Feliz dia das mães… é todo dia!

– Rakky…

– Oi…

– Você vai amanhã no cemitério ver a mãe?

– Não.

– Ah tá.

Foi com esse diálogo curto que eu tive certeza absoluta de como seria o dia das mães (amanhã) aqui em casa. Não que eu já não soubesse como seriam as coisas, mas isso me fez ter um tanto mais de certeza.

Não. Eu não vou ao cemitério ver a cova onde minha mãe foi enterrada. Eu não vou lá lhe deixar flores, nem lhe desejar “Feliz Dia das Mães”, nem passar um ‘tempinho’ ‘com ela’. Não vou me impor esse sofrimento. Acho absurdo e idiota se propor a fazer algo que vai lhe fazer mal, vai lhe fazer chorar, vai ser ruim pra você. Eu não preciso ir até o espaço de terra em que os ossos da minha mãe descansam para saber que ela está morta. Eu não preciso ver o lugar em que seu corpo repousa pra sentir isso, pois eu sinto todos os dias. Eu não preciso disso. Porque tudo o que está ali não vale nada pra mim. Nem um pouquinho.

O que está enterrado no cemitério do Morro Grande em Caieiras é o corpo morto da minha mãe. Sua carne que é destruída pelos vermes a cada dia e seus ossos, que durarão mais, porém, algum dia também perecerão. Isso não me importa. O que importa pra mim é o sorriso da minha mãe, que nunca mais vai me sair da cabeça. O que importa pra mim são todos os segredos que ela me contou, e todos os que ouviu. O que importa é a paciência que ela sempre teve comigo e que eu tentei ter com ela… o que me importa é a segurança que aquele olhar firme sempre me passava, a esperança que descansava no seu rosto, a nossa cumplicidade e semelhança em tantas coisas que são quase todas, a fé que nunca a abandonou. O que me importa são todos os momentos que vivemos juntas, as alegrias, as tristezas, a dor que ela sentia de verdade quando me  via chorar. Os conselhos que me dava, a tranquilidade que transmitia, a vontade de vencer, a luta, a maneira tão estranha e única de rir da vida e de não se preocupar com o amanhã, porque Deus não dá o fardo maior do que o que a gente pode carregar. O que me importa são todos os cuidados que ela teve comigo, desde a gestação até sempre, dizendo que eu estava linda, pedindo pra eu não usar o esmalte mais escuro que era pecado, cuidando pra que eu não machucasse os olhos quando passava lápis e rímel, preocupada com o arranhão que fiz no braço e nem eu soube como foi. O que me importa é o carinho que ela sempre teve com os meus amigos, até com aqueles que ela achava mais estranhos. O que me importa é tudo isso junto e mais um milhão de coisas que ela foi, é, e sempre será. E tudo isso que me importa não está nos ossos dela, nem enterrado no cemitério. Tudo isso está na alma dela, viva em mim, por todos os dias da minha vida. O que me importa não morreu e não vai morrer nunca. O resto são restos.

Não digo que eu nunca vou visitar os restos mortais da minha mãe. Não sei o que será amanhã, e nem com isso me importo tanto. Só digo que tudo o que ela foi está tão vivo em mim que é como se ela não estivesse ido, e isso é bom.

Esse é o meu primeiro Dia das Mães sem mãe. Caso você ainda tenha a sua, cuide dela, não só no dia que é dedicado a ela no calendário, mas durante todos os dias, com o mesmo amor e com o mesmo carinho de sempre e de nunca. Ame sua mãe como se fosse o último dia, abrace-a como se fosse o último abraço e diga a ela de todo o seu amor, sempre que puder. Ah, possa sempre também. É bom, é lindo, é positivo.

Vento no Litoral

Hoje, no ônibus de volta para casa, me deparei com duas lembranças:a primeira, o lindo devaneio da querida amiga Maristela Lira, na sua forma de me dizer para ter força usando as melhores palavras; a outra, uma das músicas da banda favorita do Gustavo, Vento no Litoral, da Legião Urbana. Juntando as duas coisas, comecei a pensar na letra da música e dar a ela um significado nunca antes observado. Vejamos:

De tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda esta forte
E vai ser bom subir nas pedras

Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora…

Agora está tão longe
ver a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntas
Na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?

Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo
O tempo todo
E quando vejo o mar
Existe algo que diz
Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem…

Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim

Quero ser feliz ao menos,
Lembra que o plano
Era ficarmos bem…

Olha só o que eu achei
Cavalos-marinhos…

Sei que faço isso
Pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora…

Eu tenho mesmo feito várias coisas para esquecer mas, eu tinha tantos planos pra nós duas…

D. Marlene foi para o céu

A luta foi o dom da sua vida.

A esperança, a palavra mestra.

A fé sua guia, sua base, sua força.

Seu nome: Marlene. Nasceu em Pernambuco, em São José do Egito no dia 26/7/1950, uma terça-feira de sol. Órfã de pai aos 2 anos de idade, foi criada por seu irmão Pedro, um anjo, como ela mesma dizia. Caçula de uma família grande, sempre quis estudar, mas às vezes não dava pra completar o ano, pra ajudar na colheita do algodão. Aos 12 anos, lavava roupa pra fora para ajudar a mãe Joaquina, estudava o que podia e tomava destaque entre os alunos da turma, rezava novenas com as meninas da igreja. Na adolescência e juventude, gostava de ir ao Bambuzinho, dançar o “Kiss Me Quick” de Elvis Presley, terminava namoros quando sentia que os meninos iam terminar e não se prendia a homem nenhum. Estudou à luz de candeeiro para passar no vestibular e queria ser bancária. Passou, mas o “Quem Indica” funcionava tão bem na Universidade de Recife naquela época que ela não conseguiu entrar. A carreira de bancária já saia de seu coração quando tentou de novo, financiou, passou no vestibular e fez a faculdade de Ciências, para ser professora. Dois anos depois, ia para Biológicas, mas a primeira prova prática era operar um sapo e ela com nojo foi a única de sua turma à cursar Matemática, depois do curso de Ciências. Estudava de manhã e dava aulas à tarde e à noite, morava fora, mas com toda a correria ainda tinha tempo para cozinhar para Carminha e Leci, suas duas colegas de quarto, ajudar na casa da mãe, para quem comprou as cadeiras de balanço que tanto queria, e ajudar a irmã Terezinha a cuidar dos filhos. Quando a mamãe Joaquinha morreu, ela terminou a faculdade e se casou, para fugir das lembranças. Veio tentar a vida em São Paulo com o marido, sofreu todas as dores do primeiro parto e teve seu filho mais velho, que batizou de Joselton e de Marlus porque tinha que ter a marca de Marlene. Lutou contra a ignorância de um marido que não havia recebido amor em casa, lutou para trabalhar na terra grande longe da família, lutou contra as implicâncias de uma sogra que queria seus filhos sempre às suas ordens e teve sua segunda filha, uma menininha, e ela novamente teve que lutar para que sua vontade fosse feita e a menina não tivesse o nome da sogra. Nascia Raquelline Marlusy, pele clarinha, olhos e cabelos da mamãe. O marido tinha uma vida boa na CMTC, supria a casa de tudo o que pudesse faltar, ela dava aulas no Olavo Bilac e fazia os mimos que queria à seus bebês. Um terceiro parto estava por vir, mas ela não sabia. Nasceu de 7 meses o filho Marcius Cosme, sempre com o “mar” de Marlene, mas morreu ao 7º dia, frágil e pequeno. Ela não queria mais ter filhos, mas 3 anos depois viria a loirinha Katelline Mariluzi, a que mais lembrava os seus familiares, e ela não teve mais filhos.

Quando o marido perdeu o emprego mais firme que já teve, a família se mudou para Caieiras e ali viveu. Ela continuava trabalhando no tradicional colégio da R. Doze de Outubro, o marido pulando de empresa em empresa, os filhos crescendo. Por mais difíceis que fossem os dias, ela tinha tempo para cantar, chegava tarde em casa, depois da meia-noite, mas aproveitava os intervalos dos lanches dos alunos para ir à famosa rua das quinquilharias e das roupas para comprar presentinhos e doces para os filhos. Sempre que recebia, chegava em casa com mil novidades em número igual para as três crianças. Gostava de brincar de fazê-los descobrir sabores, e dizia “Abra a boca e feche os olhos” para fazê-los provar os doces com que os mimava.

Até que em 97, outra grande prova de sua força. Marlene sentia dificuldades para enxergar e descobriu que tinha catarata nos olhinhos. Ficou quase cega, fez cirurgia, colocou lente fixa, passou uns dias em casa, se recuperou. Voltou para dar aulas, mas a tradicional Olavo Bilac havia falido. Depois ela descobriu que não conseguiria mais lecionar, pois não podia fazer muito esforço com os olhos, que começavam a doer e a lacrimejar. Sua profissão, seu sonho mais bonito, sua forma de manter sua família e seus filhos, tudo aquilo tinha acabado. Ela se voltou para a igreja, começou a participar em 26/7/1998, dia de seu aniversário, de uma catequese para adultos, o caminho Neocatecumenal. Dizia que tinha que se apoiar em Deus porque todas as coisas da terra passam, mas as coisas de Deus não passam. Viu seus filhos crescerem, sempre cuidando deles como podia, viu cada um deles seguir seu caminho, fez amigos, fez passeios, fez viagens, tinha tempo para aconselhar cada um dos seus, ficou amiga dos amigos de seus filhos, virou mãe de todo mundo e se ofendia profundamente com as implicâncias do marido.

Quando seu filho mais velho não passou no vestibular, ela disse “Você vai passar ano que vem”. Quando sua filha do meio começou a ouvir rock, ela disse “Essa é das minhas!”. Quando a filha mais nova começou a ouvir também, ela felicitou “Sendo filhas de Marlene, elas tinham que gostar de rock. Eu também sou rockeira!”. Ela gostava do Elvis, gostava das versões brasileiras para o rock dos anos 60, gostava de Raul. Mas também amava Fagner, Sérgio Reis e a cigana Sandra Rosa Madalena de Sidney Magal. Participou da Pastoral da Família e criou uma outra família para si. Os amigos da turma gostavam de vir à sua casa fazer churrascos e todas as festas do grupo tinham a cara da “Casa-chácara da Marlene”. Quando o grupo se desfez e o casal de coordenadores foi morar em Pirituba, os almoços e festinhas continuavam. Ora com, ora sem Karaokê, era sempre a casa da Marlene, ou a casa do Celso. Em qualquer lugar ela era sempre alegria. As doenças começaram a chegar. Dores nas costas e nas pernas, varizes. Em 2006 a filha do meio passou no vestibular, ganhou bolsa do ProUni. Ela sentia tanto orgulho da filha. “Essa gosta de estudar, essa é das minhas”. A mais nova era cada vez mais vaidosa, começou finalmente a ouvir os conselhos de toda a família e se interessar por uma possível carreira de modelo. Ela dizia: “Tem que cuidar mesmo. Tem que ser bonita, é minha filha, é bonita”. Ela passava muito tempo em casa e cuidava das coisas ali. Nunca gostou de gastar, de comprar, de ir à shoppings. Gostava de casa, de parques, de campos. Suas cores favoritas eram o verde da esperança e o branco da paz, até por isso é que ela era Palmeirense, só pra dizer que torcia por algum time. Viagem para Pernambuco, para rever a família. Ela, o marido e a filha mais nova foram de avião, e ela que dizia que teria medo nem sequer pensou nisso durante o vôo. Voltou para casa cheia de fotos, sorrisos, saudades e novidades.

Pressão alta e auxílio doença. A felicidade de estar viva, de ver seus filhos crescendo e de ser religiosa, de cuidar das coisas de Deus, a faziam viver bem. Por mais dores que sentisse, por mais difíceis que fossem seus dias, ela sempre estava feliz. Porque tinha filhos maravilhosos, porque tinha uma comunidade que sempre olhava por ela, porque tinha Deus no seu coração. Os cuidados com a casa, com os filhos, a insônia que só lhe deixava em paz quando tarde da noite a filha do meio chegava da faculdade, o filho mais velho do trabalho e a filha mais nova da escola.

2010. A filha do meio terminando a faculdade e estagiando num lugar maravilhoso, a mais nova correndo com a carreira de modelo e promotora de eventos e o mais velho trabalhando com o que ele queria fazer, apesar de tudo. Ela ficou doente. Teve uma pneumonia. Teve infecção na urina. O marido quis realizar a comemoração aos 25 anos de casados e ela teve forças para tudo. Quando começou a melhorar, começou também a ter dificuldades de locomoção. O primeiro diagnóstico era hérnia de disco, uma delas, que ela já sabia que tinha, havia inflamado. Ela foi perdendo a força nos pés e nas mãos, depois nas pernas e braços. Foi internada. Teve melhoras e pioras. Os médicos disseram que poderia ser mielite. Estava feliz, animada, queria melhorar e sair do hospital para ser feliz com a família bonita que tinha e os agregados amigos e genros. Teve uma pequena melhora, conseguia se mexer com ajuda da fisioterapeuta. O diagnóstico final era polineurotraumatismo. Começou a piorar, não conseguia mastigar ou engolir nada, foi para a UTI. Descobriram uma úlcera no estômago dela e ela fez cirurgia. Não conseguia falar por causa dos tubos, mas dava sinais aos seus. Melhorou bem, tirou os tubos, fazia sinais com os olhos e com o pescoço.

Até que na última quarta-feira, 7/4, ela piorou muito. Teve dificuldades para respirar, voltou para os tubos, teve uma parada cardiorrespiratória. Os médicos não conseguiram reanimá-la. Às 20h, ela se foi.

Meu anjo, meu amor, minha luz, minha mãe foi pra o céu. Por toda a sua vida, por toda a sua luta e por toda a sua força ela sempre foi e sempre será minha guia. Levo comigo seus traços, seu rosto, seu amor no coração.

Fique em paz mamãe!