Espaços vazios

Tem um espaço vazio na mesa,
Na cômoda, no armário.
Um espaço vazio no sofá, no dia,
No horário.

Tem um espaço vazio na cama,
Uma toalha sobra no banheiro
É vazio na televisão, na demora
Um espaço em branco no espelho

Tem um espaço vazio no computador
No relógio, na fotografia
Também está vazia a espera
Pra chegar o fim do dia

Tem uma mensagem que não chega
Um e-mail sem disparo, uma voz que calou
Tem uma ausência de novidades
De rotina, do que restou

Um calor que não é mais
Não há mais frio na barriga
Não mais in corpore sano
Nem coisas que ninguém mais entendia

A música vazia toca no MP3
O filme vazio se exibe no cinema
O teatro é vazio de emoção
O caderno não tem mais poema

Os jogos também pararam
Pois os tabuleiros estão vazios
Os abraços, olhares, piadas
Desfazem sua forma no frio

Os planos estão vazios
De projetos, de nomes, de lugares
Os xingamentos gentis pararam
De chamar curiosos olhares

Todos os lugares estão sem nada
Só com o pó que ficou do que é antigo
O belo se foi. No lugar o amargo
Luta para encontrar abrigo

E nada inunda. Nem enche. Nem completa.
Todos os espaços vazios ficaram
Sem ordem direta ou indireta.

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Resenha – O genial Biu Doido

Biu Doido é uma personagem da cultura popular de São José do Egito. Não sei se dá para dizer apenas “personagem”, porque o cara existiu de fato, marcou a vida de muitos moradores e visitantes da cidade e rendeu até um livro. Mas, de qualquer forma, foi uma pessoa incomparável. Ele passava seis meses de sua vida arando a terra, cuidando de plantações, plantando e preparando a colheita e trabalhando muito. Porém, os outros seis meses do ano eram os que ele passava “doido”, andarilho das praças e ruas da cidade, almoçando e jantando de favor e, claro, deixando a marca de sua personalidade em cada uma das respostas geniais que dava às mais intrigantes perguntas que lhe faziam.

Para retratar a história desse “louco sem ter loucura”, Arlindo Lopes separou suas principais histórias e transformou em poesia, como bem sabe fazer. O resultado é uma coletânea de histórias muito engraçadas que conta mais que a história de Severino Cassiano (o Biu Doido), mas parte da história da centenária São José do Egito. Uma das aventuras de Biu:

Uma turma conversava

bem ao lado de um canteiro

E sem ninguém esperar

Biu levantou-se ligeiro

Então, depois de um “pedaço”

Sentiu-se que todo espaço

Foi tomado por mau-cheiro

Temendo pagar a culpa

Biu falou quase nervoso:

“Sou um homem educado

Prevenido e cuidadoso

Pra combater azedume

Eu bebo sempre perfume

Pra poder peidar cheiroso”

Essas e outras histórias, sempre em forma de verso, estão narradas nas 104 páginas que Arlindo Lopes dedicou à história desse homem que mudou a vida dos que o viam passar, sempre com as pernas cheias de fitas, pela Rua da Baixa e arredores. Uma boa leitura para quem gosta de poesia e valoriza a cultura nordestina do Brasil.

O Genial Biu Doido
Autor: 
Arlindo Lopes
Ano: 2009
Páginas: 104
Nota: 10

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A fantástica São José do Egito

O berço imortal da poesia foi o meu destino na minha primeira viagem de férias.

Entrada da cidade de São José do Egito

Como sabem alguns vocês, queridos leitores, minha mãe, D. Marlene, nasceu nessa cidadezinha do interior de Pernambuco, já pertinho da Paraíba. Resolvi passar minhas férias lá porque queria rever meus primos, reconhecer (no sentido de conhecer bem e de novo) meus tios e toda a família Leite, presente não só no sobrenome, mas nas minhas melhores lembranças.

O que vi foi uma grande cidade, com economia organizada, povo muito batalhador e simpático e muitas lembranças de um período que não vivi, mas do qual sou parte: a vida da mamãe. São José do Egito não é conhecida como a terra da poesia à toa. Por todos os lugares em que você anda, encontra poetas e poesia: seja no Sebo da cidade, na feira em uma conversinha informal, na livraria, nas praças, no nome das ruas, que relembra grandes nomes da cultura da região e nos grafites:

Mas o contato com a Família Leite foi o que eu mais achei legal de toda a viagem. São José do Egito é uma cidade muito familiar em que o valor da família não é desprezado e onde ter algum sobrenome é importante para que as pessoas saibam quem você é, de onde você vem e se é possível confiar em você. Viver isso é como voltar ao passado e ver como era bonito ter esse tipo de confiança e de respeito pelas pessoas.

Entre os artistas da cidade, conheci Arlindo Lopes, um poeta e professor nascido em São José que dá orgulho de ver: todas as obras do cara, de livros a cordéis, mencionam a cidade em que ele nasceu e se criou, falam de suas lendas urbanas, de suas personalidades, de suas praças, igrejas, monumentos históricos e estradas. Nunca conheci uma pessoa com tanto orgulho da terra de onde veio antes.

Por ele, por toda a minha família e por tantas outras pessoas geniais é que digo: São José do Egito é uma terra para se chamar de minha, que eu não quero deixar de visitar, sempre que possível for.

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Raro

Um alguém de singular beleza
de naturais gestos e de palavras de vigor
e que derrama surpresa
em cada prova concreta de sua existência e de seu valor

Alguém que demonstra em palavras
E no singelo movimento dos lábios
A beleza dos raros sábios
A sabedoria e a razão dos sentidos mais plenos

Um alguém que tem a vida manchada do seu próprio brilho
e que tem a liberdade de repetir palavras que sempre são ditas
e de dizer os mesmos versos em novas velhas palavras
inserindo nelas pinturas e versos em setim e em fitas

Um sol de meio-dia num verão tropical
De clareza e de sinceridade
De certeza e de fidelidade
De segurança e tranquilidade

Uma chuva de gotas mansas
De limpeza e de esperança
E que com a alegria de uma criança
Traz a certeza da bonança

Estranho e belo
Gentil e  prudente
Doce e inteligente
Simples e tranqüilo

Esse alguém é Raro!
É o que se pode chamar de amor
É a força, a segurança e o calor
E um pedaço gigante de vida
Que se desprende de meus braços
Em cada triste despedida
E que retorna nos sorrisos mais intensos
É esse amor o mais cálido e o mais violento
O mais suave e o mais singular
E o que eu levo para o resto dos meus dias

Essa é uma pequena homenagem a esse ser maravilhoso que tem dado mais valor à minha vida. Parabéns!