mudar o mundo. A campanha reposicionou a Apple como uma empresa que “inovava”, lançando equipamentos diferentes. O lançamento do primeiro iMac, também em 1998, veio corroborar com essa visão inovadora: ele foi o primeiro computador com monitor e CPU integrados, o primeiro computador “colorido” frente aos tradicionais “beges” da época e uma máquina que trazia um espírito mais jovial, mais “amigável” para aquele “intruso” que estava cada vez mais presente na vida das pessoas.
O lançamento do iPod, em 2001, foi outra de suas grandes façanhas. Jobs percebeu que o mercado de Mp3 ainda ia crescer muito e posicionou a Apple no centro dessa “avalanche”, ajudando a criar não só o mais bonito e potente tocador de música da época, mas todo um mercado de compra legal de músicas que permeia até os dias de hoje, com o lançamento da iTunes Store. A próxima grande revolução mercadológica que a Apple causaria já estava sendo projetada nesta época, mas só foi lançada em 2007.
O ano do iPhone foi aquele que mostrou ao mundo o resultado do que é uma equipe de executivos de uma empresa que trabalha a engenharia e o design juntos, e que está insatisfeita com seus telefones celulares. A criação do iPhone começou em conversas paralelas sobre o que fazer com uma tecnologia que permitia criar uma tela multitouch e como fazer para gostar mais dos aparelhos celulares que havia no mercado na época. Steve não gostava de seu celular e percebeu que ninguém da Apple estava realmente satisfeito com o produto que adquirira. Então, eles resolveram criar seu próprio aparelho, que foi uma revolução no mundo das telecomunicações.
Mas a tela multitouch era para ser usada mesmo no lançamento que viria depois. O mundo já tinha visto muitos e muitos tablets, mas ainda não havia nenhum que fizesse alguém pensar em não ter um computador para fazer tudo ou em ter a necessidade de ter um tablet para algumas atividades em específico. Os notebooks e netbooks dominavam o mercado de micro-computadores, mas em 2010 o iPad veio se juntar ao “time” de equipamentos inovadores da Apple e se tornar outro sucesso infalível.
A cooperação e criação de tantos e tantos sucessos não deixou Steve imune. Em outubro de 2003, dois anos após o lançamento do iPod e quando a Pixar lotava os cinemas de todo o mundo com a animação “Procurando Nemo”, Steve foi diagnosticado com câncer de pâncreas. Em mais uma demonstração de seu “campo de distorção da realidade”, ele se convenceu de que poderia curar a doença apenas com suas dietas e caminhadas. Passou seis meses insistindo que seu tratamento natural era o suficiente antes de fazer um novo exame e diagnosticar que o câncer havia evoluído. Só aí aceitou fazer o tratamento com profissionais.
Essa teimosia, além de poder ter sido uma das causas da morte, ainda o levou a ter muitos problemas familiares. Casado desde 1991 com Laurene Powell, Jobs não foi o melhor pai do mundo para seus três filhos Reed, Erin e Eve, muito menos para Lisa-Bressan, sua filha de um relacionamento anterior. Entretanto, Jobs mantinha uma relação muito afetuosa com seus pais adotivos e, após conhecer a mãe biológica e a irmã, passou a ter com elas uma relação amistosa. Outro grande problema familiar foi sua recusa insistente em relação ao pai biológico, mesmo quando o câncer avançava a passos largos e ele sabia que tinha pouco tempo de vida. A doença realmente o pegou em cheio e em 5 de outubro de 2011 o levou, deixando milhares de fãs e diversos amigos com saudades irrecuperáveis.
Apesar de não ser um exemplo de ser humano em muitos sentidos, Steve Paul Jobs deixou uma marca no universo, justamente por não se ajustar a um “padrão social”: ele queria ser o jovem da contracultura, o representante da liberdade e da inovação, o teimoso. É essa imagem, de que “tudo é possível quando o que você quer pode realmente mudar o mundo que ele carrega e que o faz presente em todos os bate papos sobre tecnologia que acontecem por aí. É essa a imagem que ainda vai brincar com a lembrança de filhos e netos de uma geração que aprendeu a “precisar” de equipamentos que nem sabia que existia. É essa a imagem que vai surgir em nossas mentes daqui há 50 anos, quando alguém mais jovem nos perguntar como foi o lançamento do primeiro iPad.