Sua Voz

 

A sua voz na minha cabeça
Diz o que eu fiz certo e o que eu fiz errado
Dança, canta, grita e esperneia
Faz um escândalo. Prova seu ponto
É a sua voz na minha lista
Das que esqueceria brevemente
Se suas palavras não pesassem docemente
Cada um dos meus argumentos falhos e vazios
É a sua voz que me acorda no frio
De um pesadelo que não tem mais fim
A voz que puxa, que traz para dentro de mim
Uma série de memórias não vividas
A mesma voz que cantava a rebeldia
De uma canção não comercial
A mesma boca consumia docemente
A mesma sede que o meu corpo chamaria
A mesma voz que eletrônica proclama
Que a minha vida eu devo passar a beber
Só porque um dia eu possa, por um momento, esquecer
Que é de você que eu sinto falta
Não do seu corpo, do seu jeito, da sua calma
Mas daquela primeira dança
Momento em que só em corpos nos encontramos
Lembrança para qual quis voltar
Momento em que ela não havia possibilidade
Nem música
Nem voz
Nem vontade
Nem viagem
Nem descompromisso
A gente podia ter ficado só nisso
Uma inocente dança e sem pauta
Assim, sabe-se que preparada, eu não sentiria sua falta
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Halls de Melancia

halls-de-melancia

No meio do dia agitado no trabalho, uma colega pergunta:
– Alguém quer um halls de melancia?

Halls de Melancia. Era o cheiro forte dessa bala que sempre aparecia quando eu encontrava você. Poderia até ser o Trident do mesmo sabor, também moda na época, mas sempre achei que o Halls era mais característico. Mais a sua cara mesmo.

E era esse cheio de melancia que estava sempre no seu carro. Ou em você. Seu perfume (sempre o mesmo ao longo de todos esses anos) não dava conta de cobrir o cheio de melancia que a sua boca exalava e que eu gostava de sentir, naquelas tardes tão curtas, enquanto eu roçava meu rosto na sua rala barba.

Era o gosto de melancia do tal Halls que ficava em mim depois de cada beijo. Era o tal do Halls de Melancia que eu comprava na barraquinha perto da faculdade, ou no bar do lado do estágio, ou na vendinha na frente da escola, cada vez que batia a saudade e eu não podia mais simplesmente te ligar e pedir pra te encontrar ou marcar de te ver.

E hoje, foi o mesmo Halls de Melancia que me arrancou um sorriso do rosto ao lembrar de você e de toda essa história…

Porque essa história eu sempre vou gostar de lembrar. Ainda que não tenha sido o conto de fadas que a adolescente em mim sonhou um dia, tudo no final deu certo, não é mesmo?

Onde Estão?

Onde é que foi parar aquele caderno cheio de versos tristes que te faziam rir da sua adolescência?

E aquele pôster velho que você vai remendar de novo com durex para colar de novo na parede? De novo, pela milésima vez, em um cantinho diferente do anterior, em uma casa diferente da anterior, ou só na parede do outro lado do quarto.

Onde está o sol nas bancas de revista?

Onde estão as piadas simples que ainda fazem você chorar de rir, nem que seja por um minuto?

Onde está aquela guinada na rotina, que te faz dançar numa segunda-feira chuvosa, na pista ou no seu quarto, no meio de um turbilhão de pensamentos?

Onde está aquele amor de verão que foi rápido demais, mas foi intenso demais também?

Onde está aquela foto da formatura, que te traz tantas boas lembranças? E aqueles amigos da foto, onde estão?

Cadê aquele sorriso sincero que surgia no seu rosto só para quebrar o gelo numa conversa formal demais? E aqueles braços estendidos pra o abraço que a sua amiga tá precisando?

Onde está aquela felicidade pueril do novo disco, da nova banda, da nova música no seu tocador de Mp3?

Onde estão aquelas músicas que explicam o que você sente mesmo que você não tenha reparado nisso antes de ouvir a canção, naquele dia difícil?

As cordas antigas do violão empenado?

As carteirinhas de estudante do ensino médio?

O RG escolar?

E aquele disquete que tinha os emuladores dos seus jogos favoritos?

Aquela foto 3×4 do seu melhor amigo quando tinha 5 anos. Como ele está diferente, né?

Cadê aquela roupinha que sua mãe guardou do seu batizado?

A lista de músicas que tocou na sua primeira comunhão? O seu escapulário velho? Cadê a sua crença, sua religião?

Onde foi que você escondeu aquele colar que ganhou de presente da primeira namorada da quarta série? Ou a cartinha que mandou para aquele garoto que achava bonito no colegial?

Onde estão aquelas risadas da hora do almoço, daquele espaço que você achou que não podia lhe caber mais?

Lembra daquele diário em que você escrevia o que achava que seriam as músicas mais tocadas em 2015? As músicas que você escrevia e imaginava tocar? Onde foram parar essas lembranças?

Cadê aquele mapa do tesouro que você desenhou só pro seu amigo achar que você vivia numa casa antigamente frequentada por piratas?

E as bolinhas de gude do seu armário?

E as cartas de baralho?

O Jogo da Vida?

O Super Nintendo?

Cadê aquele patins que você herdou da sua prima e que tinha uma rodinha a menos, mas não importava, era seu brinquedo favorito?

E aquela bicicleta vermelho metálico que a turminha da escola invejava?

Onde é que você enfiou aquele kit de canetinhas que fazia todo mundo da sala tentar ser seu amigo?

E a sua foto com o professor favorito da turma na sua colação de grau?

Talvez cada uma dessas coisas esteja num armário velho.

Talvez nem na sua casa, na casa dos seus pais.

Talvez tenham ido para uma fogueira de mudança.

Para a reciclagem.

Para o lixo comum.

Talvez estejam tão bem escondidas que você nem saiba onde estão.

Talvez você nem lembre mais que elas existem.

Talvez elas nem existam, de fato.

Mas essas coisas formam outra coisa. Outra coisa que existe, que é importante e que está em algum lugar.

Essas coisas são você. E suas lembranças. E o seu jeito de ver a vida. Seus valores, seus anseios, seus sonhos estão espalhados em cada pedaço de memória que você conseguir rastrear. Com carinho, com ódio, com remorso, com amor.

Onde estão seus pedaços no mundo?

Torça para encontrá-los. Por todos os lados.

O cheiro do carinho

cheiro-de-carinhoOntem, voltando para casa de mais um dia de trabalho duro, sentou-se do meu lado no metrô uma garota que tinha exatamente o mesmo cheiro de uma das minhas melhores amigas do colégio. Quando eu senti aquele cheiro, distraída com as músicas do meu telefone, por um segundo pensei que ela, aquela minha amigona de tanto tempo, estava ali do meu lado e não a quilômetros e quilômetros de distância, numa realidade totalmente diferente daquela da nossa infância e adolescência. Meu coração até acelerou.

Não era ela, era só mais uma passageira do “avião do trabalhador”, mas aquele cheiro me lembrou um monte de aventuras. Coisas de quando a gente é criança e não sabe direito o que quer ou o que faz. As inconsequências de ser adolescente, os papos sobre propaganda de TV, garotos, música e as responsabilidades que viriam na vida adulta. Vieram na cabeça coisas das quais me orgulho muito de ter feito, grandes trabalhos e apresentações que na época tinham a maior importância do mundo pra mim e que hoje eu vejo que não eram lá grande coisa. Lembrei também que eu era uma das poucas criaturas com 13 anos que já estava lendo literatura obrigatória da Fuvest e que ainda assim não conseguiu  passar de verdade na grande universidade, parte porque só tentei duas vezes, parte porque a segunda vez não foi com tanto afinco. Lembrei que ali, nas minhas atividades da escola, muita gente já me via como jornalista e que só eu não fazia ideia de como essa profissão se encaixava com o que eu queria para a minha vida. Lembrei de grandes cagadas, besteiras que fiz, algumas que me arrependo muito, outras que não me arrependo nada e lembrei da importância daqueles amigos de uma época de ouro que não volta mais e da relevância que cada um deles teve nas minhas decisões, na minha formação e no meu caráter. Lembrei das horas passadas na biblioteca, ouvindo as músicas da rádio da escola, fazendo trabalhos, jogando conversa fora, conhecendo alguns dos meus grandes ídolos…

Foi ali, no meio de todas essas lembranças e com o metrô bombando de gente, que eu percebi a importância que o cheiro de alguém tem. Não, não  um perfume, uma marca, alguma coisa que você consegue comprar num frasquinho e usar quando quiser. O cheiro daquela menina lembrava o cheiro que a minha amiga tinha naturalmente, um perfume que misturava alguma loção que eu nunca soube qual era com o cheiro do cabelo, das mãos, o perfume resultado da mistura de algum produto com a pele dela. Lembrei do cheiro dela, do cheiro do nosso eterno professor de português, do cheiro de outros amigos, do cheiro dos corredores da escola, do cheiro que tinha a casa do meu pai quando eu recebia algum amigo lá, do cheiro da minha mãe. São perfumes, fragrâncias, coisas que só nosso nariz percebe, mas que carregam um milhão de lembranças. O cheiro de alguém que se ama ou se amou, o perfuminho daquele cuidado, do carinho. A minha memória olfativa me fez chorar de alegria.

Um novo durex na minha mesa


Sim…

Foi no dia 26 de novembro.

Eu nunca havia trocado o durex da minha mesa no Sindicato do Comércio Varejista de Flores e Plantas Ornamentais do Estado de São Paulo – Sindiflores. Desde o dia 18 de julho de 2005 (aniversário de 19 aninhos do fofo do meu amigo Rafael), que aquele durex me acompanhou. Desde que entrei pra ‘equipe Sindiflores’ (aliás, grande equipe! Eu e o Romeu, Romeu e eu!). Mas voltando ao durex… Nem sempre naquela mesa, mais ele sempre estava lá, em seu suporte vermelho! Quando eu cheguei ele estava lá, e não me lembro de nenhuma troca. Ele era o meu durex.

Estava lá quando contratamos a Versátil Cobranças, estava lá quando recriamos o jornal, estava lá desde que me lembro. Quando a equipe Sindiflores diminuiu e o Machado (que nem sempre ajudava muito) saiu, quando a equipe Sindiflores aumentou e a Selma dos problemas do banco veio cuidar, ele estava lá. Quando eu precisava dele para embrulhar direito os envelopes com as cartas dos contribuintes, quando eu passei a usar barbante pra fazer isso e quase não o usava mais, quando eu ficava puxando uma ponta enquanto atendia o telefone, quando eu ficava segurando o suporte enquanto falava do Cartão Empresarial Sindiflores… todo o tempo.

Estava lá também quando o computador chegou (o novo). Quando o Romeu teve a idéia de criar o Troféu Sindiflores e quando eu achei aquilo o máximo. Quando a idéia mudou e nós criamos a Floriculutura Modelo, que foi um sucesso. Quando a Ligia foi contratada, pra ajudar a gente com a divulgação da Floricultura Modelo. Quando a gente voltou da 9ª FiaFlora Expogarden. Aliás, foi ele que me ajudou a envolver os Manuais da Floricultura Modelo que sobraram!!!

Ele estava lá também, fiel durex sempre presente, quando comecei a fazer o curso de Indesign CS2 no Senac Consolação (tudo bancado pelo meu amado sindicato). E quando eu sem querer deixei a carta de demissão da Ligia dentro da gaveta (o rascunho) e ela viu. E bem depois também quando 2007 começou.

Estava lá em seu suporte vermelho o tempo todo. Desde a cobrança sindical, passando pela confederativa e embrulhando a assistencial. E assistiu junto comigo a grande reforma do sindicato, e ficou lá quando eu sai de férias, e voltei pra ver a minha antiga sala totalmente reformada e linda. Virou uma das peças da minha nova mesa, com o meu novo mouse-pad, e com tudo novo por lá. Acompanhou as novas cartas q emiti, as faxinas novas na sala nova e recebeu comigo com carinho as plantinhas que enfeitaram a nova sala como ela merecia. Eu, Romeu e Selma tinhamos cada um o seu lugar. E suas plantas também!!! [:D]

Estava lá em cada bronca que o Romeu me deu. E sabia, assim como eu, que ele tinha razão pra dar cada uma delas. Estava lá à cada conciliação bancária feita, a cada conferência no ARRECADA, a cada ofício escrito, a cada carta emitida, e a cada ida ao banco. Estava lá todo dia, até naqueles em que eu fechava o caixinha e passava o valor pra o Romeu emitir o cheque. Estava lá quando o site era por mim atualizado. E quando o Info@Sindiflores era por mim enviado por e-mail. Estava lá a cada nova edição do “O FLorista”, lindo jornal que eu fazia com tanto gosto, com o amor que sinto pelo jornalismo. Estava lá quando o Romeu e a Selma achavam todos os erros que eu inicialmente não via no jornal. Estava lá também a cada vez que eu fiz café, no tempo em que eu não tinha a cafeteira ainda e o Romeu me levava pra tomar café na barraquinha da velhinha, lá no Parque da Água Branca (aliás, que velhinha simpática e que café bom). Estava lá quando a cafeteira chegou e também quando o tartaruga quebrou seu bule e o Romeu teve que sair correndo pra comprar outro (porque o meu café vicia). Estava lá nas risadas das conversas com o Romeu. Estava lá, ouvindo os papos com a Selma. Ou quando iamos almoçar, os três, na Assossip, ver a Mônica, o Rogério, o Adriano e todos os outros que trabalhavam lá (ou não). Estava lá, firme em seu suporte quando a Selma segurava seu oclinhos, e eu a ensinava a mexer no InDesign. Usual quando eu precisava colar algo. Firme quando eu estava feliz. Mais ainda quando eu estava triste. E estava lá também no dia 26 de novembro, quando eu pedi demissão. E antes de ir embora, só habitualmente puxei uma de suas pontas. A última. Acabou meu durex. Acabou meu tempo no Sindiflores também.

O meu durex acompanhou esses e outros momentos, mais teve o seu fim.

A minha temporada no Sindiflores também.

Eu vou sentir saudades!

(Na imagem, prédio do fazendeiro. Lugar que abriga o Sindiflores – 2º andar/ sala20 – e que me abrigou durante dois anos e quatro meses)