Ele não era um garoto qualquer.
Nos anos 2015, aquela era da informação não lhe interessava nada. 14 anos, jeans velho e rasgado, camiseta com pinturas próprias, feitas à base de tinta de tecido, não vestia nada parecido com as roupas sustentáveis da moda.
Ao contrário do resto do mundo, gostava das bandas velhas. Não estava acostumado ao som colorido, ao fundo musical que permeava aquelas canções cheias de rimas fáceis que atraiam a juventude local. Ouvia a velha bossa, o velho rock, o velho blues. Não conseguia entender porque o mundo estava esquecendo de John Lennon, de Bob Dylan, de Cazuza, de Renato Russo. A morte de Paul McCartney lhe fez chorar por dois meses seguidos, porque ele sabia… o mundo ficara mais pobre depois disso. Queria entender o que aquele som mecânico produzia na mente dos colegas do ginásio, o que fazia com que eles se interessassem por aquilo, mas não achava nada que explicasse tudo, a não ser uma resposta: ele era o único que se importava com tudo aquilo.
Ele não aceitava. Queria mostrar ao Lerry o som dos Los Hermanos. Queria que a Taiz gostasse de Gram. Queria que o Renatinho soubesse cantar “Faroeste Caboclo”, do chará. Queria que a turma entendesse a razão de ele gostar de Queens of the Stone Age, de Blur, de Oasis, e Florence and The Machine, de Artict Monkeys, de Killers, de Aerosmith. Queria que os colegas de classe entendessem que o rock´n´roll não era aquilo que eles viam nos canais do Youtube. Era mais! Era maior. Tinha mais alma! Queria fugir daquele Brasil que reelegia alguém que por vezes ameaçou entregar o país novamente aos militares, queria ir até a Amazônia e parar os madeireiros internacionais que já tinham derrubado mais de 80% da floresta, queria revolucionar. Não entendia aquele mundo em que vivia e em que as pessoas achavam por bem querer conquistar a felicidade própria ao mesmo tempo que desejavam a tristeza do outro. E então teve uma ideia.
Vestiu seu jeans mais velho (e mais confortável), sua camisa xadrez, pôs seus óclinhos de meia lua. Foi para a praça do centro da metrópole, sentou no chão e pediu ao Lerry que lhe emprestasse o violão. Começou a cantar as músicas de amor e de paz que tinha demorado dias para aprender a dedilhar. Cantou, com sua força e com sua alma. Uma pequena roda se formou ao seu redor. Todos observavam aquele garoto como se ele estivesse completamente louco. Ele continuava, e pensando atrair a atenção para o bem, dedilhava mais e mais canções, pedia paz, pedia justiça, pedia humildade. Seus dedos ficavam cada vez mais vermelhos conforme apertava o braço do violão e pressionava as cordas de aço. Entre uma música e outra, ele defendia as ideias de seus pais, que morreram quando ele tinha 8 anos e lhe deixaram sozinho, com seus tios, que eram o oposto do que eles tinham sido. Voltava a tocar. Ficou o dia inteiro assim, não parava de tocar, de cantar, de divulgar suas ideias.
Ao fim do dia, sem muitos por perto, ele parou. Olhou ao redor. Havia umas 10 pessoas num canto da praça, observando. E ele perguntou:
- Vocês concordam comigo?
- É claro. Vamos te ajudar a mudar esse mundo.
- E como faremos isso?
- Vamos cantar. Vamos tocar. Vamos dizer de nossas verdades para o mundo inteiro ouvir.
- E por onde começamos?
- Entre naquele carro. Você vai morar com a gente num lugar legal, cheio de flores, e vamos visitar pessoas e conversar com elas, e nos juntar. Vamos falar com políticos, vamos pedir proteção para a natureza. Lá todo mundo economiza água, se preocupa com o meio ambiente e pesquisa novas fórmulas de desenvolver o consumo consciente. Lá suas ideias farão mais sentido.
- Ótimo. Vamos lá.
Sem medo de deixar nada para trás, Norberto foi. Levou o violão, que Lerry concordou em lhe dar de presente. Não deixou recados, nem mensagens a ninguém. Entrou no furgão, certo que dali para frente, tudo daria certo. Confiava naqueles que ficaram tanto tempo lhe dedicando a atenção e estava curioso para conhecer aquele lugar em que suas ideias e suas lutas fariam mais sentido.
Correu. Ficou tão empolgado com as ideias novas que lhe surgiam na mente que nem reparou no letreiro do furgão em que acabara de entrar.
“Sanatório Estadual de Moon City”.


Era uma garota diferente.











