Gincana da PJ, coisa criativa da vida que dá a maior saudadona. O objetivo era arrecadar produtos de higiene pessoal para doar aos moradores da Vila Rosina, um dos bairros mais pobres de Caieiras, onde também iríamos celebrar a “Semana da Cidadania”, comemoração comum nos calendários de eventos pejoteiros. Éramos mais ou menos 30 jovens, divididos em grupos que tinham letras por nome. Feliz ou infelizmente, alguns dos membros do meu grupo foram embora, o que nos deixou apenas com quatro pessoas [o menor grupo]. Cada grupo deveria recolher entre as casas da região (Rua Guadalajara, Av. Presidente Kennedi, Av. dos Estudantes, Av. Profº Carvalho Pinto e arredores) o maior número possível de produtos de higiene pessoal e, ao fim de uma hora, somar os pontos para cada produto. Saímos.
Passamos em uma, duas, três, quatro, cinco casas e nada. Eu, Russa [nome de nascimento: Daniela], Binho [nome de nascimento: Robson] e um outro garoto da Vila Rosina, que infelizmente não lembro o nome nem o apelido, explicávamos às pessoas quem éramos, o que estávamos fazendo, para quê, e como, mas as pessoas do centro de Caieiras têm coração duro, eu acho. Enfim, a história é a da bucha do pão duro, então, não nos alonguemos mais nisso.
Na sétima casa, um senhor lavava a varanda. Eu fui falar com ele primeiro:
- Boa tarde, tudo bem com o senhor?
- Tudo.
- Então, nós somos da Pastoral da Juventude e estamos arrecadando…
- Fala rápido mocinha, que eu tô ocupado…
- Ah ta – interrompeu a Russa – então, nós estamos arrecadando produtos de higiene pessoal para doar pro pessoal da Vila Rosina, o senhor pode nos ajudar com …
- Olha aqui minha querida, eu não fiz compra essa semana e não tenho nada aqui em casa agora pra dar pra vocês, então, por favor…
- Então meu senhor, nós só estamos recolhendo produtos de higiene pessoal para as pessoas carentes da Vila Rosina, e queremos saber se o senhor pode ajudar com uma esponja de banho, um sabonete, escova de dentes ou qualquer coisa que não vá lhe fazer falta – interrompi eu antes que ele conseguisse respirar.
- Ta… serve uma bucha? É tudo o que eu tenho!
- Bucha de banho, claro que serve! Que Deus te abençoe.
- Vou buscar, aí vocês vão embora ta?
- Ok. – Agora foi a vez do Binho de responder.
Lá entrou o senhor carrancudo. A nossa surpresa por aquele velho ranzinza ter um pouco de coração e doar alguma coisa não foi maior do que a nossa surpresa quando ele voltou, com a bucha na mão.
- Ta aqui. Agora vão embora.
- Valeu hein? Deus te abençoe!
Mal podíamos acreditar no que tínhamos nas mãos. Era sim uma bucha, mas não era de banho, era de lavar louça. O pior: estava usada, porém seca, e não tinha nem um pacotinho pra disfarçar. Meu Deus do céu! O que era aquilo. Ficamos tão indignados que, para cumprir com todas as tarefas do grupo, demos ao nosso o nome de “A Bucha do Pão Duro” e fizemos desse veínho safado o nosso grito de guerra.
“A gente se matou!
Eu juro!
Eu juro!
Eu juro!
Mas só o que conseguimos,
Foi A BUCHA DO PÃO DURO!!!”
Mas como tudo para a galera da PJ vira motivo de festa, pintamos a tal bucha, fazendo uns desenhos com caneta vermelha e a nossa assinatura, e a cortamos em 4 partes iguais. Aqueles pedaços de bucha viraram chaveiros de mochila e nos acompanharam, como pedaços da nossa história.
Valeu velhinho rabugento. Vou lembrar com carinho de você, pra sempre!