Tenho Mais Discos Que Amigos =)

Calma gentem! Não tô querendo dizer que vocês lindos amiguinhos que frequentam esse blog não tenham importância pra mim, ou que meus CDs sejam mais significativos que amizades. É que agora eu sou a mais nova colaboradora do site Tenho Mais Discos Que Amigos, um portal de música super legal, com uma galera mó experta escrevendo profissionalmente sobre o mundo da música.

O site foi criado pelo Tony Aiex e tem o objetivo de compartilhar com o mundo como é legal ouvir e consumir música, além de saber o que bandas legais estão fazendo por aí e onde estão as inovações do ramo. Ou seja: é perfeito pra mim né? uhauahua

Encontrei esse achado da internet a pouco mais de seis meses e acompanho diariamente, porque tenho um tique nervoso com música sou extremamente vidrada no mundo musical. Aí, como tava lá sem fazer nada e pans, resolvi me convidar pra colaborar e pra minha surpresa o Tony gostou das besteiras que escrevo por aí e aceitou a colaboração, fazendo essa criança aqui ficar feliz pra caramba!

Enfim, CORRÃO lá agorinha pra conferir meus textos e os dos outros colaboradores, que são fodelões também. Adiciona também o site nos seus favoritos e segue nóis no Twitter e no Facebook pra saber das novidades, beleza?

Jornalismo: uma profissão humilhada

Peço perdão aos leitores que não são jornalistas, mas preciso dedicar esse espaço também a escrever sobre a minha humilde profissão. Humilde e humilhada. Após a não obrigatoriedade do diploma (que, em certos pontos, até acho adequada, mas esse é um debate para outro post) a profissão caiu em um profundo poço depressivo, ainda mais fundo aqui no Brasil. Não que antes do Gilmar Mendes ser o cara mais odiado por todos os jornalistas brasileiros ser jornalista fosse assim a coisa “mais incrível e maravilhosa do mundo”, mas as coisas têm piorado. Bastante.

Ah, é claro. Ser jornalista é fácil. Só tem que saber escrever e pronto. Poxa, todo mundo sabe escrever, então, todo mundo é jornalista. E não é só a galera das letras ou dos cursos da área de humanas que estão, assim, se “dizendo” jornalistas não. Agora até pra quem só tem Ensino Médio são oferecidas oportunidades intrínsecas à profissão rebaixada. As empresas estão esquecendo o valor que o jornalista tem, inclusive aquelas que têm por base essa profissão. Pense um pouco: quantas matérias mentirosas você já leu nos maiores veículos de mídia desse país? Quanta falta de apuração você já testemunhou? Até quem não está “por dentro” do mercado percebe, é muita patifaria, é muita traquinagem, é muita “barrigada”, pra usar uma gíria da profissão. Tudo isso é sim resultado dessa turma nova chegando, que não se preocupa com a apuração, que não tem interesse pela notícia, que não tem respeito pela profissão.

E os cargos e salários? Já vi anúncios de vagas de emprego em Belo Horizonte e em São Paulo que ofereciam vagas para repórteres e editores com salários de no máximo R$ 1.500 por oito horas diárias, ou seja, abaixo do piso salarial. E tem gente que topa, que se inscreve, que vai e que aceita porque é assim mesmo, não tem como, preciso sustentar minha família e por aí vai. E o que o sindicato faz a respeito? Nada. Preciso comprovar com um texto publicado em veículo de comunicação que sou uma jornalista para conseguir o MTB e isso demora de 5 a 10 meses. Como vou comprovar isso se não tenho a oportunidade de publicar algo em qualquer veículo sem ter o MTB? Claro, isso só acontece porque eu não tenho um “nome” ou um “QI” adequado né? É um ciclo vicioso e imoral. A turma do sindicato só está preocupada com o partidarismo, não há uma via de mão dupla, não tem gente para defender os dois lados de nada por lá. Que legal a profissão que presa pela imparcialidade ter como líder representativo de sua classe uma entidade extremamente parcial não é? E o debate? E a análise dos fatos?

E a galera que simplesmente se cadastra por aí e começa a escrever para sites e blogs como “jornalista”, desonrando a classe e a profissão? E os textos publicados sem qualquer visão do todo, sem critério, sem pensar, só porque “dá audiência”? E a galera que escreve errado em grandes veículos? E a pressa que faz com que mínimas revisões deixem de ser feitas? E a “invenção de notícias”? E quando não é invenção, mas o veículo simplesmente “esquece” de ouvir os dois lados da história? E os “presentinhos” de poderosos que fazem algumas investigações deixarem de ser feitas, ou a apuração não encontrar provas ou simplesmente deixar de acontecer? E para falar de veículos não impressos, vamos aos programas de TV que nivelam por baixo, por achar que seus telespectadores não têm “nível intelectual” para mais do que as baixarias que apresentam. E os atores e atrizes que viram apresentadores de telejornais ou de programas de TV só porque participaram do último reality show? E a falta de capacitação e retorno?

São tantas as perguntas que faço todos os dias que não consigo deixar de pensar se escolhi mesmo a profissão certa…

O Repórter do Século conta um pouco da história de um dos melhores jornalistas brasileiros

José Hamilton Ribeiro é um homem completo. Escolheu a profissão certa para si e fez do seu jornalismo uma das grandes referências nacionais à profissão, foi fundo em cada um dos temas que escolheu para reportar, exerceu a profissão em diversos meios de comunicação, sempre com a mesma paixão, a dedicação do jornalista realizado e é hoje um dos nomes mais lembrados quando o assunto é jornalismo de qualidade.

O livro “O Repórter do Século”, da coleção Vida de Repórter, exibe as 7 matérias de autoria de Ribeiro e de equipes com as quais trabalhou ganhadoras do Premio Esso, maior premiação do jornalismo nacional. Entre os extras da publicação, também estão duas reportagens sobre a externa mais famosa de Ribeiro: sua passagem pela Guerra do Vietnã, onde o jornalista perdeu a perna esquerda ao pisar em uma mina vietcong em um campo de batalha.

Com apresentação de Ricardo Kotscho, outro grande nome do jornalismo brasileiro, o livro também conta com um pingue-pong onde Ribeiro destaca as dez perguntas que mais lhe fazem em entrevistas, quadros com os dados dos ganhadores de Prêmios Esso nos anos em que Ribeiro foi premiado e a cronologia do jornalista até o ano de 2006, quando o livro foi publicado. A obra é de leitura obrigatória para todo jornalista / estudante de jornalismo, mas também é recomendada para aqueles que desejam conhecer um pouco mais da história do jornalismo brasileiro e de como as reportagens de revista eram mais completas num tempo que hoje não é mais possível de ser recuperado.

Jornalista… e agora?

O ano inteiro eu passei lutando para terminar o meu trabalho de conclusão de curso. Mesmo sabendo que depois disso eu ainda teria os 6 meses de adaptações com as minhas matérias do primeiro semestre (maravilhosa Universidade Paulista ¬¬), eu sabia que chegar a esse final seria super positivo. E foi. A Aline Fontes e eu tiramos a nota máxima, o Saúde pra Vida foi muito elogiado, a apresentação foi incrível.

Mas e agora? Sou uma jornalista, vou tirar o meu MTB em breve, já estou com uma pós-graduação na cabeça e… e o quê? O que é que essa formação me trás de novo? É a mesma sensação do “completar 18 anos”: você espera a vida inteira pelo aniversário que te dará de presente a maioridade, mas, quando ele finalmente chega, você não entende o porquê de ter esperado tanto por aquilo. É bem assim que me sinto.

Ser uma cidadã formada só trouxe a diferença de um papelzinho bonito à minha vida (que eu ainda nem tenho em mãos, diga-se de passagem). Minha família está super orgulhosa da primeira filha formada, meus amigos estão do meu lado super felizes também, é toda uma alegria imensa. Mas, o que há de novo? Só cheguei ao fim de mais uma jornada da vida, com um sorriso de vitória no rosto.

Agora é esperar o que ainda está por vir…

TCC é uma coisa que acaba com a vida das pessoas, mas dá um orgulho quanto dá quase acabando!

O meu filho, e filho da Aline Fontes também, “Saúde pra Vida” tá quase pronto.

Olha que gracinha:

http://www.saudepravida.wordpress.com

http://www.saudepravida.com.br (em construção)

http://www.twitter.com/saudepravida

Não é lindo? *-*

TCC = TEORIA DO CAOS CEREBRAL


Contando de hoje, tenho exatamente SEIS dias para entregar à banca de professores a primeira parte do meu Projeto Experimental – ou PREX para os mais íntimos. Neste momento, sinto que não consigo mais organizar bem minhas idéias, não tenho mais argumentos reflexivos e a minha capacidade de assimilação de conteúdos está precariamente reduzida. Tudo isso me leva a pensar algumas coisinhas:

  • Preciso MUITO MESMO de um calendário para organizar direitinho a minha vida daqui pra frente;
  • Estou só na primeira fase e já estou sem forças, o que será de mim quando a metade do ano chegar? E o fim do ano chegar? Será que vou sobreviver?;
  • Preciso de energéticos pra me manter acordada o máximo de tempo possível;
  • Preciso ler MUITO;
  • Quero dias de 35 horas!

Bom, acho que é isso. Num próximo post, quando houver mais tempo hábil, explico direitinho o meu projeto e aí, vou contar com a ajuda dos meus queridos leitores para sugerirem coisinhas interessantes, ok?

[perdão se este texto parecer algo de segunda série... não estou com cabeça, juro!]

Pedaços de Notícias

Do último fim de semana pra cá algumas coisas curiosas aconteceram. Outras legais. Todas válidas.


Algumas delas:
- Finalmente saiu a primeira edição da Revista The Wall (foto) revista on line voltada para o rock´n´roll. A matéria de capa é uma construção sobre a banda Coldplay, a que mais vendeu CD´s em 2008 e as razões para tamanho sucesso. Sim, eu assino a matéria. Recomendo que vocês cliquem imediatamente no link acima e pelo amor de Deus devorem a revista, que está inteirinha fantástica! 

- O programa Tô no Palco apresentou no último domingo a primeira edição do “Coisa de Fã”, um especial que pretendemos fazer com fãs de diversas bandas, para contar suas histórias e loucuras por seus idolos. A coisa foi tão bacana desde a idéia que eu tive que, logo de cara, apresentar a minha nada conhecida paixão por Skank. E foi maravilhoso. 

“O Curioso Caso de Benjamin Button” é um filme que precisa ser visto. Logo vou postar uma resenha dele aqui, mas eu recomendo, é d+.

- Primeiro dia na faculdade. E começar o ano lendo Machado de Assis não é exatamente o que um jornalista programa, mas quem disse que eu preciso fazer o que um futuro jornalista programaria? Não, não li em sala. Mas farei mais visitas à biblioteca da faculdade. Depois que eu terminar, os “Contos Escolhidos” do meu amado Machado de Assis darão outra boa recomendação aqui.

Este é um post curto, mas logo tem mais.

Boa Semana a todos!

Vamos comemorar como idiotas?

Parabéns jornalistas! Hoje é seu dia! Dia do homem que vive à serviço da informação, da mulher que não para um instante, do filho que não vê direito os pais porque fica na redação até tarde, do marido e da esposa mais ausentes que presentes, da mulher que não para de ler, do homem que vive escrevendo, desta parcela nata da sociedade que se dedica ao saber, ao informar, ao noticiar, à prestação de serviço. É hoje um dia feliz, um dia de comemoração, um dia que fica sempre marcado. Mesmo?

Milhares de jornalistas morrem a cada ano defendendo suas pautas em matérias que não interessam a todos que sejam divulgadas, e acabam por ser vítimas daqueles que não deviam ter sido citados em suas matérias. Outros milhões morrem também, tentando emplacar sua pauta, no meio do jornalismo cada dia mais sujo e fragmentado que a nossa “sociedade da informação” impõe. Será que estamos vivendo em uma sociedade que valoriza tanto a informação como se diz valorizar, ou é a “informação pronta” a mais presente entre os jornais e revistas da atualidade, informação esta produzida por agências de comunicação e assessorias de imprensa? A publicação de releases ao invés de notícias nos jornais, revistas e sites torna-se cada vez mais freqüênte. Por outro lado, será que o jornalista que recebeu o release teve tempo de apurá-lo, ou foi obrigado a publicar esta pauta, junto à diversas outras, pelo pouco tempo que a empresa de comunicação onde trabalha lhe deu para o trabalho com diversas outras matérias?

Ainda bem, nem tudo é lástima! Temos uma maga amiga sempre ao nosso lado em todos os momentos. A internet! Esta que vos fala só vos fala porque tem na internet um veículo de comunicação que lhe deixa ser livre para falar, para se manifestar livremente, para dizer o que pensa. O grande apoio para os jornalistas que hoje são calados por seus chefes e editores é esta multifacetada ferramenta que dá voz ao jornalista através dos maravilhosos blogs, veículos onde a liberdade é total.

Entre a lástima de ver a profissão que escolhi cada vez menos valorizada, e a alegria de ver ainda alguma rara saída para exercê-la, pergunto: Há o que comemorar? Acho que sim! Afinal, hoje ainda é dia daqueles heróis que citei no início, os que realmente vivem pela notícia, sem deixar que uma amarra ou outra lhe prenda ou lhe prive do real valor profissional que tem o jornalista. Feliz dia do jornalista também aos estudantes de jornalismo, universitários que assim como eu, querem chegar ao fim do curso, e sentir a sensação maravilhosa de dizer ao mundo um EU SOU JORNALISTA, orgulhoso e honrado.

Enfim… vamos mais uma vez comemorar como idiotas ou vamos fazer algo pra ter realmente o que comemorar? Cabe a cada um de nós tentar mudar o que aí está, na esperança de trazer a qualidade do jornalismo para a vida das pessoas que pretendemos informar.

Entrevista com o jornalista Alisson Ávila

Detalhes da Entrevista: No segundo semestre de 2007, entre os trabalhos propostos para a faculdade estava a criação e edição de uma revista, o que na UNIP é chamado de PIC (Projeto Integrado de Comunicação). Meu grupo escolheu entre os temas propostos o “Sensacionalismo na Imprensa” e começamos a correr para conseguir pautas, matérias, artigos, resenhas e entrevistas. Surgiu a idéia de entrevistar o jornalista Alisson Ávila, que à época acabara de ser demitido pelo Meio e Mensagem por não aceitar alterações em uma matéria sua, que divulgava uma pesquisa. A tal pesquisa mostrava a queda de audiência de alguns programas da Rede Globo, e ao mesmo tempo, o crescimento dos níveis de audiência da Rede Record. No mesmo período, a revista Carta Capital o convidou para o trabalho como free-lancer e deu à sua matéria a capa do periódico. Estas e outras curiosidades podem ser lidas abaixo, na entrevista feita por mim Raquelline Curvelo, em parceria com Gisele Santos.

Entrevistado: Alisson Ávila
Veículo: Revista Imprensacionalismo (PIC – Unip – 3º Semestre – 08/2007)

ALISSON ÁVILA FALA SOBRE A PROFISSÃO DE JORNALISTA

Alisson Ávila, repórter demitido do jornal Meio e Mensagem por fazer uma matéria sobre a queda de audiência da Globo, fala com exclusividade pra nossa revista sobre a profissão de jornalista, a manipulação da imprensa, dilemas enfrentados dia-a-dia e sensacionalismo. Confira:

por: Raquelline Curvelo e Gisele Santos

R.I – Como você avalia o uso do sensacionalismo na imprensa brasileira?

Alisson
- Isso não é uma questão exclusiva do Brasil, é algo que a gente enxerga em muitos lugares do exterior também, e no Brasil acho que tem uma discussão muito grande a respeito do papel da TV porque ela acabou tendo certa responsabilidade sobre a sociedade, sobre a educação, que em tese não é 100% do papel dela. Por mais que a gente discorde, embora a televisão seja um concessão publica, ela tem as questões dela de abastecer as pessoas com entretenimento, dentro desse processo de entretenimento, o sensacionalismo acaba aparecendo como um elemento importante. Eu acho que tem duas coisas: primeiro essa necessidade de se fazer entretenimento, não significa que a gente tenha que apelar para o sensacionalismo, uma coisa é bastante diferente da outra. Dá para dividir entretenimento de sensacionalismo. E independente disso, as empresas deveriam além de tomar esse tipo de atitude, em minha opinião, investir de verdade em projetos de informação e de formação em horários melhores na grade de tv. Eu acho que televisão não substitui escola nem pai e mãe, mas ela tem realmente um dever social importante, eu acho que daria para encontrar um caminho intermediário entre a necessidade de entretenimento que gera audiência e faturamento com o processo de evitar o sensacionalismo e trazer um pouco mais de informação de modo geral para as pessoas.

R.I – Segundo os dados do Ibope, na grande são Paulo a Globo sofreu uma queda na audiência de 9,5% no chamado horário nobre na comparação de agosto de 2006 com o mesmo período desse ano. Você acredita que as outras emissoras possam ultrapassar essa grande líder que é a Globo?
Alisson –
A matéria que eu fiz para a Carta Capital, que era originalmente para outro veículo, mas foi para a Carta, ela procurou fazer uma análise totalmente técnica da questão, ou seja, eu procurei honrar a palavra reportagem, eu tentei me limitar a reportar para os leitores o que os dados diziam. Eu não tenho nada contra e nem a favor a Globo, e nem da Record e nem contra setor de mídia nenhum. No futuro eu acredito que a competição e principalmente a pluralidade na mídia brasileira vai aumentar, é um caminho natural, porque o Brasil é um país muito grande e importante economicamente no mundo, é natural que com o tempo a gente tenha um amadurecimento do mercado de mídia no Brasil, que hoje continua com as mesmas coisas das antigas, é o que mostra assim a velha característica do nosso país de misturar o futuro com o passado, como poucos países, onde tem um monte de coisas tecnológicas, modernas, e ao mesmo tempo tem mão de obra escrava, trabalho infantil, e concentração da mídia em pouquíssimos grupos. Eu acredito que a tendência natural no futuro é que essa diversidade aumente, se a Globo vai perder ou não, eu não tenho como responder, e eu absolutamente não estou torcendo pra isso, quero deixar isso muito claro, eu não sou a favor nem contra ninguém. Eu tentei me limitar a fazer meu trabalho de repórter que era contar o que os dados estavam dizendo. Se alguém vai ultrapassar depois ou não, é uma outra questão a ser debatida, particularmente eu acho que sim, os números estão indicando que, ainda se tratando de mídia, vai aumentar a diversidade, e aí uma parcela de mercado pode diminuir.

R.I – Baseado no seu texto “Colosso, não mais impávido”, você acredita que essa manipulação pode prejudicar a qualidade da programação, e o que poderia ser feito para em mudança positiva, em relação ao que é exibido hoje em dia?
Alisson
- É muito importante que nós não sejamos ingênuos, mas temos que enxergar que manipulação há em qualquer mídia. Eu não acredito em imparcialidade, o cara do jornal da esquerda vai fazer matérias com abordagem de esquerda e irritando a direita, o cara da direita vai fazer a mesma coisa. O cara que não entra em política, vai falar sobre o que interessa pra ele. Eu não acho que isso seja necessariamente ilegítimo, pode ser questionável eticamente, mas todas as empresas existem baseadas nas suas motivações, o problema é a hipocrisia de não reconhecer que isso existe. Não é dizer que a manipulação tem a ver com isso ou aquilo, a gente tem que acordar pro fato que isso existe em todo lugar, onde a gente trabalha ou em qualquer empresa, não só de mídia. Acho que o grande amadurecimento é quando você reconhece que a sua postura é essa e que ela é assim, eu acho que esse discurso da imparcialidade e objetividade jornalística, pra mim é muito ultrapassado, eu sei que é uma opinião polêmica, o que eu estou querendo dizer é reconhecer as coisas, fazer uma apuração jornalística e ela vai te levar a uma conclusão, você vai tentar ser o mais equilibrado possível, seja pra dentro de ti ou pro jornal que você trabalha, existem questões que vão empurrar a matéria pra essa ou aquela abordagem, então mais do que discutir manipulação devemos discutir a tomada de posição das empresas. É por isso que eu não condeno, mas valorizo o fato do passado recente de o Estadão ter aberto seu voto pra presidente, assim como a Carta Capital também abriu. Acho que todo mundo devia fazer isso, pois assim colabora com a transparência, com a democracia e assim por diante. Eu não acho que exista essa coisa de certo ou errado, todo mundo tem seus motivos, e todos eles são legítimos.

R.I – Falando sobre as universidades, você acha que elas têm oferecido aos alunos recém-formados da área de comunicação social / jornalismo, condições de trabalho para enfrentar esse campo das empresas, concorrência?
Alisson –
Eu acho que existe uma concorrência muito grande no mercado, mas o jornalismo hoje vive um momento muito bom, tem oportunidades, só que a gente tem que oferecer as coisas para as pessoas, nós não podemos ficar esperando que alguém nos procure e nos chame pra fazer uma matéria. Tem que cavar uma sugestão de pauta e oferecer para um editor, esse trabalho como free lancer, assim você monta um portfolio pra mostrar para um lugar e tentar trabalhar de uma maneira fixa, e assim por diante. Eu me formei em 98, pela PUC de Porto Alegre, e muita gente que gostava de jornalismo reclamava da faculdade e nem seguiu carreira de jornalista. Eu acho duas coisas: vida real e mercado de trabalho, não dá pra comparar com faculdade. Eu acho que a faculdade cumpre um papel diferente daquele oferecido pelo mercado de trabalho. E é errado que a gente cobre da universidade essa postura. A faculdade tem a missão de te trazer referências, trazer valores, de estimular reflexão e somar isso a experiência real. No dia-a-dia no mercado de trabalho você tem que juntar as duas coisas. A faculdade também virou uma máquina de dinheiro, é só você sair na rua que vai ver a quantidade de universidades, faculdades se promovendo e se vendendo. Por mais clichê que isso seja, nada substitui a sua dedicação. A faculdade não vai te dar tudo, o emprego não vai te dar tudo, tem que aproveitar a formação que tu teve na família, junta isso com o que a faculdade tem de bom pra te oferecer, e a mesma coisa pro mercado de trabalho, é a junção de tudo que vai formar as coisas. A gente não pode transferir a responsabilidade para a universidade, ela pode ter virado um negócio, mas agora vai ficar quantos anos botando a culpa nela por ter virado um negócio? O jornalismo também virou um negócio.

R.I – Nós soubemos através da Revista Carta Capital, sobre a sua demissão, em razão de você não ter aceitado algumas alterações na sua matéria que foi publicada. Você pode contar como foi que isso aconteceu?
Alisson
- Eu sugeriria pra essa parte você dar uma olhada no blog do Paulo Henrique Amorin, lá tem uma entrevista grande minha com ele, e tem como tirar toda a história dali, as minhas opiniões sobre isso, o que aconteceu. É o blog dele, o Conversa Afiada. Tudo que eu tenho a dizer está ali, porque é um assunto chato, desgastante, e eu decidi que eu não ia transformar isso num bafão. Acesse: *
conversa-afiada.ig.com.br/materias/463001-463500/463341/463341_1.html

R.I – Falando sobre isso, nós tivemos uma palestra na faculdade com o Rodrigo Vianna, que também pediu demissão. Ele deixou a Globo porque não aceitou algumas coisas. Você poderia falar até onde vai o limite do profissional, do jornalista, em aceitar o que o veículo de comunicação impõe, servindo de recomendação aos estudantes de jornalismo?
Alisson
– É difícil, porque chega uma hora que vira uma questão individual. Eu já trabalhei em alguns lugares, fiz curso técnico em Publicidade no segundo grau, e na época adolescente eu estava todo revoltado, porque pra mim Publicidade era o fim do mundo. Aí fui fazer jornalismo e acabei cobrindo a área de mídia e de marketing em dois jornais, então não consegui me livrar disso. Também acabei trabalhando com assessoria de imprensa, mas muitas vezes você sofre, por achar que está se prostituindo, abrindo mão dos seus valores, etc. Eu cheguei num momento que pensei se eu for assim, talvez eu não consiga fazer nada, então eu tenho que pensar que o fato de eu estar fazendo isso não significa que eu estou “abaixando as minhas calças pro meu chefe” ou para o mundo ou para o mercado e sociedade, tem esse dilema. Se eu estou abrindo mão dos meus princípios, da minha integridade, por causa disso ou daquilo, acho que são casos e casos, se você tem essa consciência, pode conseguir lidar com isso sem tanto trauma. No caso do Meio e Mensagem, foi um acumulado de meses, no começo desse ano um dos editores do jornal foi demitido em circunstâncias mais ou menos nebulosas e isso gerou um desconforto na redação, um ruído, um bloqueio de comunicação nosso, dos jornalistas com a editora do jornal. Então a somatória de todas essas coisas com o histórico de relacionamentos naquela empresa e com a discussão em torno dessa matéria nos levou a esse ponto. E eu decidi que não ia mudar a matéria. Eu acho que é muito uma questão de debate, até comentei isso no blog do Paulo Henrique Amorim, a questão das regras estarem claras. A gente não pode ser exigente em qualquer lugar que a gente trabalhe, na nossa casa, com a nossa mãe e nosso pai, tem coisas que dá tem coisas que não dá. Ou então com muita conversa, com muito jeito, você consegue. De repente tu é adolescente e quer ir pra balada, não pode, mas se você conversar chega num consenso. Então muitas vezes a gente passa por isso dentro do jornalismo. Tem que conversar para chegar num consenso ou teu chefe simplesmente vai dizer: “Olha cara não dá para fazer essa matéria, não dá porque a gente vai se ferrar, vai dar problema e todo mundo vai se incomodar”. E aí você tem que ter maturidade para encarar que isso existe em qualquer lugar, aí é uma questão do ambiente de trabalho, depois é uma questão individual, aí tu decide se vai aceitar ou não. Então assim, está na consciência que isso faz parte da vida e que tu vai ter que passar por essa situação mais cedo ou mais tarde. Passando pela idéia de que isso existe em qualquer emprego e tu vai ter que lidar com isso várias vezes, e considerando que às vezes isso fica claro ou não fica claro pra ti, ai você terá que chegar à última instância que é a tua decisão pessoal de decidir o que fazer.

R.I – O Rodrigo Viana também comentou com a gente sobre o impasse de quebrar ou não o contrato com a Globo e falar com a mídia, pois segundo seu advogado, se ele quebrasse o contrato, nem que vendesse todos os bens poderia pagar a multa da rescisão. E também ficou indeciso sobre sair ou não da Globo, não pelo nome, mas pelo poder que eles têm de o ‘queimarem’ e não conseguir emprego depois, tanto que ele só falou realmente sobre o caso quando o contrato acabou. Qual a sua opinião sobre esse dilema?
Alisson
- Eu acho que é uma questão de você acreditar se está sendo correto ou não, é muito individual essa decisão. Porque da matéria da Carta Capital, tinha uma coisa de ‘morra Globo’. Eu não quero que ninguém morra, entendeu? Hoje mesmo, para fazer um outro free lancer, eu liguei para a assessoria da Globo e falei com a mesma assessora que me deu a resposta da matéria da Carta Capital, ela não desligou o telefone na minha cara, ela me atendeu e foi atenciosa de me responder. Eu não estou pedindo para ninguém ser ‘tucano’ digamos, no sentido figurado, mas eu acho que tu pode fazer o que acredita e pode colocar as coisas da sua maneira. Agora tem que ter consciência se jogou, jogou, se perder, perdeu. Tendo essa consciência, o resto tu tem que saber lidar. É um processo de amadurecimento, você está no jogo, às vezes vai, às vezes não vai, aí você escolhe.

R.I – E esse turbilhão de informações para o público, você acha que a imprensa cumpre o papel de informar? Não estão tratanto tudo de maneira superficial?
Alisson
- Eu acho que a gente está vivendo uma era de informação. Então tudo é informação, tudo é mídia e assim por diante. Eu acho que a imprensa tem as suas limitações sim, mas que muitas vezes ela faz um trabalho muito bom. As duas coisas que eu acho mais relevantes pra gente debater no jornalismo é: primeiro, transformar o noticiário em capítulo de novela; a agenda política do Brasil nada mais é hoje que capítulos de novela. É assim quem a política brasileira é coberta. Você não cobre política, cobre Brasília, as intrigas de lá como uma grande novela. Eu acho que isso vai de encontro com o que você está me dizendo que isso tem um profundo “Q” de espetacularização da notícia. Você certamente, na Revista Imprensacionalismo, nesse trabalho que o seu grupo está fazendo, deve ter lido sobre a sociedade do espetáculo. A sociedade do espetáculo é totalmente presente na nossa vida. Essa questão histórica, social e cultural explica, mas não justifica essa postura da imprensa. E se por um lado você noveliza a agenda do dia-a-dia, por outro tu não cita muitos assuntos. Joga uma bomba na capa, publica mais outras matérias, e aquilo é engolido pela próxima notícia. Ninguém vai citar aquilo depois. Vou te dar um exemplo, teve 500 CPI´s nos últimos anos. Alguém lembra do final, como que acabou, onde foi parar? Eu acho muito sem graça a imprensa dizer “este ou aquele deputado que fez não sei o que”, então, porque a imprensa não foi cobrir a trajetória dele desde quando começou a cometer essas barbaridades?

R.I – É isso que eu acho, ninguém se interessa em aprofundar em nada, registra rapidamente o que o cara falou e acabou ali, você não sabe nem quem é. Se bem que é tanta gente..
Alisson
- Tem outra coisa que pesa, é o seguinte, você está na redação do jornal e nem tem muito tempo, você faz essa matéria, depois já faz outra, e faz outra… Não dá tempo de retomar. Estamos muito carentes de reportagem por conta disso, tem que priorizar o volume, então fica sem tempo para pesquisar um assunto.

R.I – E se colocasse mais gente para trabalhar na redação, será que não daria certo?
Alisson
- Daria, é que de repente as pessoas não estão interessadas nisso, é um público específico que não quer ler um texto grande e aprofundado, a maioria só quer o link do site, a matéria curtinha resumindo o que aconteceu, aí nessas você vê o porquê as agências de notícias cresceram tanto nos últimos anos.

R.I – E como você acha que o público poderia se proteger dessa imprensa sensacionalista?
Alisson
- Eu acho que o público não quer se proteger, porque se eles quisessem se proteger busacariam outros meios. Vou te dar um exemplo, compare a Veja, com a Época, com a Isto É, com a Carta Capital. Não estou defendendo ninguém, mas todas elas se propõe a ser revistas semanais, e às vezes elas falam de assuntos completamente diferentes com abordagens completamente diferentes, o que é bacana.

R.I – Inclusive um tempo atrás foi publicada matéria da Carta Capital sobre uma visita que virou reportagem quando alguns alunos, e um deles era jornalista, foram fazer uma visita dentro ao Jornal Nacional e o Willian Bonner tratava o telespectador como o Homer Simpson. A gente até conversou um pouco sobre isso num debate em sala de aula com a professora Daniela Palma, achamos até uma falta de respeito dele com os telespectadores.
Alisson
- Eu acho que ele tem direito sim de dizer o que ele bem entender, mas ser cobrado pelo papel que ele ocupa, e o que a gente tem que dizer não é condenar ele porque ele disse isso, mas se perguntar o porquê de ele dizer isso. Ele é livre para dizer o que quiser, não se pode patrulhar ideologicamente as pessoas.

R.I – Mas justamente na hora que ele ia cortar alguma matéria ele falava “não, isso aqui o Homer não vai entender” então ia para esse lado: o cara não tem QI não tem cultura para entender se colocar isso no ar.
Alisson
- É que não é só isso, ele esta falando com 60 milhões de pessoas na hora do jantar, ele tem que partir de um mínimo, de um denominador comum, se esse denominador é de um nível mais alto ou mais baixo são outros quinhentos, mas ele precisa de um denominador comum… E se esse é um denominador do Bart, da Lisa eu não sei.

R.I – É que no caso ele generalizou…
Alisson
- É que estamos falando de mídia de massa, não é? Não se pode cobrar da mídia de massa um papel segmentado.

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Outubro de 2007