Peço perdão aos leitores que não são jornalistas, mas preciso dedicar esse espaço também a escrever sobre a minha humilde profissão. Humilde e humilhada. Após a não obrigatoriedade do diploma (que, em certos pontos, até acho adequada, mas esse é um debate para outro post) a profissão caiu em um profundo poço depressivo, ainda mais fundo aqui no Brasil. Não que antes do Gilmar Mendes ser o cara mais odiado por todos os jornalistas brasileiros ser jornalista fosse assim a coisa “mais incrível e maravilhosa do mundo”, mas as coisas têm piorado. Bastante.
Ah, é claro. Ser jornalista é fácil. Só tem que saber escrever e pronto. Poxa, todo mundo sabe escrever, então, todo mundo é jornalista. E não é só a galera das letras ou dos cursos da área de humanas que estão, assim, se “dizendo” jornalistas não. Agora até pra quem só tem Ensino Médio são oferecidas oportunidades intrínsecas à profissão rebaixada.
As empresas estão esquecendo o valor que o jornalista tem, inclusive aquelas que têm por base essa profissão. Pense um pouco: quantas matérias mentirosas você já leu nos maiores veículos de mídia desse país? Quanta falta de apuração você já testemunhou? Até quem não está “por dentro” do mercado percebe, é muita patifaria, é muita traquinagem, é muita “barrigada”, pra usar uma gíria da profissão. Tudo isso é sim resultado dessa turma nova chegando, que não se preocupa com a apuração, que não tem interesse pela notícia, que não tem respeito pela profissão.
E os cargos e salários? Já vi anúncios de vagas de emprego em Belo Horizonte e em São Paulo que ofereciam vagas para repórteres e editores com salários de no máximo R$ 1.500 por oito horas diárias, ou seja, abaixo do piso salarial. E tem gente que topa, que se inscreve, que vai e que aceita porque é assim mesmo, não tem como, preciso sustentar minha família e por aí vai. E o que o sindicato faz a respeito? Nada. Preciso comprovar com um texto publicado em veículo de comunicação que sou uma jornalista para conseguir o MTB e isso demora de 5 a 10 meses. Como vou comprovar isso se não tenho a oportunidade de publicar algo em qualquer veículo sem ter o MTB? Claro, isso só acontece porque eu não tenho um “nome” ou um “QI” adequado né? É um ciclo vicioso e imoral. A turma do sindicato só está preocupada com o partidarismo, não há uma via de mão dupla, não tem gente para defender os dois lados de nada por lá. Que legal a profissão que presa pela imparcialidade ter como líder representativo de sua classe uma entidade extremamente parcial não é? E o debate? E a análise dos fatos?
E a galera que simplesmente se cadastra por aí e começa a escrever para sites e blogs como “jornalista”, desonrando a classe e a profissão? E os textos publicados sem qualquer visão do todo, sem critério, sem pensar, só porque “dá audiência”? E a galera que escreve errado em grandes veículos? E a pressa que faz com que mínimas revisões deixem de ser feitas? E a “invenção de notícias”? E quando não é invenção, mas o veículo simplesmente “esquece” de ouvir os dois lados da história? E os “presentinhos” de poderosos que fazem algumas investigações deixarem de ser feitas, ou a apuração não encontrar provas ou simplesmente deixar de acontecer? E para falar de veículos não impressos, vamos aos programas de TV que nivelam por baixo, por achar que seus telespectadores não têm “nível intelectual” para mais do que as baixarias que apresentam. E os atores e atrizes que viram apresentadores de telejornais ou de programas de TV só porque participaram do último reality show? E a falta de capacitação e retorno?
São tantas as perguntas que faço todos os dias que não consigo deixar de pensar se escolhi mesmo a profissão certa…




