Um filme impróprio pra qualquer idade

“Eu sei que essa vida contém / cenas de perplexidade / esse filme, pensando bem / é impróprio pra qualquer idade”

Faz um tempo que me pergunto o que o poeta quis dizer quando escreveu isso e a cada vez que tento encontro uma nova resposta, diferente da anterior. Da última vez que fiz uma análise a respeito, cheguei à conclusão de que realmente não é nada fácil viver. Você tem que fazer escolhas, tomar decisões, pensar, repensar, falar, convencer, trabalhar, estudar, ser responsável… cada atividade traz consigo seus benefícios e malefícios e escolher entre uma coisa e outra dá um trabalho danado…

O filme impróprio pra qualquer idade é isso. Nós nunca vamos estar completamente preparados para aquilo que a vida nos reservou enquanto não passarmos por aquela situação. É apenas no contexto que definimos, da melhor ou da pior forma, o caminho que vamos seguir. E as consequências que esse caminho nos proporcionará também chegam depois dessa decisão, que não foi pensada pois não era conhecida. Ou seja: a vida é injusta, amigos. Mais é bonita.

Atenção: se você não sabe de que poeta eu estou falando no começo desse texto, por favor, clique aqui.

Como a miséria nos vê?

Dia desses estava lendo um texto do Jabor em que ele lançava essa pergunta no ar. Fiquei pensando por um tempo, mas vi uma cena que me deu algumas certezas.

Vi três meninos num ponto de ônibus na região da Barra Funda. O mais velho deles devia ter seus doze anos. Os três estavam fumando cigarro e esperando um ônibus qualquer para pegar “carona” e ir pra qualquer lugar. Brincavam de decidir qual dos três ia primeiro. Dois ônibus passaram e dois garotos entraram num enquanto o terceiro foi para o outro. Apagaram os cigarros na porta do “busão” e enfiaram o toco restante no bolso. Mas os dois garotos decidiram não ir naquele e desceram enquanto o terceiro ia embora no carro da frente. Um deles, procurava no chão a brasa para voltar a acender o cigarrinho. 

Eu vi aquilo com choque e indignação. Como pode uma mãe deixar um filho tão à deriva? Como pode um pai não se importar? Como pode uma criança como aquela existir? Depois desses pensamentos, lembrei do Jabor e da sua pergunta. E pensei que minhas referências para família, responsabilidade de pais e mães e criação de filhos é bem diferente da realidade daquelas três crianças, e de suas mães. Pensei que talvez a mãe deles tenha nascido sem esperança, embaixo da ponte, comendo quando tinha o que comer. Que essa menina pode não ter conhecido seu pai porque ele foi só alguém com quem a mãe dividiu um cobertor num dia gelado embaixo do Minhocão e deu o azar de engravidar. Que talvez ela tenha sido criada por ninguém, abandonada para pedir esmola na rua. Que talvez já tenha comido do lixo. Que teve um ou mais filhos na mesma condição miserável que sua mãe, na rua, sozinha, suja, sem futuro. E que aquele mundo talvez seja o mais normal para aquelas três crianças com seus cigarros na mão, se divertindo em procurar a brasa recém caída do cigarro enquanto esperam algum motorista ter um pouco de piedade e parar o próximo ônibus, sem medo de ser assaltado por aqueles pequenos que, podem ainda não ser, mas provavelmente serão marginais.

Cheguei a conclusão que nós vemos a miséria com a mira errada. Julgamos o homem de rua como um vagabundo que prefere pedir esmolas a trabalhar. Julgamos a mãe das crianças, dizemos que é irresponsável. Julgamos o preso que acabou de cumprir sua pena como um bandido que não merece perdão, porque matou dois cidadãos de bem durante um assalto. Mas o que é que se pode esperar para o futuro daqueles três meninos do ponto de ônibus que seja diferente dessa realidade?

Eles nasceram nesse “estado social” e muito dificilmente vão sair dele. Aqueles meninos não olhavam pra mim, mas talvez me vissem como alguém que ganha dinheiro de um jeito que eles nunca vão conseguir, porque ninguém vai lhes dar uma oportunidade. Talvez o ladrão que “bateu” sua carteira ou seu celular no último carnaval também te veja assim. Afinal “você tem um emprego, vai trabalhar mais uns dias e recuperar aquela grana”. Ele não. Ele vai ter que continuar roubando para comer, roubando para vestir, roubando para sustentar o seu vício em drogas ou em bebidas, que talvez sejam suas únicas saídas para essa realidade brutal que lhe bate à porta todo dia. Até que um dia a polícia vai pegá-lo, prendê-lo, ele vai apanhar muito na cadeia e talvez saia vivo de lá, talvez não. Que perspectiva de futuro têm aqueles meninos? Como cobrar deles uma consciência diferente, se ninguém lhes dá uma chance?

Também não estou dizendo que devemos ter a piedade como nossa mira e perdoar o bandido que matou seu irmão mais novo numa saidinha de banco. Só que o nosso jeito de ver o mundo não pode ser comparado com o jeito deles de ver o mundo… afinal não dá pra cobrar consciência de alguém que não teve quem lhe desse qualquer exemplo do que é isso.

Das obrigações morais dessa vida

Dia desses um amigo meu me disse que uma das coisas que ele mais admira em mim é a minha forma de encarar tudo de um jeito positivo. Fiquei feliz com o elogio. Mas depois pensei melhor: eu tenho obrigação de pensar assim, afinal, houve uma época da minha vida em que se eu não fizesse isso eu com certeza já teria morrido.

Não é uma questão de dizer “poats, como a Rakky é madura, responsável, fodelona” e coisa e tal, mas foi uma obrigação moral que a vida me deu. Assim como muitas pessoas têm, inconscientemente, a responsabilidade moral de ser irresponsável, porque a vida não lhe deu escolha, ou de ser maniacamente organizado, porque a vida não lhe deu escolha, ou de ser extremamente positivista, porque é sempre bom, ou de ser reflexivo, de demorar para tomar uma decisão, de ser grosseiro, de ser bagunceiro, de ser estúpido.

Acredito que cada pessoa nasce sob um molde, que vai se aperfeiçoando durante a vida, de acordo com as experiências que tem, de acordo com a vida que leva, de acordo com as coisas que escolhe fazer ou que lhe são impostas. O meu molde começou a ser talhado quando eu era pequena, se tornou uma escultura um pouco torta na minha adolescência e agora está se transformando numa estátua de madeira, que eu acho que será bem bonita. Porque eu não tenho escolha, já está tudo dito, já está tudo lá. Algumas das experiências mais estranhas, talvez mais tristes, ou mais intensas que uma pessoa pode viver na vida, eu já vivi. E foi a minha forma de encará-las que me fez ser quem sou hoje: a Rakky que consegue ver tudo do jeito positivo.

Mas o que seria de mim se eu fizesse exatamente o oposto?

do futuro

“Tudo o que você sonha será diferente quando você olhar pra trás daqui a 10 anos. Sua vida será completamente diferente e você achará o seu passado vergonhoso”

Não será assim. Sei que se me perguntassem no distante 2001 se eu sonhava ser jornalista, se eu gostaria de trabalhar em um banco, se eu abriria mão de estudar na USP para estudar em qualquer outra universidade ou se eu me imaginava de cabelo curto, eu diria que isso jamais aconteceria. Mas o mundo mudou, coisas aconteceram, tempos passaram e hoje tudo o acima é verdadeiro, faz parte de mim e não vai mudar. Mas em 2011 eu só tinha 13 anos, era uma adolescente sem noção e bastante idiota.

Então como garantir que aos 33 não vou achar a jovem que hoje vos fala uma completa imbecil? Fácil: aos 13 anos eu já gostava de dizer que ia morar em São Paulo, sozinha e independente, já gostava de Skank, já adorava escrever e já sabia que queria um futuro bacanudo para o meu ser, porque no fim das contas eu (e todo mundo) merece ser feliz né cambada? Então! Em 2021 eu vou continuar sendo tão Skankarada quanto hoje, vou continuar amando ser jornalista e vou sim ter muitas das certezas que tenho hoje, senão quase todas. Porque eu acho que a gente tem que acreditar em si mesmo antes de acreditar em qualquer outra coisa.

Conversas de elevador

(correndo até o elevador enquanto um desconhecido segura  a porta)

– Opa! Valeu aí por segurar a porta!

– Não tem de quê!

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– Oi! (segundos depois o elevador chega no seu andar)

– Tchau, boa noite!

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– Boa noite!

– Boa noite!

– Nossa, tá demorando pra chegar o elevador né?

– Pois é!

(segundos mais tarde!)

– Chegou!

– Obrigada!

– Pra que andar você vai?

– Pro sexto!

– Eu também!

– Que legal, somos vizinhos!

(o elevador chega)

– Tchau, até mais!

– Até!

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E quem nunca passou por esse momento constrangedor em que você reconhece que não sabe quem mora a seu redor?

Dias vazios


Ah, quem me dera se hoje fosse um daqueles dias maravilhosos
Em que os jornais vêm cheios de poesia
Como desejou Mário Quintana naquele poema bonito

Esses dias em que as horas passam pesadas
As vidas passam amassadas
Os instantes são desinteressantes
E os segundos demoram a passar

Vazio
Vazio como a noite, sem estrelas
Vazio como a lua cega

Não há o lábio do amigo, cheio de encantos
Nem a palavra doce da alegria
Não há exatidão
Não há simetria

Que graça há em observar a graça das nuvens?

Desisto.

Minhas malas estão prontas sim!

Vou-me embora. Este dia já passou da hora de acabar.

Sobre putas e comportamentos estranhos…

Conversar com colegas de trabalho às vezes é lindo.

Sexta a tarde, relatório no final e uma conversa em grupo.

Quem entende os homens?

Quem entende as mulheres?

Quem entende as putas?

E quem é que se entende não é mesmo?

Enfim… meu momento filosófico permanece.

Àqueles capazes de se ‘auto entenderem’ merecem um Oscar. Eu acredito que há momentos de total entendimento e total questionamento. É um mix filosófico a nossa vida. Há dias em que você se olha no espelho com a total certeza de que não há ninguém no mundo mais perfeito que você, com seu caráter, seu jeito, sua personalidade, seus sinais… mas também há dias em que um estranho parece ser o seu reflexo, dias estes em que aquela nova espinha no rosto só te faz pensar que não há qualquer sinal de que seu corpo realmente vá com a sua cara… e isso é absurdamente normal… eu acho.

Mas voltando às putas… algumas perguntas permanecem:

– O que é que leva um homem a buscar em uma mulher qualquer o chamado “prazer”? Nossa… será que existe coisa mais bacana nesse mundo do que dividir um momento íntimo e único com aquela que se ama? Será que é possível que o “prazer da carne” seja tão urgente que deixe de lado sentimentos, histórias e emoções? Tá, eu pareço patética não? Tudo bem, sou medianamente patética nesse ponto. Não disse que eram perguntas que permanecem? Então, tem mais algumas…

– O que é que leva uma mulher a “vender” seu corpo? Que tipo de cidadã se entrega a desconhecidos, roubando seu próprio direito ao prazer, ao sentir, ao viver? Tudo bem, tem casos e casos e eu não condeno, afinal, que tipo de pessoa eu seria se condenasse ações para as quais eu não conheço a causa? Não é uma condenação, é um questionamento. Há garotas que são obrigadas a usar seu corpo para conseguir alimento, usar seu corpo para ajudar a família, para pagar a faculdade, para qualquer coisa… há algo mais deprimente do que esta “falta de respeito” a si próprio? Já disse, não é uma condenação, há razões e razões…

Inegável é que tem gente que gosta… de ambos os lados, caso contrário, a prostituição não seria uma “profissão” hoje em dia, seria?

Mas isso me remete à banalização do sentimento. No meio dessa conversa nobre de sexta à tarde, uma frase também nobre foi dita: “Não beijamos putas… o beijo é algo sublime demais para uma puta… elas não merecem isso”.

Volto a perguntar: Se não há qualquer importância em uma puta, porque pagá-las por algo que você teria com muito mais intensidade junto a alguém por quem existe um sentimento? Por que pagar por algo vazio e sem ‘merecimento’? Ah meu Deus, depois dizem que as mulheres é que são complicadas…

E quanto ao beijo… peralá… não tem gente que sai por aí “pegando” uns e outros na balada? Nossa, se tem algo que me deixa revoltada é quando escuto conversas do tipo:

Amiga A: Aí menina… você não sabe o que eu fiz na balada, meu!
Amiga B: Contaê!
Amiga A: Beijei uns 10 gatinhos! Cada um mais lindo que o outro!
Amiga B: Só dez?
A última que eu fui beijei uns vários… perdi a conta!

Banalização total! Se o beijo é algo sublime demais para uma puta, porque não o é pra alguém que você acaba de conhecer, e possivelmente nunca mais vai ver na vida? Porque é que não se pode dar um beijo na boca de uma puta, que você pagou, que você sabe exatamente bem o que faz e o porquê de estar ali e se pode beijar sim uma menininha que você conheceu na balada, nunca viu, não sabe o que faz ali, não sabe de onde vem e não quer saber? Talvez aquela menininha da balada ainda lhe dê uma noite daquelas dos “prazeres da carne” que você paga a uma puta, mas “de graça”. Ainda assim, do mesmo jeito, você não vai ligar pra ela no dia seguinte.

Possivelmente, ela ficou com outros caras naquela festa, e talvez até volte pra lá, depois de te deixar. Como você não a conhece, pode até ser que ela também seja uma puta, e que possivelmente foi com a sua cara. Possivelmente também, se apaixonou pelos seus olhos e não pensou em mais nada, mas acordará com “a cama vazia” e terá de viver com a lembrança daquela “noite” até o próximo fim de semana, quando se apaixonará por outros olhos e tudo acontece de novo. Ou, quem sabe, lhe cobre, tal como a puta, na próxima vez em que se encontrarem… tudo é possível, afinal, você não sabe quem ela é, não é mesmo?

Ah… tantas coisas que minha cabeça não assimila…

Perguntas e mais perguntas:

– Tem coisa mais gostosa nessa vida que se sentir envolto no abraço da pessoa amada?

– Tem algo mais lindo nessa vida que aquele beijo que lhe faz arder as faces, ou o toque daquela barba mal feita no rosto?

– Tem alguma coisa nesse mundo que substitua a sensação sublime de sentir algo que seja plenamente correspondido por outra pessoa?

Talvez eu seja uma mulherzinha incompreensível e você está cansado (a) de ler meus devaneios…

Mas antes de acabar, tem uma música que meio complementa essa linha de raciocínio. É a história de um casal, que se conhece numa balada e vive uma “noite”. Talvez essa seja a forma mais simples de amar, aquela em que se sente por momentos, para em seguida se estar só. Mas se tem gente que prefere a solidão, também tem gente que prefere o Formato Mínimo.


Composição: Samuel Rosa – Rodrigo F. Leão

Começou de
estava mesmo ótima
Ela procurava um príncipe
Ele procurava a próxima

Ele reparou nos óculos
Ela reparou nas vírgulas
Ele ofereceu-lhe um ácido
E ela achou aquilo o máximo

Os lábios se tocaram ásperos
Em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos
E ávidos, gozaram rápido

Ele procurava álibis
Ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico
E ela descansava lívida

O medo redigiu-se ínfimo
E ele percebeu a dádiva
Declarou-se dela, o súdito
Desenhou-se a história trágica

Ele, enfim, dormiu apático
Na noite segredosa e cálida
Ela despertou-se tímida
Feita do desejo, a vítima

Fugiu dali tão rápido
Caminhando passos tétricos

Amor em sua mente épico
Transformado em jogo cínico
Para ele, uma transa típica
O amor em seu formato mínimo
O corpo se expressando clínico
Da triste solidão, a rúbrica


Imagem: Desenho Noveau – Fábio Fernando