Amai ao próximo como a ti mesmo: sobre a causa gay no mundo

freeVou voltar aos meus anos de pessoa religiosa para defender a causa gay. Porque acho que este tempo precisa e merece.

Do capítulo 22 do evangelho de Mateus, versículos 37 a 40 se retiram os seguintes ensinamentos:

E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento.
Este é o primeiro e grande mandamento.
E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.

Amarás a Deus sob todas as coisas. Essa parte ok, já sabemos que todos entendemos. E o próximo como a ti mesmo? Quem se ama de verdade se aceita, se respeita, se cuida, tenta aprender o melhor sobre si para melhorar e melhorar o outro. Quem ama o próximo como a si mesmo o aceita, o respeita, cuida do outro, aprende o melhor dele para melhorar a vida e a si mesmo a partir do outro.

Caso esse mandamento fosse mesmo seguido, vocês acham mesmo que a gente precisaria discutir que homofobia é crime? Ao mesmo tempo, que racismo é crime? Que roubo, corrupção e tantas outras coisas são de verdade crime? Não né?

Sinceramente, gostaria de perguntar algumas coisas às pessoas que defendem o casamento apenas de pessoas do mesmo sexo:

- Deus, justo e misericordioso, deve levar ao fogo do inferno um homem ou uma mulher que apenas se identifica mais com um biótipo do que com outro?

- Em sua ampla e infinita misericórdia, nosso senhor Jesus Cristo deve julgar casais que adotaram crianças abandonadas considerando a ação por ter sido feita por pessoas do mesmo sexo e sem considerar a mudança na vida de crianças abandonadas?

- O glorioso rei dos céus não tem nada mais importante para fazer do que se preocupar com o que nós, pobres pecadores, fazemos com nossos órgãos sexuais?

Eu acho uma grande besteira dizer que há versos no livro de Levítico e em outros bíblicos comentando a homossexualidade. Afinal de contas, a Bíblia, livro antigo que é, foi traduzida em milhares de línguas por diversos povos e modificada de acordo com a relação desses povos com seus respectivos tempos. Se fossemos seguir tudo o que a Bíblia fala, nós mulheres precisaríamos passar os dias de nossas menstruações e os 7 dias seguintes isoladas do mundo, sem falar com ninguém, pois “tudo o que a mulher tocar será impuro”, como diz aliás o mesmo livro de Levítico. Imaginem só que beleza passar 14 dias do mês trancada em algum lugar sem falar ou tocar nada nem ninguém. Certíssimo né?

Nos últimos dias vimos a lamentável declaração ignorante e homofóbica de Levy Fidélix nos estarrecer no horário nobre, durante um debate com candidatos a presidente. Mas antes dela, milhares de gays foram mortos, escorraçados, banidos de círculos sociais e tiveram dedos apontados para suas faces em julgamento. Onde está esse amor que deve ser de igual tamanho ao próximo e a si mesmo que não vê que as diferenças entre gostos e opiniões são uma das coisas mais belas que a diversidade humana consegue nos oferecer?

O que seria do azul se todos gostassem do verde? Será que é tão difícil respeitar e entender que o jeito que uma pessoa vive não tem que influenciar mais ou menos na sua maneira de ver?

Para finalizar, deixo aqui um vídeo maravilhoso do Dr. Drauzio Varella que pode esclarecer um pouco mais essa questão, já que infelizmente ainda existe tanta dúvida.

Aí que bom seria se a gente pudesse simplesmente ser livre!

26

26

Tem nem três mês

De vinte-seis

Viu cabelo branco

Primeira vez

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Descarrega emoções

Combustíveis

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Ultrapassa barreiras

Quase instransponíveis

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Fala mais que a boca

Economês

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Não pede desculpa

Nem deseja pêsames

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Sorri, serena

Conta até três

 

Tem nem três mês

De vinte seis

A vida é plena

De deveres

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Começa uma série nova

A cada mês

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Acumula paixonites

Uma por vez

 

Tem nem três mês

De vinte e seis

Insônia incomoda

Acorda às três

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Rugas, pé de galinha

Enfeitam a têz

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Continua rimando

Tudo outra vez?

 

Tem nem três mês

De vinte seis

A vida é mais confusa quando se está mais perto dos trinta…

 

Dos filhos desse solo és mãe gentil… Mesmo?

Tenho escutado cada vez mais relatos emocionados de pessoas que vibram a cada vez que a nossa seleção brasileira entra em campo e nossos compatriotas extrapolam o tempo permitido pela Fifa para a execução do Hino Nacional. Momentos incríveis, memoráveis, em que dá aquele aperto no coração e aquela lágrima emocionada escorre sem a gente nem notar. Nosso hino é com certeza um dos mais belos em letra e música, é realmente emocionante ouví-lo tocar e a galera cantando com tanto empenho e tanto orgulho daquelas palavras. Mas quantas vezes nós paramos para pensar o quão verdadeiros (ou não) são aqueles versos?

Me explico (precisa?): um hino nacional deve ressaltar aquilo que é intrínseco em uma nação, suas glórias, lutas, vitórias e conquistas, seus motivos de orgulho. Muitos versos do nosso hino têm essa função e a executam de bom tom, mas ultimamente eu tenho me incomodado muito com um deles, em específico. Cito: “Dos filhos desse solo és mãe gentil / Pátria amada, Brasil”.

Bom, pátria amada, sem dúvida. Mas “mãe gentil”? Não sei se esse solo já foi mãe gentil para alguém, mas olho ao redor e me preocupo. A quantidade absurda de impostos que pagamos para nada, a falta de qualidade do transporte, a falta de opções para moradia, o preço dos alimentos, das roupas, calçados, o acesso à cultura e ao esporte, os serviços de saúde…

Muita dirão que sou uma burguesia metida, reclamando de barriga cheia com meu iPhone na mão. A estes, só posso dizer que sei muito bem de onde saiu o suor para conquistar cada um dos meus poucos bens: e foi da minha testa. Além disso, a posse de uma ou outra conquista não me eximem do direito de ver de onde vim, para onde vou, de saber como sofri para subir cada um dos degraus que subi e de dizer o que acho que está errado. E tem muita coisa errada.

Trabalhar de oito a doze horas por dia para mal conseguir pagar o aluguel no fim do mês está errado. Ter acesso ao lazer em oportunidades raras em que é barato ou gratuito está errado. Só conseguir fazer uma viagem por ano, quando sobra dinheiro está errado. Passar a vida vendendo o almoço pra pagar o jantar está errado. Filas de dias, de meses no hospital, três, quatro horas de ensardinhamento por dia para ir e voltar do trabalho, depender de bolsas de estudo em faculdades particulares porque a qualidade do ensino público não lhe permite ser capaz de cursar uma universidade pública (que por seu próprio nome deveria servir ao povo, mas não no Brasil), poluição e sujeira por toda parte, falta de água para uns e sobra para outros, péssima distribuição de renda, economia dando sinais de que não está tão bem das pernas, o preço do pão, o preço da breja, o custo Brasil…

Fala aê, pátria amada, o que a gente faz para você ser mais Mãe Gentil? Porque sinceramente… não tá rolando!

Plaquinhas

plaquinhas

 

Na rua onde moro rola de tudo. Estou perto da cracolândia, perto de grandes museus, parques, teatros e shoppings. Perto de alguns dos maiores pontos turísticos da capital.

Desde o anúncio da Copa até a chegada do evento, pouco mudou por lá. Um estacionamento novo aqui, um novo investimento imobiliário acolá, reformas dos pontos de ônibus. Sempre teve buraco na rua e ainda tem. Sempre teve mendigo na rua, sem abrigo e sem condições. Sempre teve cracolândia e ainda tem.

Mas nos últimos dias algo mudou. A única coisa que não tinha e agora tem são as plaquinhas. Placas com indicação dos pontos turísticos, centros de informações, direções. Milhares de placas começaram a surgir em todo o centro velho de São Paulo, na região da Paulista, da Augusta, no metrô e na CPTM, nas rodovias e marginais. Placas, placas e mais placas, num movimento inédito de novas ilustrações para fazer nossos olhos viverem alguns dias de ‘estranheza’, para depois voltar ao normal.

Concluo que não se faz Copa do Mundo com transporte de qualidade, nem com bons aeroportos e estradas, nem com estádios, nem com um país com educação, saúde e cultura para todos, nem com o mínimo de qualidade de vida.

Tudo o que a gente precisa para receber uma Copa do Mundo são placas. E elas estão por aí…

 

 

Da beleza de mudar de opinião

Pessoalmente, sempre acreditei que quando você tem uma opinião formada, você precisa ser inteligente o bastante para defendê-la. Mas sempre achei a mudança de opinião ainda mais bonita, porque ela significa que você teve a decência de deixar-se ouvir, deixar-se comparar, deixar-se convencer.

Nesses 8 anos desse blog (cara, isso aqui existe desde 2006! Sério!) eu já expus minha opinião diversas vezes, sobre diversos temas. Minhas crenças religiosas estão aqui, sua evolução e mudança também. Minhas convicções partidárias estão aqui e suas mudanças também. Minhas preferências musicais, literárias, esportivas, cinematográficas, minha forma de pensar o conceito de família, de amizades, de relacionamentos e algumas das principais inquietações desse ser humano que vos escreve. E todas as mudanças nessas preferências, opiniões, atitudes e pensamentos também passaram de alguma forma por aqui, de forma mais ou menos discreta.

A responsabilidade de ter um blog, por mais que abandonado, é grande, já que é nele que você faz suas ideias se tornarem públicas. E como tornar públicas ideias que você tem medo de mudar?

Da mesma forma que encaro com seriedade a questão de escrever minhas opiniões aqui e relê-las anos depois, vendo o quanto mudei, encaro as coisas que digo por aí. Me dou o direito de ter uma segunda opinião, de ouvir, de tentar novamente, de quebrar meus próprios paradigmas, pré-conceitos.

Ter opinião formada é ótimo. Mudar de opinião é melhor ainda.

Resenha: Her (Ela)

herEstamos todos num futuro não muito distante.

Um futuro em que a tecnologia domina tudo ao redor, e em que computadores conversam com humanos seguindo comandos de voz. É nessa realidade que vive Theodore Twombly, um redator que trabalha em uma empresa que “fabrica” cartas escritas à mão, a partir de informações de clientes e fotocópias de suas caligrafias. Ele é um solitário passando por um difícil fim de casamento e foge de encontrar novas pessoas, vivendo uma rotina tranquila e solitária.

É quando conhece um sistema operacional que promete se adaptar à vida e ao dia a dia de seus usuários que a vida de Theodore muda. Seu OS escolhe o nome de Samantha e, a partir de informações do dia a dia, rotina e preferências, começa a fazer parte da vida dele, cada vez mais se parecendo com uma pessoa real, com quem é possível conversar e conviver. Theodore se apaixona por Samantha e começa a viver um amor virtual com seu computador.

Entre tudo o que é possível enxergar a partir da história de Theodore e Samantha, que passa pelos mesmos percalços de um relacionamento comum, está o que é cada vez mais difícil de evitar: temos sido cada vez mais escravos das facilidades que viver em um mundo cada vez mais tecnológico nos impõe. Em diversas cenas do filme, enquanto Theodore conversava com seu celular, interagindo com fotos, músicas, e “mostrando” o mundo para Samantha, outras pessoas faziam exatamente a mesma coisa com seus próprios OSs. E não é necessário ir muito longe para ver que estamos cada vez mais próximos dessa realidade.

No transporte público, quantas vezes você já se pegou olhando para o lado e vendo uma multidão de pessoas interagindo apenas com o celular / tablet? E no bar, com os amigos, entre uma conversa e outra, parar para ver o que está acontecendo com a galera das Redes Sociais? O que é possível não perder no meio de uma festa em que a foto e a localização são quase tão essenciais quanto o momento em si?

A vida é muito mais do que um sistema pré-moldado e a beleza de estar lá, vivendo cada momento, é justamente a de não ser capaz de falar com 8.316 pessoas simultaneamente ou de se apaixonar por 641. E talvez seja essa a principal mensagem do filme: não adianta querermos ser tão velozes, a verdadeira maneira de aproveitar tudo o que está aqui é justamente ter tempo para isso. Consigo e com o resto do mundo. E em carne e osso, sempre que possível for.

PS: a trilha sonora é do Arcade Fire, então, tem que ver e tem que ouvir!

Ano: 2013
Gênero: Drama
Diretor: Spike Jonze
País de Origem: EUA
Duração: 1h26
Nota: 
8