Os livro, a coisas e a cretinagem do MEC

Na última semana, ilustríssimos senhores do MEC distribuíram a quase 5 mil escolas de todo o país uma cartilha chamada “Por uma Vida Melhor”, parte da coleção “Viver, Aprender” do Ensino Fundamental, com conteúdo intrigante: um capítulo do livro menciona que, na variedade linguística popular, pode-se dizer “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. O texto continua: “Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar os livro?’. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico“. O MEC reforçou a exatidão do absurdo dizendo que a grafia está de acordo com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais).

Ok, galera. Isso quer dizer que os nossos parâmetros de grafia e linguagem podem, e agora está no papel, considerar erros de concordância como parte da nossa cultura? Já cansados de ser cobrados por uma educação de qualidade, agora o MEC quer deixar rolar, é isso? Agora os professores não podem mais reclamar do mau salário não é, já que sua função principal, ensinar direito, já não é mais válida? Os alunos não precisam mais fingir que aprendem, os professores não precisam mais ensinar direito, a escola não tem mais a sua função educativa, a linguagem falada e escrita não têm mais a menor importância, não são mais diferentes, não há mais porque.

Pergunto ao MEC: os PCNs vão valer na correção de provas como as do ENEM? A Fuvest vai poder considerar respostas com erros de ortografia e concordância em suas redações e provas? Agora escrever errado é certo, porque representa a linguagem falada brasileira? A quem vocês querem enganar com essa justificativa bizarra do “preconceito linguístico”?

Não gente, não! Isso tudo está muito errado! Precisamos sim preservar um padrão de comunicação escrita e verbal de qualidade, precisamos sim nos fazer entender, precisamos sim valorizar uma das mais difíceis línguas em todo o mundo, precisamos ter orgulho de falar português claro, de nos fazer entender. Afinal, de que valeu então a nossa também extremamente criticada reforma ortográfica, de 2008 (atenção, ano que vem já é obrigatório usar) se nossos amigos angolanos dificilmente conseguirão entender nossa linguagem falada “os mano pow e as mina pah!”? Vamos regularizar o “pow, tira o zóião da minha potranca ou tu morre!”? Vamos criar uma nova cartilha abrindo mão de anos e anos de estudo de milhares de letrados da nossa Academia Brasileira de Letras? Vamos orkutizar os dicionários, institucionalizar a americanização do idioma, considerar frases como “coraçãozinho, S2 S2” como complexas formas de expressão verbal? Vamos renegar Machado de Assis e Drummond de Andrade? Vamos dar títulos acadêmicos aos amigos da falecida Lacraia?

Desculpem queridos, se depender de mim e da minha meia dúzia de 3 ou 4 leitores fiéis, não vai colar. Fazemos questão de preservar o que de correto aprendemos e é pena que o MEC, que não pode mais ser referido com o respeito que a instituição mereceria, não pese tantas mudanças impensadas. Esse tipo de alteração pode impactar o futuro de nossas crianças. O que garantirá que esses portadores de nosso futuro saberão escrever lá na frente? Já há mais e mais analfabetos funcionais chegando ao nível superior e tantos outros que desistem de ler a placa do ônibus e perguntam à senhora do lado ou ao motorista que nem é mais possível confiar num futuro melhor. Cada vez mais temos um português humilhado, assassinado, ressurgido e novamente morto, machucado e torturado com piadinhas infames. Daqui a pouco vamos legalizar o assassinato por medo de fazer cidadãos sofrerem “preconceito jurídico”, como bem parodiou Clóvis Rossi, na Folha de hoje.

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2 comentários sobre “Os livro, a coisas e a cretinagem do MEC

  1. Então não se faz mais necessário aulas de português na grade curricular. Sim, porque todos já falam de maneira aceitável.
    MEC VSF

  2. E isso me cheira tanto a (merda e) “inclusão no ensino superior”. Se essa bosta pega, não duvido que logo, logo a Fuvest tenha que dar nota em redação-baile funk. É um sistema muito mais “eficiente” do que cotas.

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