A preguiça…

Todo mundo diz que eu faço um milhão de coisas e que eu devo viver em um mundo paralelo de 48 horas porque não é possível.

É possível sim, caro amigo. É só pensar que além das um milhão de coisas que faço, existem também aquelas um milhão que eu gostaria de fazer. Que eu vou deixando para lá. Que eu vou esquecendo. Evitando o que é importante. Encaixando novas coisas no dia a dia até não caber mais nada.

Também basta pensar na quantidade de coisas que começo e não termino. Porque não dá tempo. Porque tem muita coisa. Porque é muito trabalho. Porque eu me canso.

Tem horas em que eu penso que sou só um ser humano e que eu preciso descansar. Aí quando me pego descansando, me sinto culpada pelas milhares de coisas que poderia estar fazendo enquanto descanso e não estou.

Esse texto é uma dessas coisas. Ele está aqui, escrito na minha cabeça já tem uns bons anos e eu nunca tinha tido o desprendimento de compartilhar ele lá no meu blog pessoal ou em qualquer outro lugar. Talvez a minha psicóloga já tenha escutado uma ou duas dessas lamúrias, mas não todas elas. Enfim, eu me pergunto toda vez que eu me pego descansando ou fazendo algo que eu não acho tão importante quanto os projetos nos quais me coloquei na vida e que são sim muito importantes: Cadê aquela garota que acordava às 4h30 da manhã e ia dormir às 0h30 todo dia? Aquela que estudava pra prova depois de um longo dia ajudando a galera da igreja? Aquela que fazia mil coisas na época do vestibular e da faculdade e ainda tinha tempo pra tocar violão? Porque eu me perdi dela? Porque eu a abandonei? Ou será que foi ela que me abandonou?

Talvez, em algum momento da vida, eu tenha perdido algum sentido, alguma vontade que era maior. Algum motivo pra lutar.

Preciso me recuperar.

2015

 

Esse ano vai ficar na memória do brasileiro por muito tempo.
Foi em 2015 que percebemos que aquele 7×1 de junho do ano da nossa copa seria inesquecível, não só pela surra futebolística, mas pelas tantas outras que levaríamos, diariamente.
Teve o 7×1 do nosso Congresso, em frangalhos e cada vez se destroçando mais. O 7×1 da falta de aceitação das diferenças que crucificou uma trans na parada gay e milhares delas em todas as ruas, bairros e cidades do Brasil. O 7×1 da morte tão precoce do gênio mineiro Fernando Brant. O 7×1 do impeachment aprovado por um dos maiores criminosos do país e compartilhado por aqueles que não necessariamente o apoiam, mas não deixam de oferecer sua gratidão a ele só por uma defesa de seus interesses. O 7×1 daqueles que lerão o parágrafo anterior e me chamarão de petralha, já que obviamente não é possível atacar Cunha sem ser defensor de Dilma e vice-versa (afinal, é tudo 8 ou 80). O 7×1 dos adolescentes comemorando um salário que foram mortos pela polícia no Rio, já que só podiam ser criminosos. O 7×1 do dólar a R$ 4. O 7×1 das nossas belezas naturais e culturais se esvaindo em lama e em chama, sem um respiro de salva-guarda, sem aviso, sem piedade.
2016: seja mais justo conosco.

Sua Voz

 

A sua voz na minha cabeça
Diz o que eu fiz certo e o que eu fiz errado
Dança, canta, grita e esperneia
Faz um escândalo. Prova seu ponto
É a sua voz na minha lista
Das que esqueceria brevemente
Se suas palavras não pesassem docemente
Cada um dos meus argumentos falhos e vazios
É a sua voz que me acorda no frio
De um pesadelo que não tem mais fim
A voz que puxa, que traz para dentro de mim
Uma série de memórias não vividas
A mesma voz que cantava a rebeldia
De uma canção não comercial
A mesma boca consumia docemente
A mesma sede que o meu corpo chamaria
A mesma voz que eletrônica proclama
Que a minha vida eu devo passar a beber
Só porque um dia eu possa, por um momento, esquecer
Que é de você que eu sinto falta
Não do seu corpo, do seu jeito, da sua calma
Mas daquela primeira dança
Momento em que só em corpos nos encontramos
Lembrança para qual quis voltar
Momento em que ela não havia possibilidade
Nem música
Nem voz
Nem vontade
Nem viagem
Nem descompromisso
A gente podia ter ficado só nisso
Uma inocente dança e sem pauta
Assim, sabe-se que preparada, eu não sentiria sua falta

Halls de Melancia

halls-de-melancia

No meio do dia agitado no trabalho, uma colega pergunta:
– Alguém quer um halls de melancia?

Halls de Melancia. Era o cheiro forte dessa bala que sempre aparecia quando eu encontrava você. Poderia até ser o Trident do mesmo sabor, também moda na época, mas sempre achei que o Halls era mais característico. Mais a sua cara mesmo.

E era esse cheio de melancia que estava sempre no seu carro. Ou em você. Seu perfume (sempre o mesmo ao longo de todos esses anos) não dava conta de cobrir o cheio de melancia que a sua boca exalava e que eu gostava de sentir, naquelas tardes tão curtas, enquanto eu roçava meu rosto na sua rala barba.

Era o gosto de melancia do tal Halls que ficava em mim depois de cada beijo. Era o tal do Halls de Melancia que eu comprava na barraquinha perto da faculdade, ou no bar do lado do estágio, ou na vendinha na frente da escola, cada vez que batia a saudade e eu não podia mais simplesmente te ligar e pedir pra te encontrar ou marcar de te ver.

E hoje, foi o mesmo Halls de Melancia que me arrancou um sorriso do rosto ao lembrar de você e de toda essa história…

Porque essa história eu sempre vou gostar de lembrar. Ainda que não tenha sido o conto de fadas que a adolescente em mim sonhou um dia, tudo no final deu certo, não é mesmo?

Alice

este texto está nos rascunhos deste miserável blog desde julho de 2013. Hoje, foi revisado e veio ao mundo. 

Ela não encontrava seu lugar no mundo. Nem tinha porque continuar procurando.

Havia momentos que não podia esquecer. Vidas que não podia levar. Coisas que não podia entender. Iluminações que não podia alcançar.

Ela era oca. Ou ao menos se sentia assim naqueles dias. Trabalho, alguma distração, estudo, casa. Trabalho, alguma distração, casa. Trabalho, casa. Casa, alguma distração, alguma outra distração, uma foto para recordar. Alguns bons momentos ficavam na gaveta, esperando a chance de serem revistos. Nada parecia ser o mesmo desde que ela se perdeu, sem quê nem pra quê, naquele poço de desilusões perdidas. E é a sua história que ela não quer mais contar, porque já não a sente como sendo sua.

Não adianta dizer que tudo é tão mais simples do que se imagina. Ela não queria mais reviver aquelas angústias. Estava cansada de imaginar o sol brilhar e sempre ver os outros na linha do horizonte, nunca ela. Se achava merecedora das coisas boas da vida, mas não sabia o que fazer para definitivamente alcançá-las. Tê-las por direito.

Ela era atendente de um estúdio de modelos da sua cidade. Passava o dia vendo fotos de futuras celebridades em poses suspeitas. À tarde, Eduardo vinha lhe buscar. Iam juntos para a faculdade nos dias de aula, ou para casa nos dias sem aula. Ela já estava cansada dele, mas não tinha coragem de lhe contar.

Iam pra casa juntos. Todo dia. E tudo o que ela queria era ficar só, mas ele estava sempre lá.

Clarice, a filha dos dois também. Ela era o único ser do mundo que realmente merecia algum amor para Alice. Como se o resto do universo não fizesse o menor sentido. Ela só tinha 7 anos, não sabia de nada.

Era sua ponte. Seu momento de beleza e luz. Ver o sorriso brilhante de Clarice, em sua boca suja de chocolate na volta do parque aos fins de semana, acompanhar cada nova descoberta que a doce menina fazia, ler suas primeiras palavras, conhecer e curar seus medos, ouvir seu dia como se o giz quebrado na caixinha ou a nova música da brincadeira de roda fossem as coisas mais importantes do universo. Para Alice, eram. Ela era mãe de um pequeno belo anjo. Seu querubim.

Até o dia em que Clarice olhou bem fundo nos olhos de sua mãe, e perguntou:

– Onde estão seus olhos, mamãe?

– O que houve, meu bem?

– Seus olhos. Eles não estão olhando pra mim.

– Claro que estão meu bem. Bem aqui, tudo o que importa é você.

– Mas tá sem luz, mamãe… tá sem luz.

Ouvir de seu anjinho que era nítido que algo lhe faltava doeu mais do que qualquer coisa. E foi ali que Alice começou a buscar alguma forma de dar sentido ao que fazia, tentar buscar o que queria e se encontrar, sem medo das tais desilusões.

Ela tinha por quem lutar.

Não era Eduardo, não era sua família, nem a família dele, nem os amigos, os colegas do trabalho, da pós que começou tarde para dar um rumo diferente à carreira.

Era Clarice. Tudo o que existia só podia ser para ela e por ela.

Clarice era a resposta.

26

26

Tem nem três mês

De vinte-seis

Viu cabelo branco

Primeira vez

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Descarrega emoções

Combustíveis

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Ultrapassa barreiras

Quase instransponíveis

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Fala mais que a boca

Economês

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Não pede desculpa

Nem deseja pêsames

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Sorri, serena

Conta até três

 

Tem nem três mês

De vinte seis

A vida é plena

De deveres

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Começa uma série nova

A cada mês

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Acumula paixonites

Uma por vez

 

Tem nem três mês

De vinte e seis

Insônia incomoda

Acorda às três

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Rugas, pé de galinha

Enfeitam a têz

 

Tem nem três mês

De vinte seis

Continua rimando

Tudo outra vez?

 

Tem nem três mês

De vinte seis

A vida é mais confusa quando se está mais perto dos trinta…

 

A Sociedade do Espetáculo

perfeitoLuz. Câmera. Ação.

Você, ser humano perfeito, acaba de acordar. O mundo gira a seu redor e você só precisa se preocupar em ser ainda mais perfeito. Você é uma novela, uma série, uma história sem fim que todo mundo tem que acompanhar e participar. Porque você é o ser mais importante do universo.

E porque você é assim tão importante? Ah, porque nasceu, lindo, maravilhoso e perfeito. Com essa “duck face” que aparece em todas as suas fotos, esse seu bronzeado que deixa todo mundo louco, ou esse cachecol que você usa nos dias de frio só pra fazer charminho. E você é um ser humano cheio de virtudes incríveis, que são as mesmas que estão na moda no momento, porque afinal de contas, você não quer criar polêmica. Você foi às manifestações do ano passado porque sua turminha foi, acha as Diretas Já o máximo mas não sabe em que ano aconteceram, digita #NãoVaiTerCopa por aí porque é statis, achou o beijo gay da novela sensacional, mas faz cara feia quando vê dois rapazes de mãos dadas na rua.

Mas a culpa não é sua. A culpa é dos seus pais, que não conseguiram te dizer um não sequer, seja quando você pediu de Natal o brinquedo da última moda e que eles ficaram pagando o ano inteiro, pra você enjoar em dois dias e chamar o Papai Noel de velho babão em seguida, seja quando você reclamou que a professora era uma idiota, apenas porque ela tinha corrigido sua prova do jeito certo ou porque te deu uma bronca na frente dos seus amigos. A culpa é dos seus amigos, que fizeram você acreditar que ser o machão ou a menina mais bonita te fariam ser bem sucedido (a) para todo o sempre. A culpa é do seu tio, que deixava você trabalhar a hora que quisesse no seu “primeiro estágio”. A culpa é do seu professor da faculdade, que não te disse que o seu diploma não valeria nada se você não trabalhasse duro para ser um bom profissional. A culpa é de todo mundo ao seu redor que não abriu seus olhos para a vida, que não é cor de rosa como o céu fica no final do desenho animado. E a culpa é sua sim, por se manter nesse Show de Truman até agora.

Você é esse ser humano que fica feliz a cada novo comentário te dizendo como você é lindo e que faz cara feia quando aquele seu amigo não dá like na 42ª foto que você postou no “Faice hoje”. Você é aquele que xinga seu chefe cada vez que ele te pede para corrigir um erro que você cometeu 495 mil vezes, que não olha na cara da empregada que te serve café, ou que deixa o banheiro do escritório limpo, ou que faz o almoço da galera. Esse ser humano cheio de virtudes que é você, ultrapassa o sinal amarelo porque “dá tempo”, que paga a habilitação porque “todo mundo paga”, reclama dos políticos que tem, mas sempre vota na mesma gente e se conforma em todos os dias levantar e ir para o trabalho chato, passar horas da vida com pessoas que você não gosta, voltar pra casa, ver novela e dormir. Mas nada disso importa porque você veste roupa de grife, gasta muito nas baladas do fim de semana e está sempre sorrindo nas Redes Sociais. Porque você é feliz.

Ou porque você é um bebê mimado, mal educado e cheio de problemas psicológicos. Que finge que tá tudo bem, afinal, a vida segue e você precisa mostrar sua felicidade pra aquela cambada de invejosos.

Corta!

PS: texto inspirado em um bocado de conversa com duas pessoas incríveis (Wendl e Dri, vocês são demais) e nessa matéria aqui.