Como a miséria nos vê?

Dia desses estava lendo um texto do Jabor em que ele lançava essa pergunta no ar. Fiquei pensando por um tempo, mas vi uma cena que me deu algumas certezas.

Vi três meninos num ponto de ônibus na região da Barra Funda. O mais velho deles devia ter seus doze anos. Os três estavam fumando cigarro e esperando um ônibus qualquer para pegar “carona” e ir pra qualquer lugar. Brincavam de decidir qual dos três ia primeiro. Dois ônibus passaram e dois garotos entraram num enquanto o terceiro foi para o outro. Apagaram os cigarros na porta do “busão” e enfiaram o toco restante no bolso. Mas os dois garotos decidiram não ir naquele e desceram enquanto o terceiro ia embora no carro da frente. Um deles, procurava no chão a brasa para voltar a acender o cigarrinho. 

Eu vi aquilo com choque e indignação. Como pode uma mãe deixar um filho tão à deriva? Como pode um pai não se importar? Como pode uma criança como aquela existir? Depois desses pensamentos, lembrei do Jabor e da sua pergunta. E pensei que minhas referências para família, responsabilidade de pais e mães e criação de filhos é bem diferente da realidade daquelas três crianças, e de suas mães. Pensei que talvez a mãe deles tenha nascido sem esperança, embaixo da ponte, comendo quando tinha o que comer. Que essa menina pode não ter conhecido seu pai porque ele foi só alguém com quem a mãe dividiu um cobertor num dia gelado embaixo do Minhocão e deu o azar de engravidar. Que talvez ela tenha sido criada por ninguém, abandonada para pedir esmola na rua. Que talvez já tenha comido do lixo. Que teve um ou mais filhos na mesma condição miserável que sua mãe, na rua, sozinha, suja, sem futuro. E que aquele mundo talvez seja o mais normal para aquelas três crianças com seus cigarros na mão, se divertindo em procurar a brasa recém caída do cigarro enquanto esperam algum motorista ter um pouco de piedade e parar o próximo ônibus, sem medo de ser assaltado por aqueles pequenos que, podem ainda não ser, mas provavelmente serão marginais.

Cheguei a conclusão que nós vemos a miséria com a mira errada. Julgamos o homem de rua como um vagabundo que prefere pedir esmolas a trabalhar. Julgamos a mãe das crianças, dizemos que é irresponsável. Julgamos o preso que acabou de cumprir sua pena como um bandido que não merece perdão, porque matou dois cidadãos de bem durante um assalto. Mas o que é que se pode esperar para o futuro daqueles três meninos do ponto de ônibus que seja diferente dessa realidade?

Eles nasceram nesse “estado social” e muito dificilmente vão sair dele. Aqueles meninos não olhavam pra mim, mas talvez me vissem como alguém que ganha dinheiro de um jeito que eles nunca vão conseguir, porque ninguém vai lhes dar uma oportunidade. Talvez o ladrão que “bateu” sua carteira ou seu celular no último carnaval também te veja assim. Afinal “você tem um emprego, vai trabalhar mais uns dias e recuperar aquela grana”. Ele não. Ele vai ter que continuar roubando para comer, roubando para vestir, roubando para sustentar o seu vício em drogas ou em bebidas, que talvez sejam suas únicas saídas para essa realidade brutal que lhe bate à porta todo dia. Até que um dia a polícia vai pegá-lo, prendê-lo, ele vai apanhar muito na cadeia e talvez saia vivo de lá, talvez não. Que perspectiva de futuro têm aqueles meninos? Como cobrar deles uma consciência diferente, se ninguém lhes dá uma chance?

Também não estou dizendo que devemos ter a piedade como nossa mira e perdoar o bandido que matou seu irmão mais novo numa saidinha de banco. Só que o nosso jeito de ver o mundo não pode ser comparado com o jeito deles de ver o mundo… afinal não dá pra cobrar consciência de alguém que não teve quem lhe desse qualquer exemplo do que é isso.

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4 comentários sobre “Como a miséria nos vê?

  1. Poizé, amor. É essa a minha visão da coisa. Chamá-los de vagabundos, bandidos e dedicar-lhes apenas ódio, medo e nojo é muito superficial e inconsciente. De nada adianta medi-los com nossos próprios valores, porque não são os deles. E a recíproca é verdadeira.

    Eles são marginais. Eles não se sentem e não são considerados parte da sociedade. São vistos como alienígenas que precisam ser apagados. Basta ver como falamos “nós” e “eles” quando nos referimos a criminosos e marginalizados.

    Não se trata, no meu caso, de ser tomar partido, ser companhêro, aderir a algum extremo ou coisa assim. Não. Mas é essencial que todos se atentem para isso para que não caiam no extremo oposto e apenas os observem como se fossem “maus” em si mesmo e por opção. É importante entender como excluídos agem para, só então, se pensar com consciência sobre soluções o mais razoáveis quanto possível para todos os lados.

    Lindo texto.

  2. Rakky, gostei muito do seu texto. É realmente uma questão complicada. Como cobrar consciência de pessoas que constantemente são tratadas como coisas?

    Enquanto estava lendo seu post me lembrei de um documentário: Ônibus 174. Não sei se vc já viu. É uma investigação sobre o sequestro daquele ônibus no Rio de Janeiro que aconteceu em 2000. A história do sequestro é contada paralelamente à história de vida do sequestrador. Ele era menino de rua, acabou se tornando bandido, enfim…. O filme traz uma análise que não procura absolver o cara nem nada, mas mostra justamente a complexidade da situação; várias das circunstâncias envolvidas no problema da violência. Acho que vale a pena dar uma olhada, porque fala desse assunto que vc abordou.

  3. Tudo muito complicado, Rakky. Em primeiro lugar, é difícil não julgar, não ter medo, não esconder disfarçadamente o celular recém-comprado com o intuito de evitar que o fruto do seu esforço vá embora pelo ralo em poucos segundos. E você levantou uma questão interessante: não importa o quanto comprometida financeiramente sua conta bancária e crédito estejam, esses meninos sempre irão tomar por base o que eles vêem. Uma jovem mulher, bem arrumada, que tem água para tomar banho diariamente, tem o rosto corado porque não passa fome, não terá dificuldade alguma em recuperar o que perdeu num assalto. Mas na verdade, acredito que não tenham capacidade para julgar a situação nesse nível de profundidade – analisar como outro sairia da lama se fosse assaltado. Não existe futuro, portanto, pouco importa a conseqüência dos seus atos. A vida os ensinou que é preciso ser egoísta para comer. A vida os ensinou que eles são animais numa floresta lutando pela própria sobrevivência. Comer, dormir, ter diversão não é tão fácil. Como um “animal”, é necessário caçar tudo isso. E como um animal, eles jamais pensariam que o outro tem sentimentos, porque tiraram deles mesmos o direito de sentir qualquer coisa. E por isso, sob a perspectiva deles, nada do que eles fazem podem ser considerado cruel. Porque a vida sempre foi muito mais cruel do que isso com eles.

  4. É mais difícil do que parece né pessoal?
    Maris, vou ver o documentário. Aliás, não sei pq ainda não vi se é ‘obrigatório’ pra algumas disciplinas do meu curso e ainda tem um monte de gente batuta recomendando…

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