Memorial da Resistência: visita obrigatória

Lugares da Memória

Já vi muita gente por aí bancando o mártir por alguma nova causa do nosso mundo moderno. Não aquela galera que luta de verdade por uma causa o tempo todo, que eu acho super justo, mas aquela turminha escrota que se acha no direito de inventar que foi injustiçado, que gosta de se achar o rebelde, que gosta de causar. Sim, to falando de você estudante da USP que acha que pode fumar maconha em espaço público e não ser punido por isso, que inventa greves e manifestações por causas sujas e joga fora o dinheiro de milhões de pessoas que estão pagando o seu estudo numa das melhores universidades do país, que depreda o patrimônio público e se diz “da causa operária” mas passa reto pelo lixeiro que varre a sua sujeira. Também estou falando com todos aqueles aos quais esta carapuça serviu.

Celas do DEOPSSP

Recomendo a todos vocês, “mártires do século XXI”, que percam alguns minutos de sua vidinha ocupada para conhecer um pouco da história de alguns outros mártires, só que esses de verdade. Gente que lutou por uma causa de verdade, que lutou pra que você tenha o direito de falar todas as bostas que você quiser sem ser recriminado por isso, gente que deu seu sangue pela nossa democracia. O lugar pra fazer isso é o Memorial da Resistência, antiga sede do DEOPS/SP (Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo),local onde a repressão no nosso período ditatorial aconteceu de fato (não, você não foi reprimido porque ninguém entendeu a sua manifestaçãozinha, repressão de verdade está ali!).

“A tortura começava ali, no barulhinho da grade”

Todos os trabalhos expostos foram desenvolvidos pelo Fórum Permanente dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo e é um lugar perfeito para conhecer um pouco do que o nosso país já foi. Na entrada, um pouco da história do DEOPS é exposta e em seguida vemos painéis que definem as expressões “Controle”, “Repressão” e “Resistência” no período. Há também um mapa chamado “Lugares da Memória no Brasil”, onde é possível ver locais importantes onde foram registradas ações de controle, repressão e resistência dos regimes Estado Novo (1937 a 1945) e Ditadura Militar (1964-1985).

Outro painel fala do cotidiano nas selas do DEOPS e os lugares mais impressionantes: as celas, adaptadas para a exposição. Cada uma das quatro celas expostas foi adaptada de forma a mostrar um pouco de como funcionava o dia a dia dos presos e contar sua história. A mais impressionante de todas é a terceira cela, onde foi reproduzida exatamente a aparência de uma cela da época, com pixações na parede, colchões de palha (podiam haver até 30 presos e na cela não caberiam mais que 15 colchões), uma imitação do ambiente chamado de banheiro (sem água para tomar banho inclusive e com um buraco que era chamado de privada).

Durma bem...

Na última cela do espaço, gravações de depoimentos de ex-presos põem a gente pra pensar. As histórias de tortura, de sofrimento e de luta ali registradas são histórias reais, de gente da gente, de brasileiros que deveriam ser lembrados com honra, que deram seu sangue pela nossa pátria. Um dos depoimentos mais marcantes é o de uma senhora, que na época em que foi presa no DEOPs viu chegar uma jovem ensanguentada em sua cela, após a tortura. Essa jovem não falava com ninguém e era levada diariamente, no mesmo horário, para tortura. Um dia, a jovem foi jogada na cela desmaiada e a outra achou que esta havia falecido, gritou, chorou pela companheira e fez um escândalo se gerar nas celas, o que fez com que os militares retirassem a jovem desmaiada, que não mais voltou. Mais de vinte anos depois, a senhora viu o nome da jovem que achava ter morrido em uma lista de e-mails e começou a se comunicar com ela. Descobrir que ela estava viva foi uma das coisas mais felizes que aconteceu a essa senhora.

Um último espaço, não menos importante, é o espaço fora das celas que mostra alguns arquivos do banco de dados do DEOPs, além de antigos móveis usados no local. Entre a documentação é possível ler um relatório datado de 23/3/1973 que narra um show de Chico Buarque com Nara Leão no Teatro da PUC onde o cantor teria agido de forma subversiva cantando a música proibida “Apesar de Você”.

É sem dúvida um lugar importante para visitar, tanto para os rebeldes sem causa quanto por aqueles que se interessam pela história do nosso país.

 

Memorial da Resistência
Endereço: Largo General Osório, 66. Estação Pinacoteca – Luz, São Paulo
Entrada gratuita de terça-feira a domingo, das 10h às 17h30.
E-mail: memorialdaresistencia@pinacoteca.org.br
Site:  http://www.memorialdaresistenciasp.org.br
Nota: 10

 

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7 comentários sobre “Memorial da Resistência: visita obrigatória

  1. Eu já fui algumas vezes no Memorial da Resistência e uma coisa que eu gosto é o caráter “pé na cara” do lugar. Com delicadeza, mas sem poupar o visitante do lado sórdido – o que seria algo um tanto stalinista, digamos assim. Ainda mais em um museu cuja função é lembrar a repressão. E vou mais longe: não é apenas a repressão que o lugar relembra, mas uma das faces mais cruéis da ditadura militar: a tortura. Quando fui la, não conseguia parar de pensar que, naquele prédio, seres humanos foram torturados de forma que vai além da nossa capacidade de imaginação.

    P.S.: Perto dali tem o Museu da língua portuguesa que acho que você até já falou neste blog ou em um outro… É bacana também. Mostra que museu não é apenas exposição de velharias…

  2. Eu meio que tinha contato com o Memorial todo dia porque fiz estágio na Estação Pinacoteca (vi outras partes perturbadoras do prédio que eles não mostram, inclusive), e por isso fico puta quando vejo o uso abusivo de certas expressões na USP. “Presos políticos” foi o limite pra mim. Me segurei pra não mandar um menino tomar no cu por se referir aos estudantes presos na Reitoria dessa maneira.

  3. hhahahaha adorei, Rakky. Excelente texto! Podia ter me pedido as fotos que eu tirei do meu celulento.

    concordo com o Marcelo. Com delicadeza, o lugar sabe ser pé na cara.

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