Carne vem – Carne vai – Carnaval – o ódio justificado

Antes de começar a descer o pau nessa festa de putarias (opa, opa, me empolguei) devo deixar claro: respeito todos aqueles que acham incrível passar o feriado se espremendo no meio de 2 milhões de pessoas em Salvador, aqueles que juntam dinheiro o ano todo para comprar a fantasia e desfilar durante uma hora com ela na escola de samba do coração, aqueles que vêm a escola favorita não ganhar o título e começam a dispor sua indignação e violência à pessoas que não tem nada a ver com isso, aqueles que colecionam abadás e precisam juntar o pagamento do ano inteiro para pagar uma viagem para a terra do samba  e aqueles que simplesmente ficam extasiados com a confusão de cores na telinha… apesar de todos esses seres humanos parecerem uma cambada de idiotas, devem ter algum motivo muito bom para fazer tudo isso, não é mesmo? Não? Como assim? o.O

Enfim… sempre ouvi a minha mãe dizer das origens do Carnaval, a “festa das carnes”. Sim, antigamente isso significava a “despedida da carne”, a preparação para os jejuns e sacrifícios do período da Quaresma. Sei também que antes do Cristianismo, o Carnaval era uma festa grega que celebrava a fertilidade e a produção. A partir do séc. XIX, a festa voltou a ser uma farra popular e o Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, tomou destaque nas comemorações. As máscaras e fantasias vieram de Paris, mas as marchinhas são originais do Brasil e faziam a festa ter mais cor e mais brilho, na época. Comparando as origens da festa ao que se comemora hoje, já dá para ver como as coisas evoluem de forma “positiva” com o passar do tempo.

Apesar de essa comparação histórica já me parecer um tanto quanto suficiente para que alguém odeie o Carnaval, eu vou além. Resolvi encarar o desafio de “traduzir para a linguagem cristã”, como diria meu caro editor Igor, trechos 5 sambas-enredo. Isso significa que vou pegar trechos intrigantes desses “poemas de fevereiro” e comentar abaixo o que dá para entender de cada um deles. Nem vou falar da nova ortografia, porque vale escrever errado até 2012… Lá vai:

5 – Beija-flor – RJ: Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília: do sonho à realidade, a capital da esperança

Dádivas o Criador concedeu
Fez brotar num sonho divinal o mais precioso cristal
Lágrimas, fascinante foi a ira de Tupã
Diz a lenda que o mito Goyás nasceu
O brilho em Jaci vem do olhar
Pra sempre refletido em suas águas
A força que fluiu desse amor é Paranoá… Paranoá
Óh! Deus sol em sua devoção
Ergueu-se no Egito fonte de inspiração
Pássaro sagrado voa no infinito azul
Abre as asas bordando o cerrado de Norte a Sul

Ou eu muito me engano ou os deuses indígenas não têm nada a ver com o Egito, o cerrado brasileiro vai além do território da região centro-oeste do País (onde fica Brasília),  Jaci é a deusa lua e Tupã é o deus-trovão, logo, o deus-sol citado deveria ser Guaraci

4 – Salgueiro – RJ: Histórias sem fim

Páginas descrevendo pensamentos
Clássicos, ideais e sentimentos
Romances… adventuras
Quanta riqueza na nossa literatura
O faz de conta inocente da criança
Ficou guardado na lembrança
Mistérios… suspense… emoção
É o hábito de ler, folheando com prazer
Muito além de uma visão
Mensagens de esperança
Clareando a imaginação

A palavra “descrever” significa “fazer a descrição”, logo, não dá pra uma página descrever um pensamento por motivos óbvios. Outro ponto que considero importante é que “adventura” é uma palavra que não existe no meu idioma…

3 – Império da Casa Verse – SP: Itú, fidelíssima terra de gigantes

Seja bem vindo, vem conhecer
Meu tigre guerreiro na avenida
Conta pra você
Há tempos um manto tão belo se transformou
Pedras de raro valor
Somente a ciência explica o que não viu
A era do gelo no sudeste do Brasil
Nas margens de um rio quanta beleza
E os carijós salve a natureza
Senhor olhai outu guaçu a “boca do sertão”
Abençoai os filhos desse chão

Eu espero mesmo que as “pedras de raro valor” não sejam ouro, até porque as jazidas de ouro encontradas pelos colonos na região Sudeste do País, se não me engano, foram achadas pela primeira vez em Minas Gerais, o que deu até o nome do Estado. O que mais impressiona mesmo nesse trecho é a citação “A era do gelo no sudeste do Brasil”: ora pois, como é possível imaginar gelo e neve numa região onde os climas predominantes são o tropical e o sub-tropical?

2 – X9 – SP: A herança lusitana nos une… Ora, pois! A X-9 é portuguesa com certeza’

Num só coração
A fé, a devoção em procissão… Ave-Maria
A religião traz emoção… nas romarias
Vem dessa crença a proteção
Pra nossa escola sambar feliz
Um centenário de história
Heranças deixadas em nosso País
Hoje faço a festa com a minha bateria
Meus 35 anos de alegria!

A escola X-9 está fazendo 35 anos. O Brasil, completará 510 em abril. Portugal foi reconhecida independente em 1143, sem contar toda a história antes disso… alguém me diz, por favor, de quem é o centenário de história?

1 – Samba enredo eterno da Globo

Eu deixei esse clássico por último simplesmente porque considero isso o pior incentivo à alienação nacional que a emissora já conseguiu divulgar. O trecho abaixo é auto-explicativo:

Mas quem te viu, quem te vê Globinho, como você cresceu!
Assisti hoje no vídeo o show que você deu
Globo repórter é BBBeleza e pra ser mais você é muita malhação.
2010
É com a bola nos pés e o controle na mão.
Vai ter eleição!

Nessa copa vai dar Brasil, salve a seleção!
E o povo escolheu a Globo, isso é globalização(2x)

Deus do céu, ave maria! Será possível que ninguém percebe que tem muita gente que vai acreditar que o processo político, social, econômico e cultural que define (em pobres termos) a globalização é resultado do primeiro lugar da TV Bobo? Essa porcaria confunde a cabeça das pessoas há três anos na programação do canal e com certeza faz muita gente se conformar com o significado do final da musiquinha…precisa dizer mais?

Hoje, o Carnaval colabora para a alienação das mentes humanas, estimula a falta de percepção do que é bom e ruim para si mesmo, incentiva a “liberação sexual” desenfreada, estimula o consumo de bebidas alcoólicas e faz aumentar o número de acidentes no trânsito, sem contar o congestionamento da galera voltando das viagens… o único ponto positivo é o feriado, tempo de descansar a mente [para aqueles que aproveitam esse tempo para isso mesmo… ]. Além disso, as canções “samba-enredo”, em sua grande maioria, não trazem nada de novo e confundem a cabeça das pessoas. Na minha análise “forçada” achei alguns temas com algum sentido, mas será que é necessário que esse tipo de música faça sentido?

De qualquer forma, esses são alguns dos meus motivos para odiar o Carnaval. E você, tem algum?

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13 comentários sobre “Carne vem – Carne vai – Carnaval – o ódio justificado

  1. Comentários (são muitos):

    O nome continua adequado. Carnaval continua sendo a festa dos prazeres da carne, tudo é apenas uma questão de ponto de vista.

    Fertilidade: muitas mulheres celebram a fertilidade no carnaval, engravidando. E celebram tão profundamente que às vezes não sabem nem de quem.

    Festa, putaria, balbúrdia e 5 dias sem trabalhar: que lugar do mundo moderno mais propício para o desenvolvimento do carnaval do que o Brasil e, em específico, o Rio de Janeiro?

    Enredo da Beija-Flor: faço ainda um complemento. Ou muito me engano ou os caras estão misturando o Deus cristão (Criador) com politeísmo indígena. Isso sem mencionar o Egito…

    Adventura é de madtar!

    Era do gelo? Quem escreveu o enredo? Sid?

    X-9: 2010-1500=100×35?

    globalização de BBBosta.

  2. escrevi tanta besteira que esqueci do óbvio:

    parabéns pelo post, anjo! Mto inteligente, criativo e divertido! Adorei! =)

  3. Gostei muito do texto, Rakky! Você falouda festa e esquece de algo ainda mais esdrúxulo nessa festa: a apuração. Pô, como explicar uma nota 9,9? Onde está esse 0,1? Alguma pena que caiu? Não tem lógica e, na verdade, nem é para ter. O carnaval é uma festa que só é para ser compreendida por aqueles que curtem a folia, e eu não estou entre eles. Esse ano, entretanto, até que assisti bastante coisa pela televisão – inclusive a apuração -, o que me fez rezar para nunca ter que cobrir carnaval. É horrível. Fiquei com dó dos colegas. Sem falar nos bastidores da Redetv, com a Carla Perez “atuando” como repórter, e me fez praguejar, uma vez mais, contra aqueles que cassaram o nosso diploma. Triste, muito triste.

  4. Óbvio que, tirando a questão do feriado, não gosto de Carnaval, mas não me espanto mais, pois o que acontece durante essa data ocorre durante praticamente o ano todo em micaretas.

  5. Plagiando o Gustavo:Enredo da Beija-Flor: faço ainda um complemento. Ou muito me engano ou os caras estão misturando o Deus cristão (Criador) com politeísmo indígena. Isso sem mencionar o Egito…

    Parabéns Rakky.

  6. Com todo o respeito, não vejo problemas quanto ao que você chama de problemas nas letras. Quanto às “páginas descrevendo”, tudo bem que no sentido literal pode haver um equívoco, mas já ouviu falar de licença poética? Nada contra, mas, vejamos este trecho do skank:
    “O céu que toca o chão
    E o céu que vai no alto
    Dois lados deram as mãos”
    Não querendo discutir o que é melhor, mas o céu tocando o chão me parece mais esdrúxulo do que páginas descrevendo algo.
    E, sinceramente, não entendo o motivo do ódio dos pseudo-cultos à Globo. Não entendo mesmo. É uma TV aberta, um canal, acima de tudo comercial, cujo objetivo principal é o entretenimento. Quem quiser buscar acesso à cultura de “qualidade” deve procurar por conta própria. Mas, no entanto, teatros, bibliotecas e museus estão sempre vazios.
    Não vejo problema em relação ao fato de o carnaval ser conhecido pela “putaria”. Qual o problema? Se você e seus leitores não gostam, simplesmente boicotem. No entanto, se é “putaria” ou não, isso é problema de quem vai e ninguém não tem nada a ver com isso.
    Para finalizar, não vejo nexo na sua análise de que o carnaval estimula o consumo de bebidas alcoólicas. Pode até ser verdade. Mas garanto que isso ocorre em todos os feriados. E o ano novo? Por que ningúem fala?

    • Senhor Fábio,

      Há que se fazer alguns esclarecimentos.

      Em primeiro lugar, é evidente que a carapuça serviu-lhe com perfeição inigualável, tamanha a reação.

      Em segundo lugar, é bom que se diferencie licença poética e figura de linguagem.
      Licença poética é uma espécie de escusa para inobservar a norma culta, por exemplo quando se diz que “fumo e não encontremo ninguém”, ou “she do”.
      O que o skank usa em “o céu que toca o chão” é uma metáfora, que é uma figura de linguagem e não uma licença poética. De fato, em sentido literal, não faz sentido, pois, se fizesse, não seria metáfora.
      E, no caso, é exatamente a falta de sentido que confere beleza. Isso não tem nada a ver com a falta de sentido NÃO PROPOSITAL de um samba-enredo. Misturar Deus, Tupã e Egito, tal qual feito, não é lincença poética e tampouco metáfora. É ignorância mesmo.

      Em terceiro lugar, a Rakky não é pseudo-culta. Ela lê muito, inclusive Machado de Assis e João Guimarães Rosa, coisas que não são pra qualquer um. Além disso, ela possui grandes conhecimentos sobre música e arte de uma forma geral.
      O inconformismo de uma pessoa culta com a Bobo é exatamente pelo fato de ela ser tão comercial. O que move é grana, pouco importando pra emissora a alienação que ela provoca com seu enorme poder de comunicação. Pra fugir da mediocridade, é necessário ter grana o suficiente pra pagar TV por assinatura (e mesmo assim olhe lá, ainda). E teatros, museus e bibliotecas estão vazios porque as pessoas preferem assistir globo e pular carnaval. Mas a Rakky faz parte do seleto grupo que prefere os museus, teatros e bibliotecas.

      Em quarto lugar, a Rakky e seus leitores boicotam o carnaval, não frequentando as festas e escrevendo nos blogs sobre sua indignação com tanto lixo. O carnaval é sim uma grande putaria e sim, isso é problema apenas de quem vai. Agora, estamos impedidos de reafirmar tal verdade? Falar isso num texto de blog é cuidar da vida alheia? E assistir BBB, é o quê?

      “Para finalizar”, o carnaval obviamente estimula o consumo de álcool. E vc tem razão, este estímulo também ocorre em outras datas. Agora só porque a Rakky não escreveu um post sobre isso no dia 1º de janeiro então “ninguém fala”? Até a sua querida rede bobo fala!

  7. Respostas a todos os comentários:

    Obrigada Gustavo, Maristela, Marcelo, Elaine, Katelline e Jay pelos comentários e adições. São de grande valia!

    Fábio,
    Obrigada pelo comentário e pela visão diferente. Devo acrescentar que “páginas descrevendo” não me cheira à licença poética, mas foi muito bom você usar “Dois Rios” como “exemplo esdrúxulo”. Devo dizer que o verso citado utiliza a figura de linguagem “metáfora”, e se você vir o verso no sentido literal, o céu toca o chão todos os dias quando o sol se põe, basta olhar o horizonte. De qualquer maneira, uma recomendação é que você conheça não só a poesia que o Skank faz, mas o Clube de Esquina também, movimento cultural e artístico mineiro que inspirou esta e outras canções da banda.

    Quanto à TV Bobinho, reconheço que a Globo tem seus méritos e que cabe a cada um buscar o entretenimento que mais lhe convém, o que no seu caso deve ser mesmo o carnaval, desculpe se meu texto lhe ofendeu. De uma forma ou de outra, gostaria de lhe pedir que ache absurdos nos meus outros comentários, como fez com o samba-enredo das páginas que descrevem coisas, o que duvido muitíssimo. Da mesma forma que eu e meus leitores boicotamos o carnaval, com ou sem sua valiosa sugestão, você pode também boicotar o meu blog, afinal, se não gosta do que eu escrevo, para quê lê?

  8. Nossa, quanta revolta por conta de um comentário. Me parece que opiniões contrárias não são muito bem recebidas neste “seleto” meio, como o rapaz alí em cima disse.

    Mas enfim, quanto ao “boicote”: eu não preciso boicotar algo que não gosto. Faz parte de nossa formação aturar e procurar entender diversos conteúdos, inclusive assuntos que não são de nosso interesse.

    Em relação à carapuça. Se serviu ou não, isso é assunto única e exclusivamente meu e ninguém tem nada com isso. O cidadão que disse isso tenta desmoralizar alguém com este infeliz comentário. O grande problema é a síndrome de inferioridade do povo brasileiro, que, ao invés de valorizar sua cultura, prefere comemorar festas dos outros. Caso do “haloween”.

    O carnaval é uma festa popular, qual o problema quanto à aplicação de uma linguagem simples? Ou vocês pensam que quem faz carnaval tem a grande oportunidade de vida que vocês tiveram, de fazer uma faculdade e talvez até uma pós? É a festa do povo, apesar dos altos preços cobrados para quem quer desfrutá-la. Qual o preconceito com a linguagem do povo? Penso isso não apenas sobre o carnaval, mas em relação à cultura brasileira em geral. Isso para mim é preconceito e necessidade de auto-afirmação. A partir do momento em que alguém se sujeita a criticar pura e simplesmente pelo fato de os sambistas não escreverem como vocês dizem escrever, vejo isso como uma espécie de medo, um receio de que um sambista possa ser melhor do que vocês.

    É isso.

  9. Apenas complementando, lembrei de um exemplo comparativo em relação ao preconceito contra a linguagem popular. Isso, no meu modo de vista, se assemelha com a ojeriza da elite brasileira para com o presidente Lula. Ao invés de analisar o governo do mesmo, atribuem-lhe a fama de analfabeto e aculturado. Isso porque trata-se de um sujeito vindo de outra classe social, com outra cultura e outra história de vida. Isso é medo da elite, que teme ser colocada em uma posição inferior ao metalúrgico sem curso superior. Os desfiles das escolas de samba, mais especificamente as do Rio de Janeiro, são um espetáculo visual bem feito e com muita técnica, gostem vocês ou não.

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