Uns dias…

Há dias em que tudo o que você precisa é descansar. Ainda que haja sujeira ao redor, ainda que o caos domine seu lar, seu desktop, sua agenda, sua mochila. Você olha ao redor e está tudo bagunçado, mas você não faz nada a respeito. É como se não houvesse saída senão suportar. E seguir adiante, acumulando todo aquele caos que não se recicla, não vai embora, não se desfaz. Tudo ao redor é pó, trapos, papéis fora de ordem.

E há dias de limpeza. Quando você reúne todas as suas forças para arrumar, limpar, endireitar. Afastar a sujeira das más recordações e limpar o coração, deixando apenas o que é bom. Tirar do guarda-roupa todas aquelas roupas que você não usa mais, mas que alguém pode aproveitar. Rasgar velhas fotos e pôr novas no lugar. Trocar os quadros da sala, reorganizar os discos, organizar as meias por cor, os MP3 do computador por pasta, artista, ano e gênero. Ficar só consigo mesmo e por as ideias no lugar. Limpar a mente para se deixar ouvir.

É claro que aí o caos surge. Quando alguém realmente se deixa ouvir, a voz lá de dentro, tão desacostumada que está a ter espaço, abusa da liberdade e fala, berra, grita. Não ouve quem não quer.

Limpezas são cansativas. São dolorosas. São desgastastes.

Mas são essenciais se é necessário um passo a frente, uma nova maneira de ver, uma escolha., um jeito de agir diferente.

Cada limpeza dura o que tiver que durar. Depois que passam, são só uns dias…

Saudosismos

Saudosismos

saudosismo
Tenho vivido uma fase extremamente saudosista da minha vida. Não sei se é a velhice batendo à porta (completei um quarto de século da forma mais bonita que podia ser mas, ainda assim, é a quarta parte de um século de vida) ou se é a saudade e a volta de muitas pessoas que tem acontecido nos últimos tempos.
 Fato é que as minhas lembranças favoritas dos últimos dias têm sido não do último final de semana, mas do primeiro apelido idiota, não da última banda alternativa que descobri, mas das primeiras, não dos meus atuais textos, mas dos mais antigos, daquela adolescente retardada que nem sonhava ser jornalista.
Lembranças felizes, que vêm na forma de um grupo de jovens dançando em roda embaixo do vão do MASP numa terça-feira em que teria que chover. O batuque de tambores e o som do violão, o passinho ensaiado e as vozes… Qualquer desavisado pensaria serem loucos, mas era só a juventude do neocatecumenato celebrando a vinda do tal Francisco. O que, é claro, me fez chorar de alegria lembrando do cânticos favorito da D. Marlene, justamente aquele que aqueles jovens que eu não conheço cantavam. Um bom momento.
Ou o shuffle do seu celular, que sempre te leva para as músicas mais lindas, como aquela do grupo de inglês que nem da sua sala era, mas cuja apresentação você precisava ver de qualquer jeito. E aquele CD q você ganhou de aniversário da panela, com uma música pra lembrar de cada pessoa? A capa ainda está lá, junto com as cartas e cartões de aniversario de outros anos… E aquela árvore da vila onde você morava quando pequeno, que te contava as historias mais legais da vida?
A saudade do passado é uma ponta de vida que nasce a cada dia. É ver-se impelido a rever em si erros e acertos que moldam e que fazem diferença. É bom ser saudosista de sua própria história, desde que não se deixe viver apenas de passado. O presente está ai para nos desafiar, nos mandar para novos desafios, nos fazer ficar um pouco mais nos bastidores para depois subir ao palco e brilhar ou nos ajudar nas decisões fáceis e nas difíceis.
E também tem o futuro que… Bom, o futuro, quem sabe não é mesmo?

Um show para tocar o coração

 

Fagner

A Virada Cultural desse ano não teve muitas atrações para as quais eu dedicaria suportar apertos, socos, pontapés ou toda a gritaria fanática que me são habituais. Talvez eu esteja ficando velha, talvez os shows não me atraiam tanto mais ou pior ainda: eu não aguente mais virar as madrugadas acordada. 

 

De qualquer forma, fiz a minha listinha de atrações imperdíveis e fui ver o que conseguia assistir. Passei no final do show do Raça Negra, dei uma boa volta pelos balanços do Vale do Anhangabaú e fiquei muito, mas muito tempo na fila do Theatro Municipal, para tentar pegar o ingresso para um dos shows que eu mais queria ver naquele dia: sim, era o Fagner.

 

Raimundo Fagner é uma criatura encantadora, que infelizmente foi arrastado para a classificação “brega” da nossa música. Não consegui o ingresso para o show, mas fiquei na frente do telão que demorou umas 4 músicas para quase funcionar direito transmitindo para o povo de fora do teatro o show lá de dentro. Confesso que chorei de emoção, de uma saudade ardida que bateu, uma mistura de sensações.

 

E é com esse poder de emocionar uma grande plateia que eu acho que os cantores, bandas e artistas de uma maneira geral devem cativar o seu público. É essa sensação que me faz gostar, acompanhar, admirar um artista.

 

 E você? Que show já te fez chorar de emoção?

Que fragilidade…

fragilidadeEu não quero pena. Nem desculpas. Nem olhares de compaixão.
Só quero um abraço. Daqueles que curam todas as dores. Daqueles que quebram uns ossos.

Não quero entendimento. Quero carinho. E um pouco de descanso também. Aquela paz de fim de dia que fica presa na rede estendida na varanda.

Quero o sossego de um por de sol… E o otimismo do seu nascer mais belo.
Quero cada pedaço de cor que houver. Num arco-íris multicolorido.

Não preciso de bandagens nem de curativos. Os meus cortes são profundos demais pra que lhe sirvam.
Preciso de sorrisos. De risadas longas, de piadas intermináveis. De razões pra cantar. De segurança pra dar novos passos.

Não preciso de pedras. Já tirei todas do sapato. Nem preciso de obstáculos. Os que enfrentei já me moldaram demais.

Quero caminhos abertos e trilhas iluminadas. Nunca usei os atalhos, então deles eu não preciso também.
Preciso do ar mais puro. Da flor mais bonita. Do sonho mais doce. Da poesia mais sincera.

Preciso de força. De vontade. De afeto. De boas notícias e talvez de um pouco de atenção. E preciso mais que tudo ser egoísta. Porque eu não só quero, nem preciso disso tudo. Eu mereço cada coisa. Num pacote com fita de cetim azul celeste.

Das coisas que não sou

Eu não sou do tipo que para no meio do caminho
Que põe o pé na frente
Pra fazer tropeçar

Não sou do tipo que torce
Que vibra, que quer
Ver o outro errar

Não sou do tipo que quer atenção
Por todo o tempo
Nem do tipo que faz birra do nada
A qualquer momento

Eu não sou do tipo que vinga
Que odeia, que corrói
Nem tenho qualquer sentimento
Que machuca ou que destrói

Não sou também do tipo que quer pena
Nem colo, nem proteção
Nem aquele tipinho egoísta que
Finge melhor que a turma da televisão

Talvez eu seja do tipo que fica com raiva da ingratidão
E da falta de zelo, de carinho, de respeito e de atenção
Ou aquele tipo que deixa de ver para não cair
E que descobre sem querer um jeito melhor de partir

Ou quem sabe eu seja o tipo que espera e sorri
Porque sente que o melhor está por vir
Ou do tipo que acredita que não há mal nenhum
Que não tenha explicação que vá surgir

Mas eu definitivamente não sou aquele tipo
Que quer vingança, que quer sangue, que quer destruição
Nem daquele que questiona, que corre, que quer explicação

Sou do tipo que entende a vida e a aceita pro bem
E que não atrapalha, nem observa, nem cutuca
A obra de ninguém

Espaços vazios

Tem um espaço vazio na mesa,
Na cômoda, no armário.
Um espaço vazio no sofá, no dia,
No horário.

Tem um espaço vazio na cama,
Uma toalha sobra no banheiro
É vazio na televisão, na demora
Um espaço em branco no espelho

Tem um espaço vazio no computador
No relógio, na fotografia
Também está vazia a espera
Pra chegar o fim do dia

Tem uma mensagem que não chega
Um e-mail sem disparo, uma voz que calou
Tem uma ausência de novidades
De rotina, do que restou

Um calor que não é mais
Não há mais frio na barriga
Não mais in corpore sano
Nem coisas que ninguém mais entendia

A música vazia toca no MP3
O filme vazio se exibe no cinema
O teatro é vazio de emoção
O caderno não tem mais poema

Os jogos também pararam
Pois os tabuleiros estão vazios
Os abraços, olhares, piadas
Desfazem sua forma no frio

Os planos estão vazios
De projetos, de nomes, de lugares
Os xingamentos gentis pararam
De chamar curiosos olhares

Todos os lugares estão sem nada
Só com o pó que ficou do que é antigo
O belo se foi. No lugar o amargo
Luta para encontrar abrigo

E nada inunda. Nem enche. Nem completa.
Todos os espaços vazios ficaram
Sem ordem direta ou indireta.

Retalhos

Algumas pessoas passam a vida costurando. Ah, houve uma mágoa irremediável? Vou costurar uma alegria incrível aqui do ladinho, assim não sofro tanto. Aquele amor que passou e não deixou nada de bom? Precisa ficar do ladinho daquele melhor amigo que sempre estará ao lado, mesmo quando estiver muito longe.

Costurar a vida é procurar amor. Um amor que faltou aqui vai sobrar ali. Uma palavra que sobrou aqui, guarde-a, ela faltará lá na frente e você vai precisar usar. Um amigo que você não vê há anos, pode ficar pra sempre no coração, mas aquele outro chegando na esquina pra tomar uma cervejinha em casa pode ser o novo melhor amigo da década. Aquela senhora que pega metrô com você todos os dias e que sempre repete as mesmas histórias pode ser a avó que você nunca teve e que um neto por aí desvaloriza. Aquela ex-namorada que você não pode ver vai precisar do seu carinho no novo amor, que não será igual ao antigo porque tudo vai ser melhor. Aquele ódio repentino vira amizade verdadeira quando você rasga o tecido do pré-conceito e faz um remendo, com um pano novo, uma nova fita, uma cor nova: a compreensão.

Por isso é que viver é  pregar retalhos numa colcha gigante: cada boa lembrança, sorriso, amor é um pedacinho a ser costurado, remendado, pregado, uma nova história é um pedaço de dia a dia, destacado em nosso fim de vida, quando a colcha já estiver pronta. Porém, nenhuma vida é perfeita. É por isso que as colchas precisam ter tecidos falhos, como a inveja, o ódio e a mágoa. Esses pedaços também são guardados nos corações, e assim como o retalho bonito de uma nova e verdadeira amizade, de uma família feliz ou do amor de mãe, o pano precisará ser costurado. Isso porque faz parte do ser, da história, da vida. O pano dos sentimentos ruins é aquele mais bonito, que não dura. Fica na colcha para mostrar que ela não é perfeita, mas envelhece, rasga, descostura.

Enquanto isso, vão-se lá os costureiros da vida. Cada dia reserva uma descoberta, um tecido novo, uma linha diferente. Cada retalhinho é escolhido e pregado, do jeitinho que escolhemos com quem passamos nossos dias. Se a escolha é pensada, nossa colcha terá vida – senão, terá apenas pedaços de pano, que juntos ou separados não fazem mesmo muito sentido.

Minha colcha tem retalhos feios e belos, mas tem vida. E a sua?