Dos filhos desse solo és mãe gentil… Mesmo?

Tenho escutado cada vez mais relatos emocionados de pessoas que vibram a cada vez que a nossa seleção brasileira entra em campo e nossos compatriotas extrapolam o tempo permitido pela Fifa para a execução do Hino Nacional. Momentos incríveis, memoráveis, em que dá aquele aperto no coração e aquela lágrima emocionada escorre sem a gente nem notar. Nosso hino é com certeza um dos mais belos em letra e música, é realmente emocionante ouví-lo tocar e a galera cantando com tanto empenho e tanto orgulho daquelas palavras. Mas quantas vezes nós paramos para pensar o quão verdadeiros (ou não) são aqueles versos?

Me explico (precisa?): um hino nacional deve ressaltar aquilo que é intrínseco em uma nação, suas glórias, lutas, vitórias e conquistas, seus motivos de orgulho. Muitos versos do nosso hino têm essa função e a executam de bom tom, mas ultimamente eu tenho me incomodado muito com um deles, em específico. Cito: “Dos filhos desse solo és mãe gentil / Pátria amada, Brasil”.

Bom, pátria amada, sem dúvida. Mas “mãe gentil”? Não sei se esse solo já foi mãe gentil para alguém, mas olho ao redor e me preocupo. A quantidade absurda de impostos que pagamos para nada, a falta de qualidade do transporte, a falta de opções para moradia, o preço dos alimentos, das roupas, calçados, o acesso à cultura e ao esporte, os serviços de saúde…

Muita dirão que sou uma burguesia metida, reclamando de barriga cheia com meu iPhone na mão. A estes, só posso dizer que sei muito bem de onde saiu o suor para conquistar cada um dos meus poucos bens: e foi da minha testa. Além disso, a posse de uma ou outra conquista não me eximem do direito de ver de onde vim, para onde vou, de saber como sofri para subir cada um dos degraus que subi e de dizer o que acho que está errado. E tem muita coisa errada.

Trabalhar de oito a doze horas por dia para mal conseguir pagar o aluguel no fim do mês está errado. Ter acesso ao lazer em oportunidades raras em que é barato ou gratuito está errado. Só conseguir fazer uma viagem por ano, quando sobra dinheiro está errado. Passar a vida vendendo o almoço pra pagar o jantar está errado. Filas de dias, de meses no hospital, três, quatro horas de ensardinhamento por dia para ir e voltar do trabalho, depender de bolsas de estudo em faculdades particulares porque a qualidade do ensino público não lhe permite ser capaz de cursar uma universidade pública (que por seu próprio nome deveria servir ao povo, mas não no Brasil), poluição e sujeira por toda parte, falta de água para uns e sobra para outros, péssima distribuição de renda, economia dando sinais de que não está tão bem das pernas, o preço do pão, o preço da breja, o custo Brasil…

Fala aê, pátria amada, o que a gente faz para você ser mais Mãe Gentil? Porque sinceramente… não tá rolando!

Plaquinhas

plaquinhas

 

Na rua onde moro rola de tudo. Estou perto da cracolândia, perto de grandes museus, parques, teatros e shoppings. Perto de alguns dos maiores pontos turísticos da capital.

Desde o anúncio da Copa até a chegada do evento, pouco mudou por lá. Um estacionamento novo aqui, um novo investimento imobiliário acolá, reformas dos pontos de ônibus. Sempre teve buraco na rua e ainda tem. Sempre teve mendigo na rua, sem abrigo e sem condições. Sempre teve cracolândia e ainda tem.

Mas nos últimos dias algo mudou. A única coisa que não tinha e agora tem são as plaquinhas. Placas com indicação dos pontos turísticos, centros de informações, direções. Milhares de placas começaram a surgir em todo o centro velho de São Paulo, na região da Paulista, da Augusta, no metrô e na CPTM, nas rodovias e marginais. Placas, placas e mais placas, num movimento inédito de novas ilustrações para fazer nossos olhos viverem alguns dias de ‘estranheza’, para depois voltar ao normal.

Concluo que não se faz Copa do Mundo com transporte de qualidade, nem com bons aeroportos e estradas, nem com estádios, nem com um país com educação, saúde e cultura para todos, nem com o mínimo de qualidade de vida.

Tudo o que a gente precisa para receber uma Copa do Mundo são placas. E elas estão por aí…

 

 

Da beleza de mudar de opinião

Pessoalmente, sempre acreditei que quando você tem uma opinião formada, você precisa ser inteligente o bastante para defendê-la. Mas sempre achei a mudança de opinião ainda mais bonita, porque ela significa que você teve a decência de deixar-se ouvir, deixar-se comparar, deixar-se convencer.

Nesses 8 anos desse blog (cara, isso aqui existe desde 2006! Sério!) eu já expus minha opinião diversas vezes, sobre diversos temas. Minhas crenças religiosas estão aqui, sua evolução e mudança também. Minhas convicções partidárias estão aqui e suas mudanças também. Minhas preferências musicais, literárias, esportivas, cinematográficas, minha forma de pensar o conceito de família, de amizades, de relacionamentos e algumas das principais inquietações desse ser humano que vos escreve. E todas as mudanças nessas preferências, opiniões, atitudes e pensamentos também passaram de alguma forma por aqui, de forma mais ou menos discreta.

A responsabilidade de ter um blog, por mais que abandonado, é grande, já que é nele que você faz suas ideias se tornarem públicas. E como tornar públicas ideias que você tem medo de mudar?

Da mesma forma que encaro com seriedade a questão de escrever minhas opiniões aqui e relê-las anos depois, vendo o quanto mudei, encaro as coisas que digo por aí. Me dou o direito de ter uma segunda opinião, de ouvir, de tentar novamente, de quebrar meus próprios paradigmas, pré-conceitos.

Ter opinião formada é ótimo. Mudar de opinião é melhor ainda.

Resenha: Her (Ela)

herEstamos todos num futuro não muito distante.

Um futuro em que a tecnologia domina tudo ao redor, e em que computadores conversam com humanos seguindo comandos de voz. É nessa realidade que vive Theodore Twombly, um redator que trabalha em uma empresa que “fabrica” cartas escritas à mão, a partir de informações de clientes e fotocópias de suas caligrafias. Ele é um solitário passando por um difícil fim de casamento e foge de encontrar novas pessoas, vivendo uma rotina tranquila e solitária.

É quando conhece um sistema operacional que promete se adaptar à vida e ao dia a dia de seus usuários que a vida de Theodore muda. Seu OS escolhe o nome de Samantha e, a partir de informações do dia a dia, rotina e preferências, começa a fazer parte da vida dele, cada vez mais se parecendo com uma pessoa real, com quem é possível conversar e conviver. Theodore se apaixona por Samantha e começa a viver um amor virtual com seu computador.

Entre tudo o que é possível enxergar a partir da história de Theodore e Samantha, que passa pelos mesmos percalços de um relacionamento comum, está o que é cada vez mais difícil de evitar: temos sido cada vez mais escravos das facilidades que viver em um mundo cada vez mais tecnológico nos impõe. Em diversas cenas do filme, enquanto Theodore conversava com seu celular, interagindo com fotos, músicas, e “mostrando” o mundo para Samantha, outras pessoas faziam exatamente a mesma coisa com seus próprios OSs. E não é necessário ir muito longe para ver que estamos cada vez mais próximos dessa realidade.

No transporte público, quantas vezes você já se pegou olhando para o lado e vendo uma multidão de pessoas interagindo apenas com o celular / tablet? E no bar, com os amigos, entre uma conversa e outra, parar para ver o que está acontecendo com a galera das Redes Sociais? O que é possível não perder no meio de uma festa em que a foto e a localização são quase tão essenciais quanto o momento em si?

A vida é muito mais do que um sistema pré-moldado e a beleza de estar lá, vivendo cada momento, é justamente a de não ser capaz de falar com 8.316 pessoas simultaneamente ou de se apaixonar por 641. E talvez seja essa a principal mensagem do filme: não adianta querermos ser tão velozes, a verdadeira maneira de aproveitar tudo o que está aqui é justamente ter tempo para isso. Consigo e com o resto do mundo. E em carne e osso, sempre que possível for.

PS: a trilha sonora é do Arcade Fire, então, tem que ver e tem que ouvir!

Ano: 2013
Gênero: Drama
Diretor: Spike Jonze
País de Origem: EUA
Duração: 1h26
Nota: 
8

Cuidar da própria vida ninguém quer né?

beijo_gay

Ser diferente é bonito, é legal, é charmoso, é sexy.

Sim, é claro, sempre foi. Até o momento em que essa “diferença” te incomoda, ou mexe com o seu jeitinho de ver o mundo.

Os canhotos, os negros, as mulheres, os pobres, as meninas de cabelo “ruim”, os bolsistas, os desempregados, os deficientes físicos e tantos outros grupos que, com maior ou menor grau, sempre sofreram um pouquinho de preconceito, justamente por suas diferenças. E agora a onda de ataques é aos homossexuais.

Sim, porque é bonito demais ver beijo gay na novela, né? No conto de fadas, todos são bonitos, fortes, nasceram um para o outro e não têm esse sofrimento que é ser olhado torto na rua, ouvir piadinhas no trabalho e no transporte, ser olhado diferente e que agora é ter que “não dar pinta” para não ser espancado na rua ou ter que sair em “bando” para não correr o risco de morrer antes de voltar da balada.

De verdade, você não gosta de gays? Não gosta de lésbicas? Porque? Nunca percebeu que eles são pessoas que, assim como você têm sonhos, projetos, planos e ambições? Não tá ligado de que eles têm o mesmo sangue correndo nas veias, o mesmo polegar opositor, o mesmo cérebro de 1,5 kg, a mesma capacidade de raciocínio? Então, qual a diferença?

Ah, a bíblia tá falando que tá errado, que é pecado? Se você acredita nisso, tem que acreditar também na liberdade que o tal deus deu para cada um cuidar de sua vida, fazendo as melhores escolhas para si e “pagando” por elas no dia do juízo final, logo, não existe desculpa.

Pra mim, quem é violento com qualquer pessoa tem um único motivo: faltou liberdade em si, logo, não existe liberdade para o outro. Você que bate em gays por aí queria beijar uma pessoa do mesmo sexo, mas não tem coragem, então reage com violência à expressão de uma liberdade que você não consegue abraçar. É um covarde.

Tudo seria tão mais simples se cada um simplesmente escolhesse ser feliz com suas próprias rotinas, ideias, planos e frustrações, não é mesmo? Todo mundo tem um dente podre, um amor que não deu certo, um medo insuperável, um desejo proibido, um teto de vidro. Se cada um aprendesse a olhar apenas para o próprio mundo e cuidar para que o que gira ao redor do próprio umbigo fosse feito das melhores escolhas para o umbigo em questão, o mundo teria menos guerras e mais compreensão. Mais tolerância. Mais aceitação.

Porque todo mundo quer levantar a bandeira das igualdades quando tá na moda fazer isso, mas enfrentar o furacão no dia a dia é para poucos. 

 

A Sociedade do Espetáculo

perfeitoLuz. Câmera. Ação.

Você, ser humano perfeito, acaba de acordar. O mundo gira a seu redor e você só precisa se preocupar em ser ainda mais perfeito. Você é uma novela, uma série, uma história sem fim que todo mundo tem que acompanhar e participar. Porque você é o ser mais importante do universo.

E porque você é assim tão importante? Ah, porque nasceu, lindo, maravilhoso e perfeito. Com essa “duck face” que aparece em todas as suas fotos, esse seu bronzeado que deixa todo mundo louco, ou esse cachecol que você usa nos dias de frio só pra fazer charminho. E você é um ser humano cheio de virtudes incríveis, que são as mesmas que estão na moda no momento, porque afinal de contas, você não quer criar polêmica. Você foi às manifestações do ano passado porque sua turminha foi, acha as Diretas Já o máximo mas não sabe em que ano aconteceram, digita #NãoVaiTerCopa por aí porque é statis, achou o beijo gay da novela sensacional, mas faz cara feia quando vê dois rapazes de mãos dadas na rua.

Mas a culpa não é sua. A culpa é dos seus pais, que não conseguiram te dizer um não sequer, seja quando você pediu de Natal o brinquedo da última moda e que eles ficaram pagando o ano inteiro, pra você enjoar em dois dias e chamar o Papai Noel de velho babão em seguida, seja quando você reclamou que a professora era uma idiota, apenas porque ela tinha corrigido sua prova do jeito certo ou porque te deu uma bronca na frente dos seus amigos. A culpa é dos seus amigos, que fizeram você acreditar que ser o machão ou a menina mais bonita te fariam ser bem sucedido (a) para todo o sempre. A culpa é do seu tio, que deixava você trabalhar a hora que quisesse no seu “primeiro estágio”. A culpa é do seu professor da faculdade, que não te disse que o seu diploma não valeria nada se você não trabalhasse duro para ser um bom profissional. A culpa é de todo mundo ao seu redor que não abriu seus olhos para a vida, que não é cor de rosa como o céu fica no final do desenho animado. E a culpa é sua sim, por se manter nesse Show de Truman até agora.

Você é esse ser humano que fica feliz a cada novo comentário te dizendo como você é lindo e que faz cara feia quando aquele seu amigo não dá like na 42ª foto que você postou no “Faice hoje”. Você é aquele que xinga seu chefe cada vez que ele te pede para corrigir um erro que você cometeu 495 mil vezes, que não olha na cara da empregada que te serve café, ou que deixa o banheiro do escritório limpo, ou que faz o almoço da galera. Esse ser humano cheio de virtudes que é você, ultrapassa o sinal amarelo porque “dá tempo”, que paga a habilitação porque “todo mundo paga”, reclama dos políticos que tem, mas sempre vota na mesma gente e se conforma em todos os dias levantar e ir para o trabalho chato, passar horas da vida com pessoas que você não gosta, voltar pra casa, ver novela e dormir. Mas nada disso importa porque você veste roupa de grife, gasta muito nas baladas do fim de semana e está sempre sorrindo nas Redes Sociais. Porque você é feliz.

Ou porque você é um bebê mimado, mal educado e cheio de problemas psicológicos. Que finge que tá tudo bem, afinal, a vida segue e você precisa mostrar sua felicidade pra aquela cambada de invejosos.

Corta!

PS: texto inspirado em um bocado de conversa com duas pessoas incríveis (Wendl e Dri, vocês são demais) e nessa matéria aqui.