Somos Tão Jovens – por um Renato Russo que a gente tenha vontade de lembrar…

Somos Tão JovensEm primeiro lugar, se você quer ler uma resenha menos apaixonada, clique aqui.

Agora que você já sabe que essa resenha vai ter amor, vou começá-la com raiva. Porque “Somos Tão Jovens”, filme que conta a história de Renato Russo antes da fama, me deu raiva. Sai do cinema com uma sensação de vazio muito grande, que foi além de todas as minhas expectativas positivas. Não é um filme arruinado, ruim de tudo, não é “Tempo Perdido”, como a piadinha do Sensacionalista sugeriu. Mas tem trechos que simplesmente incomodam. Muito.

Boa parte dos primeiros 30 minutos de filme foram feitos para as pessoas que conhecem muito bem a história do Renato e não para aqueles fãs de primeira viagem que provavelmente vão lotar os cinemas. Beleza, o cara tá lá andando de bike, leva um tombinho e já tem que por um pino na perna? O médico menciona a doença assim, do nada, sem que os pais demonstrem nenhuma grande preocupação? Renato fica tempos e tempos na cama tocando violão porque é um adolescente estranho ou porque não consegue se levantar? Em cinco minutos ele aparece tentando muletas, tropeçando, andando torto e depois correndo, andando normalmente… ô galera, cadê o contexto?

Eu li “O Filho da Revolução” e acho que a minha expectativa estava alta por saber que a produção teve como base o livro. Por mais que não me lembrasse de alguns momentos, como a influência que o meu amado Clube da Esquina exerceu nos meninos de Brasília (essa com mais contexto, vista tanto no próprio Renato quanto em sua turma tocando numa rodinha de violão  a incrível “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo e outras do Durango Kid Milton, do moleque travesso Lô e CIA LTDA.). Mas há alguns momentos em que Renato parece apenas um menino mimado que por sorte se interessou por música e começou a sonhar uma banda.

Por favor, não venham me dizer que o Renato Russo ficava citando frases do que viriam a ser suas músicas em conversas informais com os amigos, em discursos inflamados nos bares e em devaneios porque ele não era esse tipo de boçal tá difícil de acreditar. Em determinadas partes do longa tem-se a ligeira impressão de que Renato era um adolescente babaca que todo mundo odiava e que se achava a última Coca-Cola do deserto. É essa a imagem que a gente tem do Sr. Manfredini? Acho que não.

O filme também tem suas razões de ser e são esses momentos que valem a ida ao cinema: a atuação de Thiago Mendonça fica incrível quando ele começa a cantar e mais ainda quando o trovador solitário aparece. A relação com Ana, grande amiga de Renato dos tempos da adolescência não poderia ter sido representada com maior perfeição, o tipo de relacionamento adolescente que a gente vê todo dia por ai e que não reconhece. Alguns clássicos da Legião orquestrados e que davam movimento ao filme tocam nos momentos certos e as versões ficaram simplesmente perfeitas, do tipo que dariam uma trilha sonora de filme que venderia milhões.

Outras partes que merecem a citação ficam a cargo da fotografia e o jogo de luzes de algumas cenas de palco, que fazem Thiago realmente se parecer ainda mais com Renato, e em alguns momentos é realmente possível acreditar que é o Manfredini que está sendo gravado e não o ator. Um desses momentos é a cena em que Renato toca “Eduardo e Mônica” em uma apresentação do “Trovador Solitário”, em que anuncia que o “punk morreu” e que boa educação faz a diferença quando o público nada receptivo joga papeizinhos e moedas no cantor e há poucos aplausos ao final do som. Os shows, em que a fúria do adolescente Renato é vista em sua voz, em seu jeito visceral de declarar suas verdades em músicas. A bissexualidade assumida para a mãe no momento mais improvável e a reação da dona mãe (ainda que aqui apareça novamente uma idiota menção à “Meninos e Meninas” que a gente pode ter quase certeza absoluta que não aconteceu). A reconciliação com Ana e “Ainda É Cedo”. E é claro, a atuação de Nicolau Villa-Lobos, na pele do próprio pai, quando a Legião Urbana buscava um homem para a guitarra. Além de a semelhança entre os dois ser tão explicável quanto genética, o carinha tem talento. E o guitarra que ia ficar uma semana na banda porque tinha uma viagem para a França ajudou a história musical do nosso país a ganhar um marco inigualável.

O filme tem seus altos e baixos, mas é uma homenagem e como tal, tem falhas e pontos memoráveis. Fãs de carteirinha podem amar e odiar a representação de Renato das telonas, novos fãs podem ter impressões positivas e negativas. Vale a pena ver mas, se um conselho puder ser dado, é este: leia sobre Renato. Ouça suas músicas, desde o primeiro álbum até suas aventuras solo, quando a AIDS já definhava sua voz e corrompia sua mente. Renato Manfredini Jr. tem muito mais a oferecer ao mundo do que os poucos e não tão bem aproveitados minutos deste filme.

Tributo à Legião Urbana emociona do começo ao fim

Texto publicado originalmente no site Tenho Mais Discos Que Amigos
Duas Legiões diferentes, uma no palco e outra na plateia. Essa talvez seja uma definição simples demais para o show de ontem à noite, um tributo à Legião Urbana em que o ator (e legionário fanático) Wagner Moura assumiu os vocais para tocar as músicas mais queridas, as mais clássicas e as mais raras que Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos e Renato Russofizeram correr todo um país, influenciando gerações. A escolha do ator para encarar essa tarefa não podia ser mais correta.

Na plateia, uma mistura de fãs que estavam ali para matar as saudades de Dado e de Bonfá mais que puderam ver Renato nos palcos antes de sua morte em 1996 com aqueles que só conheceram a banda depois da morte do cantor. E era essa a plateia que gritava “uh, é Legião, uh, é Legião!” à plenos pulmões quando Dado, Bonfá e Wagner subiram ao palco às 22h07 de ontem para fazer o Espaço das Américas ir abaixo tocando “Tempo Perdido”.

Daí para frente era só emoção, com um coro de 7 mil pessoas cantando junto todas as músicas. Se por um lado havia um Wagner Moura tão emocionado quanto cada fã que estava ali na plateia e que fazia questão absoluta de mostrar isso, dizendo coisas como “Essa é talvez a noite mais importante de toda a minha vida” e “Estar aqui em cima desse palco é incrível”, por outro, Dado e Bonfá se seguravam como podiam para tocar e cantar, tanto os sucessos que faziam parte do repertório da Legião nos shows quanto músicas nunca tocadas ao vivo pela banda. Foi o caso de “A Via Láctea”, que Wagner apresentou como sendo “Uma mostra da coragem e da sinceridade de Renato Russo que estava presente em tudo o que ele fazia e que inspirou a todos nós” e “Esperando Por Mim”, ambas do A Tempestade, considerado um dos álbuns mais tristes da Legião Urbana, de uma época em que Renato Russo já estava muito impactado pela doença.

Em “Andrea Doria”, favorita do ator, a primeira participação especial entrou no palco: era Fernando Catatau, do Cidadão Instigado. Mas esse não seria o único momento com participações. Algumas músicas depois, Wagner chamou o baixista de apoio e disse que ele tinha convidado alguns amiguinhos: eram nada mais nada menos que a Orquestra Sinfônica Brasileira, que veio para acompanhá-los em “Monte Castelo”. Em seguida, Moura saiu do palco para um Bonfá elétrico cantar e tocar “O Teatro dos Vampiros” e para Dado convidar Clayton Martins para tocar gaita numa versão inusitada de “Geração Coca-Cola”. Para seguir com convidados especiais, Dado chamou ao palco “Um dos caras que me inspirou muito naquela época e talvez um dos responsáveis por eu estar nesse palco hoje”, o guitarrista Andy Gill da banda Gang of Four, e Bi Ribeiro, do Os Paralamas do Sucesso, padrinhos da Legião. Juntos, eles tocaram “Damage Goods”, do Gang, “Ainda é Cedo” e “Baader-Meinhof Blues”.

Wagner cantou bem, apresentou o repertório com simpatia e emoção e fazia declarações de amor ao Legião (deixando Dado e Bonfá encabulados em alguns momentos, tamanha era a paixão com que falava) e ao público sempre que podia. Em alguns momentos sua voz ficou um tanto embargada, em outros os microfones falharam, mas o público estava lá para cantar tudo junto e deixar essas pequenas falhas despercebidas.

Num primeiro “quase encerramento” do espetáculo, a banda tocou Perfeição para delírio de todos. Deram uma pausa e ao saírem do palco, viram um Espaço das Américas inteiro cantando “Será” e pedindo mais. Voltaram com “Teorema”, “Antes das Seis”, “Giz” e “Pais e Filhos”.  Se despediram do público, mas voltaram logo em seguida com um Wagner brincalhão dizendo que “faltou uma”para encerrar a apresentação com “Será”, agora sim com toda a banda. Mas se dependesse do público, aquele espetáculo duraria a noite inteira…


Set List

  1. Tempo Perdido
  2. Fábrica
  3. Daniel na Cova dos Leões
  4. Andrea Doria (com Fernando Catatau)
  5. Quase sem Querer
  6. Eu sei
  7. Quando o sol bater na Janela do seu Quarto
  8. A Via Láctea
  9. Esperando por Mim
  10. Índios
  11. Monte Castelo (com a Orquestra Sinfônica Brasileira)
  12. O Teatro dos Vampiros
  13. Geração Coca-Cola (com Clayton Martins)
  14. Damage Goods – Gang of Four (com Andy Gill e Bi Ribeiro)
  15. Ainda é Cedo (com Andy Gill e Bi Ribeiro)
  16. Baader-Meinhof Blues
  17. Sereníssima
  18. Se fiquei Esperando meu Amor Passar
  19. Há Tempos
  20. 195 (Duas Tribos)
  21. Perfeição
  22. Teorema
  23. Antes das Seis
  24. Giz
  25. Pais e Filhos
  26. Será

Os bons morrem antes

Hoje faz exatamente 15 anos que um dos maiores gênios da música brasileira se foi: Renato Manfredini Júnior, ou Renato Russo.

O cara foi um dos principais responsáveis pela revolução na nossa música nas décadas de 80 e de 90. Fez com sua Legião Urbana músicas que falam de forma muito atual de nossas vidas, do nosso dia a dia, da nossa cultura, política e televisão. Assim como ele, muitos bons nomes da música se foram antes do tempo: John Lennon, George Harrison, Cazuza, Michael Jackson, Janes Joplin, Kurt Cobain, Cássia Eller, Mamonas Assassinas, Hillel Slovak (ok, ok, o guitarrista do RHCP não é tão lembrado como todos os anteriores, mas o cara era muito bom guys!), Jimi Hendrix, Jim Morrison, Amy Winehouse… tanta gente boa que se foi sem um por quê…

Para não terminar esse post “tão down”, deixa eu compartilhar a mais que merecida homenagem ao líder da eterna Geração Coca-Cola!

A verdadeira Legião Urbana somos nós!

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O Filho da Revolução ainda canta a geração que nunca deixou de ser Coca-Cola

Não tem jeito. Ao deixar com que os olhos entrem em contato com as primeiras páginas do livro Renato Russo – O Filho da Revolução a única coisa que você vai querer fazer antes de terminar o livro é colocar todos os CDs da Legião Urbana pra tocar no seu CDPlayer, MP3 ou rádio. Tudo isso porque a biografia, autorizada pela família Manfredini e escrita no período de 1999 a 2008 por Carlos Marcelo, é um retrato fiel da vida e da obra do poeta Renato Manfredini Jr.,o eterno Renato Russo.

Nas 416 páginas do livro, devoradas até se esgotarem, Carlos Marcelo retrata o nascimento, infância, adolescência e fase adulta do ídolo rock e apura detalhes de suas primeiras composições, a história de várias canções, o surgimento do movimento rock na capital de cimento, as primeiras composições, como Renato começou a gostar de música e o que aconteceu até a formação da primeira banda, o Aborto Elétrico, o nascimento e crescimento da turma da Colina, os punks de Brasília, as amizades, os relacionamentos, o burburinho do apartamento 202 do bloco B da SQS 303, sempre cheio de amigos e de filosofia, de música  e de vontade de mudar o mundo. Tudo isso junto a história do jovem Renato Manfredini Jr., fã de Beatles e de Sex Pistols, professor de inglês da Cultura Inglesa que dominava o idioma como poucos, jornalista formado na Ceub  e Trovador Solitário, além de jovem, como todos os outros jovens, que queria que seu país mudasse, que a revolução acontecesse e que a vida fosse melhor pra todos.

Fã de Renato e da Legião Urbana desde 1985, quando a caminho do colégio escutava uma fita-cassete com as primeiras músicas da Legião Urbana, o autor finaliza o livro de forma tão emocionante quanto o inicia, resgatando Renato e Legião em 1988, depois e antes do show-tragédia que marcou o não-retorno da Legião Urbana à cidade que os fez nascer e a maneira inconsequente do povo de Brasília de tratar seu maior ídolo.Carlos Marcelo entrevistou mais de cem pessoas entre amigos, familiares, fãs e até o próprio Renato (bem antes de a obra passar pela cabeça do autor) para compor com o máximo de fidelidade possível a história do carioca que mudaria a história do rock nacional em Brasília, a capital do Brasil.

Amanhã é Dia Mundial do Rock. E para conhecer o rock nacional, o rock mundial e o que moveu a nossa geração coca-cola, a leitura de Renato Russo – o filho da revolução é senão obrigatória, indispensável. A geração, que ainda não deixou de ser Coca-Cola, precisa conhecer a história do poeta que tentou deixar de celebrar a hipocrisia, a afetação e a indiferença desse país que ainda cabe na sua gritante pergunta, até hoje sem resposta. Que país é esse?

Renato Russo – o filho da revolução
Autor:
Carlos Marcelo
Editora: Agir
Ano: 2009
Páginas: 416
Site: www.renatorussoolivro.com.br
Nota: 10,0