Resenha: Quebrando o Tabu – porque a luta contra as drogas não pôde ser vencida

Falar sobre drogas é complicado porque envolve uma série de sentimentos, de opiniões, de visões e principalmente de pessoas. As drogas sempre estiveram ai e, de uma forma ou de outra influenciaram o mundo em que vivemos. A descoberta do fumo e seu uso como planta medicinal mudou a vida de povos indígenas que mascavam suas folhas. O vinho, cuja origem remonta entre 6 e 5 mil anos a.C influenciou gerações e foi usado para celebrar vitórias de guerra. A folha de coca é usada a milhares de anos por povos nativos da nossa vasta America do Sul, tanto para seitas religiosas como para ampliar a produtividade do trabalho. É sob esse olhar que o documentário “Quebrando o Tabu” começa a prender o público.

O filme, idealizado por Fernando Groinsten Andrade, mostra o uso de drogas em diferentes momentos e contextos históricos e seu uso, nem sempre extremamente prejudicial a vida humana. Nesse contexto, insere a guerra contra as drogas, compromisso assumido pelos Estados Unidos há 40 anos e a forma como a ideia fracassou. As razões para o fracasso também são exibidas, com a apresentação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e participações de Paulo Coelho, os ex-presidentes dos Estados Unidos James Carter e Bill Clinton e outras personalidades, além do depoimento de viciados e ex-viciados, que falam sobre as drogas, suas opiniões sobre o tema e o tráfico de drogas em diversos países do mundo.

Um dos pontos que mais chama a atenção no documentário e a comparação com os danos causados entre uma droga e outra e como a criminalização da maconha leva os viciados, que na grande maioria das vezes apenas querem “experimentar” a novidade, a ser taxados de criminosos, ir para a cadeia e aí sim conhecer drogas realmente perigosas. O exemplo mais claro disso foi um depoimento do Dr. Dráuzio Varella sobre uma detenta de uma prisão feminina na qual atende. A presa lhe pedia alguma orientação para parar de usar heroína. O médico, até um pouco sem jeito, pedia para que ela evitasse contato, ao que ela respondeu ser impossível, já que sua colega de cela consumia, além de tantas outras detentas. A situação é das mais comuns, de acordo com o médico. O viciado é preso por porte de droga com quantidades mínimas de maconha (por exemplo) e na cadeia passa a ter contato com crack, cocaina, heroina e outras tantas mais perigosas.

O documentário ainda mostra como outros países estão tratando o tema e os exemplos de Portugal, Holanda, Suíça e outros no tratamento dos usuários de drogas como questão de saúde pública e não de polícia. Por esse e outros, o longa merece ser visto. Que comece o debate!

Título no Brasil: Quebrando o Tabu
Título Original: Quebrando o Tabu
Ano de Lançamento: 2011
Diretor: Fernando Grostein Andrade
Origem: Brasil
Categoria: Documentário
Classificação etária: 18 anos
Duração: 74 minutos
Nota: 10

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Os livro, a coisas e a cretinagem do MEC

Na última semana, ilustríssimos senhores do MEC distribuíram a quase 5 mil escolas de todo o país uma cartilha chamada “Por uma Vida Melhor”, parte da coleção “Viver, Aprender” do Ensino Fundamental, com conteúdo intrigante: um capítulo do livro menciona que, na variedade linguística popular, pode-se dizer “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. O texto continua: “Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar os livro?’. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico“. O MEC reforçou a exatidão do absurdo dizendo que a grafia está de acordo com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais).

Ok, galera. Isso quer dizer que os nossos parâmetros de grafia e linguagem podem, e agora está no papel, considerar erros de concordância como parte da nossa cultura? Já cansados de ser cobrados por uma educação de qualidade, agora o MEC quer deixar rolar, é isso? Agora os professores não podem mais reclamar do mau salário não é, já que sua função principal, ensinar direito, já não é mais válida? Os alunos não precisam mais fingir que aprendem, os professores não precisam mais ensinar direito, a escola não tem mais a sua função educativa, a linguagem falada e escrita não têm mais a menor importância, não são mais diferentes, não há mais porque.

Pergunto ao MEC: os PCNs vão valer na correção de provas como as do ENEM? A Fuvest vai poder considerar respostas com erros de ortografia e concordância em suas redações e provas? Agora escrever errado é certo, porque representa a linguagem falada brasileira? A quem vocês querem enganar com essa justificativa bizarra do “preconceito linguístico”?

Não gente, não! Isso tudo está muito errado! Precisamos sim preservar um padrão de comunicação escrita e verbal de qualidade, precisamos sim nos fazer entender, precisamos sim valorizar uma das mais difíceis línguas em todo o mundo, precisamos ter orgulho de falar português claro, de nos fazer entender. Afinal, de que valeu então a nossa também extremamente criticada reforma ortográfica, de 2008 (atenção, ano que vem já é obrigatório usar) se nossos amigos angolanos dificilmente conseguirão entender nossa linguagem falada “os mano pow e as mina pah!”? Vamos regularizar o “pow, tira o zóião da minha potranca ou tu morre!”? Vamos criar uma nova cartilha abrindo mão de anos e anos de estudo de milhares de letrados da nossa Academia Brasileira de Letras? Vamos orkutizar os dicionários, institucionalizar a americanização do idioma, considerar frases como “coraçãozinho, S2 S2” como complexas formas de expressão verbal? Vamos renegar Machado de Assis e Drummond de Andrade? Vamos dar títulos acadêmicos aos amigos da falecida Lacraia?

Desculpem queridos, se depender de mim e da minha meia dúzia de 3 ou 4 leitores fiéis, não vai colar. Fazemos questão de preservar o que de correto aprendemos e é pena que o MEC, que não pode mais ser referido com o respeito que a instituição mereceria, não pese tantas mudanças impensadas. Esse tipo de alteração pode impactar o futuro de nossas crianças. O que garantirá que esses portadores de nosso futuro saberão escrever lá na frente? Já há mais e mais analfabetos funcionais chegando ao nível superior e tantos outros que desistem de ler a placa do ônibus e perguntam à senhora do lado ou ao motorista que nem é mais possível confiar num futuro melhor. Cada vez mais temos um português humilhado, assassinado, ressurgido e novamente morto, machucado e torturado com piadinhas infames. Daqui a pouco vamos legalizar o assassinato por medo de fazer cidadãos sofrerem “preconceito jurídico”, como bem parodiou Clóvis Rossi, na Folha de hoje.

#MaisCorMenosPreconceito x #MenosCorMaisRock: existe mesmo um lado certo e um errado?

Abri o Twitter agora à noitinha e me deparei com um dos absurdos mais estranhos que a minha geração já produziu: as hastags #MaisCorMenosPreconceito e #MenosCorMaisRock brigando por espaço nos Trending Topics Brasil. Uma parte da turma tem entre seus 12 e 20 anos e quer que a outra turma pare de ser agressiva e respeite o que chamam de “Happy Rock” ou “Rock Colorido”. A turma do outro lado, mais experiente, entre 22 e 40 anos quer que “as crianças” parem de chamar de rock esse “lixo de música colorida” de Rock. Acho que ambas as tags são infantis e refletem um pouco da falta de reflexão das pessoas sobre o assunto em pauta “Música”. Mas eu me explico.

  • Queridos amigos coloridos: não é só o Restart e o Cine que sofrem preconceito no Brasil. Aliás, não é só no Rock, nem só na Música que isso acontece. As mulheres sofrem preconceito, os homens sofrem preconceito, os homossexuais, os negros, as virgens, as não virgens, prostitutas, aidéticos, empregados (as) domésticos, lixeiros, gerentes, superintendentes, atendentes de Call Center, negros, brancos, índios, ruivos, mulatos, mestiços, nerds, deficientes, gordinhos, magrinhos, enfim, toda classe de pessoas “diferentes do normal” sofrem algum tipo de preconceito, não só no Brasil como em todo o mundo. Será que a causa de vocês é assim tão especial e única para exigir esse tipo de “respeito” alheio, enquanto milhares de outros seres humanos continuam por aí a fora sofrendo diversos tipos de abusos? Quer dizer, não acho certo que haja qualquer tipo de preconceito, mas porque o fato de outra pessoa não gostar do mesmo tipo de música que você é mais importante, por exemplo, que as idas e vindas da nossa balança comercial? Que os problemas com corrupção, drogas e crimes diversos no nosso país? Será que você realmente precisa levantar bandeira para brigar simplesmente porque quer que outras pessoas aceitem o que você gosta / ouve? Será que não é possível para você lidar com o fato de que outras pessoas têm gostos diferentes do seu e não precisam concordar com você em tudo? Pense nisso!
  • Queridos amigos “rockers”: alguém aí já parou para pensar no que quer dizer a tag #MenosCorMaisRock? Pessoal, vamos lembrar a origem: Elvis Presley, quando ainda nem se sabia o que o rock´n´roll seria, dançava e cantava na TV, fazendo movimentos extravagantes com sua cintura (cortada das câmeras pelas emissoras) e vestia adereços exagerados que tinham muita COR. Chuck Berry também exagerava nas vestimentas, posando com blusas coloridas, jaquetas vermelhas / azuis ou mesmo estampadas. O que dizer então da psicodelia dos anos 60? E dos Beatles, que firmaram as estruturas do que hoje chamamos de “rock´n´roll”? Vocês esqueceram o Stg. Peppers mesmo? O Yellow Submarine também? E os hippies? E o Woodstock? E aqui no Brasil, a Jovem Guarda? E o movimento Tropicalista? O nosso Raul Seixas e a nossa Rita Lee? Todos os citados eram muito mais que cor, eram alma, conteúdo, sonho, esperança de um mundo melhor. E tudo isso foi esquecido só porque você quer ter razão em brigar com adolescentes, que estão descobrindo agora o sentido de suas vidas e que gostam de se exibir com suas calças jeans laranjas?  E aqui vale para vocês também: será que não há nenhuma causa que valha mais a pena defender do que o meu direito de não esbarrar com um adolescente de cabelo em pé, tênis com 5 cores de cadarço diferente, camiseta azul piscina e calça jeans amarelo ovo? Será mesmo que não preciso me preocupar com mais nada a não ser convencer esses pentelhos de que Rage Against The Machine é melhor que Fresno e que Cine? Pense nisso!

Acho que os dois lados estão errados, porque ninguém cogitou em nenhum momento usar uma simples palavra: RESPEITO.

Ninguém te rouba o direito de gostar ou de não gostar de algo, contanto que você o faça no seu canto, sem ferir ou magoar ninguém, respeitando o que há de melhor e de pior no outro. Isso sim faz toda a diferença.