Crises

o grito

É crise dos 27, crise dos 30, crise dos 3 anos de namoro, crise da solteirice, crise do quando é que eu vou ter um filho, crise do meu gato faz xixi na caminha… Pra quê tanta crise?

Nas últimas semanas tenho me deparado com alguns artigos em sites e blogs explicando momentos da “Crise dos 25”, da “Crise dos 30”, da “Crise da Chapinha que não alisa”. Porque é que temos essa mania de tentar classificar o inclassificável? De tentar agrupar todo mundo em uma determinada classe de gente, que “sofre igual” porque tem a mesma idade, o mesmo tipo de dentição, namora há tantos anos, tá solteiro há tantos anos, é gay desde a virada dos anos 2000 ou compra alface na mesma feira, todo domingo?

Nem irmãos gêmeos são 100% iguais. Porque é que pessoas, classificadas em grupos, seriam? Passar pelos 30 anos, por um casamento, pela adoção de um cachorro, pela primeira tatuagem, funciona de um jeito diferente para cada pessoa e, porque algumas delas passam por momentos de indecisão, não é motivo pra criar uma “crise”.

A impressão que fica é que a gente está muito preocupado em “se classificar” para se sentir parte de algo. Porque o nosso sofrimento por não estar na profissão dos sonhos, ou não ter o carrão que o papai tinha nessa idade, ou não ter um casal de gêmeos, ou não conseguir cuidar de uma planta é muito mais compreensível quando a gente “não está sozinho nessa”. Será que a gente já parou para se perguntar se é realmente tão ruim estar “sozinho nessa”?

Há dias ruins e há dias bons. Se a gente parasse de dar nome às crises e entendesse que há dias em que nada dá certo, mas que não tem problema, tá tudo bem, talvez a vida não tivesse tantas cargas a mais pra gente carregar.

Tem que tentar ser mais leve. Até porque essa vida aí, com crise ou sem crise, é uma só.

Das prisões que se cria

Eu me prendo. Sempre.

Sem amarras físicas. As minhas são mais densas. São amarras de espírito. De alma. De coração.

E elas fazem mal. Porque é difícil se desprender de coisas que você acredita que te fazem bem. De pessoas que te fazem sorrir. De gestos, palavras e ações. De gente bonita.

É ruim. É triste. É horrível. Mas, por vezes, é necessário.

Para libertar a própria existência, é necessário passar pelo sofrimento. Porque é nele que a vida está de verdade. É só quando você sai da sua zona de conforto que você vive de verdade. E a vida, de verdade, é difícil. As pessoas não estão acostumadas à vida de verdade, ao amor de verdade, à dor de verdade, ao dia a dia, de verdade.

Todos querem um sonho. Um motivo. Um alguém que se encaixe. Algo que possa ser olhado e percebido como alguma coisa que faz sentido. Como se ter algum sentido pudesse dar valor a uma existência. Todos estamos aqui, eternamente insatisfeitos, buscando algo que nos complete, que nos preencha, que nos faça pensar que não existe vazio.

Mas o vazio existe. Porque cada única pessoa nesse mundo está a procura de um sentido, de um momento que justifique, de uma forma concreta. Mas essa é a parte vazia. A procura, a eterna busca, é isso que é o vazio.

Se o mundo conseguisse simplesmente parar de procurar, seria simples ver que o vazio é o que incomoda. É a inquietude. É a falta de visão. São as algemas que a gente cria pra si próprio. É a zona de conforto.

O melhor da vida está fora da zona de conforto. Porque a vida é um risco, e a gente precisa correr. Todos os dias, um pouco de cada vez.

Das vontades do espírito

Por vezes, a boa intenção e a vontade de ajudar são nossas maiores qualidades e as dádivas mais incríveis do espírito.

Mas há vezes em que não é bem assim. Há vezes em que por mais que você tente entrar no coração do outro para entendê-lo, oferecer apoio, carinho, cuidado, atenção, o outro não está muito aí para o seu esforço. A compreensão não é algo que o mundo quer ter em mente mesmo.

Aí você se sente um lixo por tentar fazer o melhor por alguém que você gosta. E pensa que o seu conselho pode não ser exatamente o que esse ser está precisando.

Aí você volta atrás e tenta falar de novo. E não recebe nenhum retorno.

E a vida segue.

Desiste de ajudar. Desiste de ser legal. O meu nariz é o mais importante. A minha vida é a que tem que dar certo, a dos outros não. Eu tenho que correr todos os dias, tenho que fazer as coisas acontecerem para mim, por mim, meu umbigo.

Mas isso não tem nada a ver com você…

E todas as conclusões anteriores voltam. E se desfazem.

Afinal, conselho se fosse bom, não se dava, se vendia.

Retalhos

Algumas pessoas passam a vida costurando. Ah, houve uma mágoa irremediável? Vou costurar uma alegria incrível aqui do ladinho, assim não sofro tanto. Aquele amor que passou e não deixou nada de bom? Precisa ficar do ladinho daquele melhor amigo que sempre estará ao lado, mesmo quando estiver muito longe.

Costurar a vida é procurar amor. Um amor que faltou aqui vai sobrar ali. Uma palavra que sobrou aqui, guarde-a, ela faltará lá na frente e você vai precisar usar. Um amigo que você não vê há anos, pode ficar pra sempre no coração, mas aquele outro chegando na esquina pra tomar uma cervejinha em casa pode ser o novo melhor amigo da década. Aquela senhora que pega metrô com você todos os dias e que sempre repete as mesmas histórias pode ser a avó que você nunca teve e que um neto por aí desvaloriza. Aquela ex-namorada que você não pode ver vai precisar do seu carinho no novo amor, que não será igual ao antigo porque tudo vai ser melhor. Aquele ódio repentino vira amizade verdadeira quando você rasga o tecido do pré-conceito e faz um remendo, com um pano novo, uma nova fita, uma cor nova: a compreensão.

Por isso é que viver é  pregar retalhos numa colcha gigante: cada boa lembrança, sorriso, amor é um pedacinho a ser costurado, remendado, pregado, uma nova história é um pedaço de dia a dia, destacado em nosso fim de vida, quando a colcha já estiver pronta. Porém, nenhuma vida é perfeita. É por isso que as colchas precisam ter tecidos falhos, como a inveja, o ódio e a mágoa. Esses pedaços também são guardados nos corações, e assim como o retalho bonito de uma nova e verdadeira amizade, de uma família feliz ou do amor de mãe, o pano precisará ser costurado. Isso porque faz parte do ser, da história, da vida. O pano dos sentimentos ruins é aquele mais bonito, que não dura. Fica na colcha para mostrar que ela não é perfeita, mas envelhece, rasga, descostura.

Enquanto isso, vão-se lá os costureiros da vida. Cada dia reserva uma descoberta, um tecido novo, uma linha diferente. Cada retalhinho é escolhido e pregado, do jeitinho que escolhemos com quem passamos nossos dias. Se a escolha é pensada, nossa colcha terá vida – senão, terá apenas pedaços de pano, que juntos ou separados não fazem mesmo muito sentido.

Minha colcha tem retalhos feios e belos, mas tem vida. E a sua?

O mundo ficou mais fácil…

Há coisas na vida que a gente não programa, não pensa, não faz acontecer. A gente só sente, e como sente.

É difícil explicar esse tipo de reação. Talvez uma mistura cósmica, talvez uma renovação. Mas a insana aventura da vida está aí, para nos por entre pausas e entre vírgulas e nos fazer prosseguir.

O mais intenso é quando se começa a experimentar as mais incríveis sensações que a vida poderia proporcionar. De forma insana, sem pausas, sem vírgulas, sem exclamações. Cada pequena surpresa que aponta para um novo caminho, um novo direcionamento.

Sempre fui um pouco idealista. Ainda que para mim ou para querer cumprir com a determinação da vida, eu sempre achei que fosse possível partilhar. E partilhar tudo, de todas as formas, sem medos, sem apegos, sem manha. Como diria o poeta “sem farsa, conchavo, sem guera, sem malta, corja, ou trapaça”. E por mais impossível que esse tipo de coisa possa parecer, compartilhar tudo de mim com alguém, esse era o sonho. Sem me sentir um ET. Sem conversar com um ET. E ao mesmo tempo enxergando todas essas diferenças. Tudo o que poderia me afastar do mundo e me unir a alguém que entendesse essa fúria e essa insanidade.

Não era nada muito complicado. Só alguém pra entender a minha forma de ver essa sujeira toda que está aí fora e que compartilhe da vontade de mudar, ou de se mudar. Sem acomodar com o que incomoda. Alguém que me fizesse sentir bem. Sem complicações, com simplicidade. Loucura e sanidade.

Te achei.  Quem foi que disse que nós contamos com o tempo? Eu vejo você! E eu vejo tudo o que eu sempre sonhei e tanto que eu consegui em você.

Amor é pouco para descrever tudo o que eu sinto por você.

Lição de Casa

Acho que todas as coisas mais incríveis que alguém pode querer do amor estão escritas em músicas, daquelas que são mais profundas, daquelas que têm mais conteúdo. Porém, nos últimos dias, todas as vezes em que escuto a melodia desse som, leio a letra dessa música ou a escuto, penso que tudo o que ela descreve é exatamente tudo o que eu procuro.

Lição de Casa – Pullovers

Quero aprender a andar na luz do dia.
Quero aprender a gostar de calor
Enquanto esse verão ainda existe,
Antes do frio e do cobertor.

Quero aprender a perder o meu rumo,
Chupar o sumo do que eu for sentir,
Tragar o mundo como eu trago o fumo,
Perder o prumo e me deixar cair

E desse jeito aprender o que é vida,
O que é preguiça de se aborrecer,
Olhar o mundo como quem me ama
Que disse que me ama até morrer.

Quero aprender a dizer o teu nome
Como ninguém nunca ousou dizer,
A ser você, a matar minha fome
No teu sorriso que me faz morrer.

Quero aprender a não dizer mais nada
Dizendo tudo o que puder haver,
Falando pouco, em poucas palavras
Contar pro mundo que tudo é você

E desse jeito aprender o que é vida,
O que é preguiça de se aborrecer,
Olhar o mundo como quem me ama
Que disse que me ama até morrer.

Quero aprender a me esquecer da vida,
Ter na cabeça só raios de sol
Como a minha querida
E sem mais sem mais, sem mais
Sem nada só você, amor.

Quero rodar enquanto o mundo roda,
Fazendo pó na estrada com você.
Ouvindo moda enquanto você joga
Em mim a culpa por querer viver.

Quero cantar como num balbucio
Porém gritando se eu quiser gritar,
Por opção, como quem ama o Rio
Mas tem São Paulo como seu lugar

E desse jeito aprender o que é vida,
O que é preguiça de se aborrecer,
Olhar o mundo como quem me ama
Que disse que me ama até morrer.

Muito mais que uma lição de casa, considero esse som como uma lição de vida.

Conheça os Pullovers

Imagem daqui