Resenha – O carteiro e o poeta

Eu sempre ouvi falarem bem desse livro, mas nunca tinha entendido muito o porquê. Aí peguei pra ler. O livro conta a história do jovem Mario, morador de uma vila interiorana do Chile que se faz carteiro pressionado pelo pai a arrumar um emprego. Logo, Mario descobre que teria de atender apenas um cliente, e este era nada mais nada menos que o poeta Pablo Neruda. Pobre, com pouca cultura e muita curiosidade, Mario começa a se aventurar nas histórias do poeta com base num velho livro que seu pai tinha em casa na esperança de fazer com que algum dia, de alguma forma, o famoso o autografasse.

A história começa a ficar interessante quando Mario e Pablo se tornam amigos, inexplicavelmente, e o poeta começa a ajudar o carteiro a lidar com sua paixão desenfreada por Beatriz, uma menina que trabalhava com a mãe numa espécie de bar da região. A história dos dois se mescla de uma forma confusa e original e o amor e consideração de um pelo outro dura até o dia da morte do poeta.

É um livro curto e direto, que fala da importância da amizade. E merece muito ser lido.

O carteiro e o poeta
Autor:
Antônio Skármeta
Editora:  Record
Ano:
1985
Páginas:
127
Nota:
8,5

 

Resenha: 50 anos a mil e o dia em que Lobão me fez mudar de ideia

Eu sempre achei o Lobão um porre. Um idiota, porra louca, convencido, cheio de moral que pouco fazia e falava pra caramba. Sempre o vi como o cara que fala mal de todo mundo, que odeia o universo e que se acha o fodelão. Pois bem, quando vi sua biografia à venda precisei que esse seria o livro que eu usaria para confirmar minha tese de quão idiota poderia ser o músico. E decidi que leria o livro para anotar cada ato escroto dele e justificá-lo como mais um para colaborar com as razões que eu já considerava suficientes para não gostar do cara. Peguei o livro com o Igor, comecei a ler e me ferrei. Tudo o que eu pensava estava errado. Bem errado, na verdade. 

O leitor desavisado pode pensar “É claro! Foi ele que escreveu o livro, é óbvio que ele vai se deixar parecer o rei da cocada preta e se sair como herói”. Não amigo, não. Por mais convencido que ele possa parecer ao longo do relato de seus 50 bem vividos anos de vida, Lobão não deixa dúvida: sempre que há um feito seu quase inacreditável, é possível ler no final do capítulo um resumo do que os jornais diziam na época sobre os mesmos acontecimentos.

Lobão e o co-autor Claudio Tognoli descrevem, sob o ponto de vista de Lobão, a vida, os amores, os desamores e problemas e os fatos mais importantes desses 50 anos do cantor. O primeiro envolvimento com a música, quando ganhou uma bateria, a vontade de tocar samba, a paixão pelo futebol e sua total falta de jeito para a coisa, a família perfeita que se destruiu pouco mais que vinte anos depois do casamento dos sonhos, a relação conturbada com o pai e com a mãe, e a proteção que queria oferecer à irmã, o começo da carreira com Ritchie e Lulu Santos no Vinama, as primeiras paixões, a gravação do primeiro álbum solo (presente de um grande amigo de infância) e a Blitz, bem como a descrição detalhada do golpe que deu na banda e de como ele se sentiu um bosta depois, os problemas (e não problemas) com drogas, a saúde, as tentativas de suicídio, as comemorações, vitórias e derrotas e, com uma riqueza de detalhes incrível, sua guerra contra as gravadoras, apenas para defender seus direitos.

Essa foi uma das partes que mais me tocou do livro. O Lobão acreditou no sonho dele. E correu atrás, feito um doido. Brigou com Deus e o mundo para garantir que a venda de CDs fosse honesta para a gravadora e para o cantor e conseguiu, a muito custo, fazer valer a lei de numeração de CDs. Brigou com gravadoras, ficou anos longe da mídia mas conseguiu lançar álbuns independentes, criar seu próprio Selo, criar uma revista de música com um dos conteúdos mais inteligentes que já li (A OutraCoisa, que eu conheci graças ao Cascadura e que acompanhei até perder de vista), fazer shows levando apenas com um violão debaixo do braço, fazer da esposa sua empresária e continuar lutando, sem trégua, para garantir justiça para os seus e para os que amou.

Mas nem tudo são flores. Lobão foi um pouco exagerado, um pouco descabido, um pouco língua-solta, um pouco destemido e até um pouco arrogante em vários momentos, mas ele tem seus méritos para tal. Sua história com Cazuza não bate com a história contada pela mãe do moço no livro “Só as mães são felizes” em que nem se quer me lembro de ter lido mais que três ou quatro citações a ele. Lobão se justifica, dizendo que Lucinha era um amor, mas o que conheceu do filho (retratado no livro e no filme) não foi nem metade do que ele viveu. Suas acusações de plágio a Herbert Vianna criam outro ponto polêmico no livro, e é preciso ver os dois lados da história, mas vou procurar os álbuns para ouvir com atenção. Mais que qualquer coisa, é uma leitura tão recomendada como necessária àqueles que têm sede por conhecer um pouco da história da nossa música, pois Lobão a viveu e pode contar muito bem. Hoje tenho cada vez mais vontade de conhecer os trabalhos de Lobão, e recuperar o tempo perdido do meu ódio gratuito ao rapaz.

50 anos a mil
Autor: 
Lobão / Claudio Tognolli
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2010
Páginas: 591
Site: http://www.lobao.com.br 
Nota: 9

Eu e o PT

Decidi escrever esse texto porque muitos dos meus mais antigos amigos têm me perguntado o que aconteceu para que eu decidisse não apoiar a candidatura da Dilma, desde o início. Até a decisão ser tomada eu não sabia como estruturar esse texto. Mas decidi agora e espero que a decisão deixe minhas ideias mais claras a todos.

Eu parei de acreditar no PT quando isso aconteceu:

Obras do PAC esbarram em conservação da Amazônia

Segundo ONG, 322 zonas de alta biodiversidade estão sob ameaça na floresta

Unidade de conservação proposta por Marina Silva foi tirada de plano federal porque poderia impedir barragens futuras no Xingu

EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

Ao serem colocados sobre a mesa, fica claro o choque. Os planos de infra-estrutura para a Amazônia, quando totalmente implantados, vão ameaçar as áreas prioritárias para a conservação da floresta, que já estão desenhadas pelo próprio governo federal.
O alerta vem sendo dado por cientistas e ambientalistas desde o lançamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). No ano passado, um levantamento da ONG Conservação Internacional apontou que 322 áreas de grande importância para a biodiversidade -ou seja, onde seria recomendável criar unidades de conservação- estão sob influência direta de estradas, hidrelétricas, portos ou gasodutos. Cinco estradas cortarão essas regiões sensíveis, aponta o documento.
As obras também influenciam diretamente terras indígenas e unidades de conservação já criadas. Em todas elas, há risco de aumento do desmate.
Neste ano, um relatório ainda inédito do IAG, um grupo de consultores contratados pelo Ministério do Meio Ambiente para avaliar o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento, fez críticas à forma como as obras de infra-estrutura vêm sendo planejadas.
O documento, obtido pela Folha, diz: “Apesar de todas as diretrizes estabelecidas em documentos governamentais (…), a efetividade do planejamento racional de infra-estrutura na Amazônia, sobretudo de estradas e hidrelétricas, ainda não está assegurada”.
Segundo Carlos Nobre, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a ciência tem mostrado que grandes obras de infra-estrutura, em especial estradas, são vetores claros de desmatamento.
“Se o governo quer acelerar as obras, seja para a integração sul-americana, seja para a geração de energia, precisaria ter um novo paradigma de economia florestal. Só que ainda não descobrimos como tirar valor da floresta em pé”, diz.
“É muito difícil prever que rumo o presidente Lula vai dar para a política ambiental [após a saída de Marina Silva]”, afirma Ima Vieira, diretora do Museu Paraense Emílio Goeldi.

Xingu
A julgar pelos cortes feitos por Lula e pela Casa Civil no PAS (Plano Amazônia Sustentável), no entanto, a balança pende para o lado das obras -e não da floresta. Uma das principais unidades de conservação cuja criação foi proposta ao plano por Marina Silva, a Reserva Extrativista do Médio Xingu, no Pará, foi vetada porque poderia atrapalhar a criação de barragens adicionais da usina hidrelétrica de Belo Monte.
Dilma Rousseff cuida diretamente desse projeto, considerado crucial para que o país não tenha um apagão de energia elétrica na próxima década.
Tudo indica que, depois da crise envolvendo o licenciamento das usinas do rio Madeira, Belo Monte seja a bola da vez. A região do Xingu concentra um grande número de terras indígenas, e os índios já impediram construção da usina 20 anos atrás, quando ela se chamava Cararaô.
O projeto, agora, volta a ser discutido pelos índios. Na segunda-feira, representantes de várias etnias se reúnem em Altamira para debater os possíveis impactos da megausina -e de outras- sobre suas terras.

Esse texto foi publicado em 17/05/2008, quatro dias depois de Marina Silva deixar o Ministério do Meio Ambiente. Quando li essa matéria, comecei a entender as razões que a levaram a abandonar o cargo. A Dilma lidera o PAC, a Marina defende a preservação ambiental, a preservação ambiental vai contra o PAC e a Marina cai fora… como é que dá para agir sem apoio do governo?

Marina está à frente do ministério desde o primeiro mandato de Lula. Sua saída põe fim a um processo de desgaste que se acentuou no ano passado, quando o atraso na concessão de licenças ambientais pelo Ibama foi apresentado como o grande vilão para o não andamento de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Marina chegou a protagonizar disputas com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o próprio Lula fez críticas públicas à área sob seu comando quando a falta de licenças atrasou o processo de leilão das usinas do Rio Madeira.

Antes desse episódio eu até via a Dilma como uma mulher bacana, como bem lembrou um velho amigo meu, Renan, sobre uma das nossas conversas de trem. Mas depois desses rachas fiquei com uma má impressão da moça. Enfim, minha história com o PT é bem mais antiga.

A base da minha família é nordestina. Meu pai e minha mãe vieram para São Paulo para tentar a vida, logo após o casamento. Meu pai conseguiu um emprego na CMTC e minha mãe dava aulas de Matemática e Ciências no Olavo Bilac, colégio tradicional do bairro da Lapa, hoje transformado em uma das áreas internas de uma grande rede varejista. Sempre fomos pobres, mas as coisas ficaram sérias quando a CMTC foi extinta, no governo do Paulo Maluf. Em novembro 1992 nos mudamos para Caieiras, para uma casa numa rua sem saída, na última rua de um bairro bem pobre. Meu pai culpava o Maluf por tudo o que tinha acontecido e eu, com 3 anos e meio, comecei a ouvir as pessoas falarem de um tal de Lula, que ia fazer tudo mudar.

Estudei a vida inteira em escolas públicas da região, que não eram incríveis, mais não eram nada ruins. A EMEMI Alcides Agustinelli, onde fiz a pré-escola, tinha uma super infra para a época e eu, que estudava em período intermediário, tinha acompanhamento para várias atividades. Aprendi a ler no final da pré-escola, e já saí para a 1ª série adiantada em relação aos coleguinhas. Apesar de sempre achar tudo bonito, ouvia gente reclamar da qualidade do ensino, e dizer que o Lula  mudaria tudo. Depois, fui para a E.E.P.S.G Isaías Luiz Matiazzo e na época, quando eu tinha 6 anos, era uma boa escola. Outra escola atendia a demanda de crianças da 1ª a 4ª na região, mais era insuficiente. Fiz a 1ª e a 2ª séries no Isaías enquanto a nova escola, hoje chamada de E.E. Alfrid Theodor Wesflog era construída. Fiz as 3ª e 4ª séries na nova escola, construída em menos de dois anos (a obra começou no final da 1ª série e acabou um mês depois de eu começar a 3ª) e depois voltei para o Isaías da 5ª ao terceiro colegial.

Não acho que tive o melhor ensino do universo, mas acredito que muito mais do que a estrutura da escola, que foi piorando no caminhar dos anos, o aluno também importa e muito. Minha mãe deu aulas durante anos em uma escola particular que foi piorando com o passar dos anos. Depois, deu algumas aulas em escolas públicas que tinham tudo para ser ótimas, mas tinham alunos terríveis. No meu último ano de colégio, a turminha “nerd” até organizou um cursinho pré-vestibular. E muitos dos professores da escola, e até um de outra, ajudaram a gente. Bom, voltando ao PT…

Enquanto eu e meu irmão estudávamos, meu pai e minha mãe tratavam de cuidar do sustento da família. Como meu pai sempre se envolveu em confusões e adorava processar empresas, nunca ficou muito tempo em trampo nenhum. Por vezes, era a minha mãe que arrumava a situação em casa, garantindo alguma estabilidade. Até que em 1997 ela teve catarata nos dois olhos e teve que fazer uma cirurgia. A recuperação e tratamento foram ótimos e ela foi super bem atendida no hospital público do Juquery, em Franco da Rocha. Administrado pelo Governo do Estado de São Paulo, além do atendimento psiquiátrico (que não existe mais hoje em dia) o Juquery oferece diversos tratamentos e cirurgias das mais diversas especialidades.

Daí pra frente minha mãe não trabalhou mais. Não podia ter contato direto com giz, lousa ou forçar muito a visão. A partir daí ela começou a receber o auxílio  doença (uns 3 ou 4 anos depois) e meu pai bancava a casa. Eu já me virava para conseguir uns troquinhos, fui babá, professora de informática, auxiliar de escritório, vendedora de material para construção… fazia de tudo um pouco.

Em 2001, eu e meus irmãos nos cadastramos e começamos a receber o Bolsa Escola. Aquela graninha ajudava pra caramba. Ao completar 16 anos o jovem deixava de ter direito e, por escadinha, meu irmão e eu em seguida deixamos de receber o benefício. Antes de minha irmã parar de receber, o programa foi transformado em Bolsa Família pelo governo do Lula, o carinha que toda a galera lá de casa dizia que ia mudar o mundo. e a minha família deixou de receber o benefício. Eu achei ótimo porque sabia que, por mais que a gente precisasse daquele dinheirinho para dar uma complementada na vida, não dependíamos daquela grana para viver, como outras famílias beneficiadas. Só comecei a ficar muito puta quando acompanhei os diversos casos de fraude com o Bolsa Família em diversas cidades do país, nas prefeituras e governos, uma sacanagem sem igual.

Em 2005, cheguei ao ano decisivo. Precisava fazer faculdade. Eu queria passar na USP, mas, se não rolasse, não sabia o que seria de mim… eu nunca poderia pagar um FIES (e nem teria coragem de tentar) e sabia que se eu não começasse logo a estudar, dificilmente teria um futuro bacana, como era o que eu sonhava. Tive muita sorte de aquele ter sido o ano de ouro do ProUni, programa recém criado pelo governo federal. Fiz um ENEM aceitável e consegui, com a mesma prova, bolsas em duas faculdades, para diferentes cursos, nos processos seletivos de 2005 e 2006. Nunca aceitei o sistema de cotas do programa por considerá-lo racista, mas o restante do projeto ajudou, e ajuda, milhares de pessoas, o que é incrível (clicando aqui você pode ver um pouco do que eu já achava do ProUni na época). De uma forma ou de outra, em 2006, votei no Lula principalmente pelo ProUni. Não que os escândalos de corrupção do governo não me incomodassem. Não que eu não quisesse a mudança. Já levava em consideração a proposta do PSOL e da Heloísa Helena, que nos últimos dias se tornou uma grande heroína para mim, mas votei no Lula, porque não estava certa de que não deveria votar no PT, acreditava que as coisas poderiam ser ainda melhores e fui diretamente beneficiada pelo governo Lula. Talvez tenha sido um voto pensando no individual, mas eu não estava acostumada a pensar em uma alternativa não-PT para a política, justamente por toda a instrução familiar / religiosa que recebi. E digo religiosa porque, além de ter nos meus pais a preferência pelo voto no PT, me inseri na Pastoral da Juventude, movimento católico que tem entre suas bases a Teologia da Libertação, uma das bases da fundação do PT. Quase todos os jovens com quem me relacionava na época e que participavam da PJ eram petistas e eu também era.

Um novo governo Lula começou. Mais escândalos, mais corrupção, roubos, calúnias, afastamentos, revisões, propostas absurdas e o “jeitinho brasileiro” resolvendo a política. Os amigos inocentados / afastados. A “oposição” acusada de ser contra o projeto de crescimento do país. Mais promessas não cumpridas. Acusações à imprensa e pressões para controlá-la (isso me afetava bastante, afinal, eu estava  estudando jornalismo e mais que tudo, queria ter o direito de exercer minha profissão com liberdade). E aí eu cansei…

Como já acho que deu para perceber, eu não sou militante de nenhum partido, mas acompanho os movimentos políticos do país como cidadã. Eu já  assumi como meus os valores políticos, éticos e morais  do PT, já li seu estatuto e conheci sua história. Já votei no PT  e no  Lula  e defendi o partido quando os primeiros escandalos de corrupção apareceram.  Já vi de perto as manifestações da juventude e já gritei junto com os excluídos no seu dia, no grito dos excluídos, pedindo por mais trabalho, pão e terra. Conheci várias cidades e realidades e defendi o PT. Já enfrentei, junto com o partido, todas as criticas. Mas cansei. Chegou ma hora em que náo dava mais. Quando eu comecei a ver líderes e representantes do partido indo contra tudo o que defenderam por anos a fio, quando eu vi que a ideologia do partido não era mais respeitada pelos membros do partido, quando eu vi que toda essa bagunça não era só para defender o povo e para o povo, quando eu vi que muitos daqueles que eu admirava passaram a defender seus próprios interesses, fazendo pouco caso dos interesses daqueles que eles deveriam representar, aí eu cansei de defender o que não é possível de ser defendido  e comecei a buscar outras frentes.  Hoje simpatizo com a causa do PV, com a coragem do PSOL e com a clareza do PSDB. E acho muito importante preservar o direito de se sentir orgulhoso por se ter a audácia de se mudar de opinião…

Uma história de amor chamada Skank

Postei esse texto no meu blog sobre música entre os blogs da plataforma de comunicação do Santander uma semana antes do #SkanknoMineirao. Acho que vocês também podem gostar dessa história.

Em 1993, nascia em Belo Horizonte, Minas Gerais, a banda Skank. Formada por Samuel Rosa nos vocais, Henrique Portugal nos teclados, Lelo Zaneti no baixo e Haroldo Ferreti na bateria, a banda tinha a intenção de fazer um som com referências ao reggae jamaicano. No mesmo ano a banda lançou um álbum de nome homônimo e começou a espalhar sucessos pelo Brasil, como “In(dig)nação”, com referências ao sentimento brasileiro pós Impeachement do Collor, “Tanto”, versão para a balada de Bob Dylan “I Want You” e “Gentil Loucura” que virou tema da novela “O Mapa da Mina”. Logo, os 4 meninos de BH viram que tinham que sair de Minas pra fazer sua música colar no Brasil.  Em 1993 eu tinha 5 anos de idade e não sabia o que se passava na cabeça desses 4 meninos que algum dia mudariam o meu jeito de pensar.

Em 1994, o Skank lançou o álbum “Calango”, vendeu 1 milhão de cópias e pôs na cabeça do Brasil as clássicas “Jackye Tequila”, “Esmola”, “É Proibido Fumar” versão da canção de Roberto Carlos, “Pacato Cidadão” e a eterna baladinha “Te Ver”. Foi nessa época, aos 6 anos, que o Skank entrou na minha vida. Meu pai comprou um tocador de CD (na época, isso era uma novidade fantástica) e junto com ele alguns CDzinhos, sendo o do Skank um deles. Meu irmão mais velho, me chamava de “Vaca, cadela, macaca, gazela” uma brincadeira de criança em referência à letra de “Jackye” e eu odiava aquela música. Na época eu acompanha só o estilo musical que meus pais acompanhavam, mas só por causa dos xingamentos do meu  irmão comecei a procurar naquele CD verde da banda de fotos e nome esquisito alguma outra música que eu pudesse usar pra xingar ele… não achei nada, mas encontrei “Sam”, uma outra baladinha linda da banda e que me apaixonou. Aos 6 anos de idade começava a minha loucura Skankarada.

Claro, eu era uma criança. Não dava pra ficar acompanhando a banda em shows, não dava pra ter todos os CDs. Em 96, quando o Skank lançou o álbum “O Samba Poconé” com a também clássica “É uma partida de futebol”, e a politicamente incorreta “Garota Nacional”, eu acompanhei as músicas pelo rádio, com o interesse de alguém que conhecia aquelas vozes. Não sabia que eles novamente tinham vendido mais que um milhão de cópias, nem que uma das músicas viraria 2 anos mais tarde a trilha sonora oficial da Copa do Mundo, nem que eles eram apaixonados por futebol, nem que o Samuel e o Henrique eram cruzeirenses enquanto o Lelo e o Haroldo atleticanos. Eu só sabia que conhecia aquela voz e que me agradava ouvir.

Em 98, o “Siderado” trouxe a baladinha “Resposta” de uma fase mais pop, que se revelaria muito mais intensa no “Maquinarama”, álbum lançado nos anos 2000. O álbum também trouxe a “Saideira” e “Mandrake e os Cubanos” para as rádios e eu também adorei assistir o clipe dessa última e ver o Haroldo loução em mil fantasias diferentes. Pouco me importava se havia sido mixado no Abbey Road, o famoso estúdio onde os Beatles gravaram algum dia, pouco me importava os Beatles, que eu conheci depois, graças ao Skank. Mas tudo isso mudaria em 2001…

Sim, após lançar o “Maquinarama” em 2000 e dar uma reviravolta na carreira incluindo mais elementos do pop, experimentações com instrumentos e trazer definitivamente a veia rock para seu som, lançando os singles “Três Lados”, “Balada do Amor Inabalável”, “Canção Noturna” e “Ali”, o Skank lançou em 2001 o famosíssimo e mais aclamado “MTV Ouro Preto”, um disco ao vivo com os maiores sucessos da banda, além das novidades “Estare Prendido em Tus Dedos” versão para a canção do Police e “Acima do Sol”, inédita. Nessa época eu tinha 13 anos, alguns amigos rockeiros e entre eles um garoto esquisito, meu 1º amor. Esse mesmo garoto foi quem me mostrou “Balada do Amor Inabalável” e foi quem disse que essa música era a minha cara. Daí para frente, minha loucura por Skank adormecida na minha infância voltou com uma força que não sei de onde mais vem. Comecei a comprar e ganhar CDs, revistas, recortes de jornal, acompanhar a banda,e só não podia ir a shows porque segundo meu pai eu ainda “não tinha idade pra isso”. O garoto ficou sendo meu amigo para sempre, mas talvez eu deve a a ele também pra sempre uma das coisas mais incríveis da minha vida: essa minha louca paixão por Skank.

Dos meus 14 anos até hoje eu sou uma enciclopédia viva de Skank. Em 2003, quando eles lançaram o “Cosmotron” e misturaram influências do Clube de Esquina com o britpop e com o rock inglês, a música de raiz do Chico e as experimentações técnicas que só um estúdio próprio proporciona e muitos fãs disseram que eles “perderam a essência” eu fui lá defender canções incríveis como “Por Um Triz” e “Resta um Pouco Mais” tão diferentes das modinhas “Dois Rios” e “Vou Deixar” que tocavam no rádio. Quando os fãs se ofenderam em 2004 quando a banda lançou uma coletânea que tinha 4 músicas inéditas e outras canções apenas dos dois últimos álbuns de estúdio, eu também fiquei brava, mas adorei “Um mais Um” e “Onde Estão”, além da gravação de “I Want You” do Bob Dylan e do inglês engraçadíssimo do Samuel e a dedicatória mais que merecida do álbum à Tom Capone.

As músicas do Skank faziam mais sentido pra mim porque eram a minha história cantada. Em 2006, quando eu cursei 6 meses de Sistemas de Informação de janeiro a junho e em agosto entrei por acaso no curso de Jornalismo, o Skank lançou o “Carrossel” em setembro, cantando “Notícia” e “Antitelejornal”, músicas que se relacionavam ao que eu queria ser, ao que eu queria que o Jornalismo fosse. No mesmo ano, comecei a escrever pra um site de Rock graças à resenha que fiz do CD e o segundo show do qual fiz cobertura na minha vida foi também o primeiro do Skank que assisti, cantando junto com a banda o lançamento “Uma Canção é Pra Isso” que todos os fãs já sabiam, além de “Mil Acasos”, “Eu e a Felicidade”, “Até o Amor Virar Poeira”, “Trancoso” e “Seus Passos” que quase ninguém sabia, mas eu já tinha na cabeça. Conheci muitos fãs, que se transformaram em amigos e mudaram um pouco a minha vida também. Mais legal do que ser fã de uma banda é ter por perto pessoas que também são e que entendem e conhecem bem todas as loucuras que você faz por eles.

Em 2008, às vésperas do lançamento do “Estandarte”, décimo álbum da banda eu já era uma fã consolidada: tinha todos os CDs, sabia todas as músicas, tinha pôsteres, fotos, recortes, informações exclusivas, fazia parte de uma lista oficial de discussões, acompanhava o site, comentava o blog da banda. Mas eu queria mais, e junto a alguns amigos criei o Fã-Clube Skankarados, que se apresentou à banda em novembro daquele ano no show de lançamento do álbum já cantando de cor “Ainda Gosto Dela”, “Sutilmente”, “Noites de Um Verão Qualquer”, “Canção Áspera” e “Para Raio” e de imediato teve o reconhecimento dos caras. A criação e manutenção do fã-clube, assim como o carinho que a banda e produção têm por todos nós é hoje uma das coisas mais legais da minha vida hoje em dia.

Nina

Era uma garota diferente.

Gostava de espelhos. Gostava MUITO de espelhos.
Os espelhos aliás, eram sua única mania. Perigosa e perversa para uns. Comum e rotineira para ela.
Seu nome era Nina. Era assim que todos a chamavam. Era uma jovem bonita, calma, competente.
Os espelhos lhe dominavam todo dia.

Acordava e ao se por sentada em sua cama, um espelho lhe dizia como estavam seu cabelo e olhos.

No banheiro, outro. Na rua, seu retrovisor. Na empresa, uma multinacional da área de químicos, os espelhos dos elevadores. Quando ia de ônibus para o serviço, nos dias de rodízio do seu carro, os espelhos das avenidas, lojas, vitrines…

Aliás, adorava vitrines. Em seus momentos livres, na saída do cinema, voltando da balada, caminhando pelas avenidas, ruas cheias ou vazias, gostava de imaginar as vitrines. Gostava de se ver refletida nas vitrines. Seu reflexo sempre lhe fazia sorrir. O bonito sorriso da satisfação comprovada.

Tinha abandonado alguém um dia. Quem era mesmo? Ah, ela não lembrava mais. Tinha uns balanços para entregar, tinha que correr para a manicure. Seu cabelo estava precisando de uma hidratação. Seu apartamento, de uma reforma. Ela, de um espelho na carteira.
Ocupada todo o dia com seu trabalho, às vezes até à noite, nos fins de semana, a única coisa incomum que tinha em sua vida era a excessiva mania de olhar para espelhos.
E ela simplesmente gostava do que via.

Era uma ruiva natural, como raras existem, com olhos cor de mel. Magra, pálida e cheia de sardas no rosto. Usava saltos altos e roupas discretas. Preferia o preto, o branco e o cinza.

Os homens lhe olhavam com desejo, paixão, cobiça.
As mulheres lhe olhavam com raiva, ódio, inveja.

Ela não ligava para os olhares. Nada lhe importava, só ela mesma.

Seu pai morreu um ano depois da conclusão de sua primeira faculdade. Sua mãe, logo depois, pareceu não suportar a ausência do amor de sua vida. Ela sempre achou aquilo uma grande besteira.

Quando sozinha, cantava. No banheiro, sua voz suave repetia a canção favorita: “I don´t love anyone…“.

Foi morar sozinha logo depois da morte dos pais. Ela era o tipo social, falava com todo mundo, gostava de conversar, mas seus assuntos eram limitados: trabalho, estudos, profissão e atualidades. Ninguém nunca a viu falar de uma amiga querida de quem ela sentisse falta. Ninguém nunca a ouviu falar de amores antigos, ou novas paixões. Ela nunca falava sobre essas coisas. Achava besteira. Só as últimas notícias, o novo projeto da empresa, sua pós-graduação e coisas do gênero saíam de sua boca. Seus papos eram sempre e tão somente sobre os mesmos assuntos que logo se tornava o comentário da turma: “Lá vem Nina, a mais competente”, ou, “Lá vem aquela chata… Ela tinha que ser tão bonita?” eram cochichados comumente nos corredores. 

Vivia tudo em seus dias intensamente e só. Gostava de viver do seu jeito.

Assim os dias passavam. Corria muito, parava pouco, pensava só o necessário. Ela realmente não amava ninguém, não conseguia, não tinha tempo pra isso. Precisava manter sua vida estável, seu carro com gasolina, seu trabalho em dia. Precisava ser a melhor na área Química, precisava ser a melhor aluna, a melhor funcionária, a mais bonita das mulheres, a mais competente entre os seus, a que tinha o apartamento mais organizado, a que possuia o gosto mais apurado para os prazeres da vida, a última a sair da noitada e a primeira a chegar à empresa, sem olheiras, sem cansaço e cheia de vida, disposição. Ela não queria e nem precisava provar nada para ninguém. Mas para si mesma, tudo aquilo era indispensável. Ninguém entendia o porquê. 
Era considerada a mais insensível das pessoas. Nada conseguiria lhe atingir. 
Até que um dia, sem querer, ela soltou uma única lágrima.
– Alô, é a Nina?
– Sim, quem fala?
– Aqui é o Allan, irmão do Átila. lembra?!
– Lembro! O que é?
– O Átila morreu. Me deu o seu telefone antes, disse que queria falar com você, dizer que te amou a vida inteira e que esperou por você durante todo esse tempo também. Morreu semana passada, uns cinco minutos depois de dizer isso, não sem antes me fazer prometer que faria com que você soubesse.
– Hum…
– Alô?! Você o conhecia de onde mesmo? …  Alô? … Alôooo???
Desligou o telefone. Não quis saber a causa da morte, não quis saber do enterro, não quis saber de nada.  Se olhou no espelho mais próximo e viu a lágrima que derramara. E passou um bom tempo se perguntando se toda a sua vida e seu sucesso tinham realmente valido a pena.